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Eleições 2020 - confira neste post as principais propostas dos três candidatos à presidência do Corinthians

2020.11.04 18:00 PolylingualAnilingus Eleições 2020 - confira neste post as principais propostas dos três candidatos à presidência do Corinthians

Boa tarde, nação corinthiana do Reddit. Estamos fazendo este post para deixar mais claras as propostas (já postadas em posts separados) dos três candidatos à presidência, sem precisar ir a outro site ou ver vários posts diferentes.
Aqui seguem as propostas dos 3 candidatos, em ordem alfabética.
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Augusto Melo:

1 - Gestão Meritocrática

Criar um plano com metas e objetivos. Gerir o Corinthians de forma clara, objetiva, profissional e organizada, com responsabilidade com os ativos financeiros, físicos, tecnológicos e humanos.
Administrar o clube para orgulho de cada corintiano, com uma visão de futuro e de vanguarda. Ter profissionais qualificados nas áreas e com perfil vencedor.

2 - Financeiro

Recuperação da credibilidade financeira e moral. Apresentar os ativos de valores da marca e de sua torcida e o seu grande potencial financeiro para toda e qualquer ação.

3 - Jurídico

Ter uma equipe profissional de grandes advogados especialistas em áreas distintas, que blindem o Corinthians.
Contratar especialistas nas áreas de: compliance (conformidade), trabalhista, esportivo, empresarial e recuperação de créditos.

4 - Clube social

Desenvolver uma administração independente para o clube social, com gestão de custos e gastos para torná-lo autossustentável. Aumentar o número de associados com atrações que o clube possa dispor, decorrente da excelente localização que se encontra.
Modernizar o clube e criar uma referência de espaço multiuso para os sócios de forma autossustentável juntando conveniência, diversão, segurança e entretenimento aos sócios e aos corintianos.
Criar uma rede de hotéis do Corinthians, começando pelo clube e depois no CT, adotando o sistema "timeshare", que dá a garantia ao Corinthians de ter receita mesmo em baixa temporada de férias ou eventos. Oferecer clube, parque, shopping e hotel num único espaço.
Trabalhar para fazer com que a mulher tenha maior participação na vida do clube, como o direito ao voto do sócio 01, por exemplo.

5 - Arena

Transformar a Arena numa grande fonte de espetáculos e de atrações comerciais e corporativas, transformando-a num grande polo esportivo, cultural e de entretenimento de São Paulo.
Restabelecer o domínio administrativo e financeiro da Arena. Revisar e renegociar os acordos vigentes.
Todos os jogos na Arena serão um espetáculo.

6 - Futebol

Desenvolver um departamento de futebol do clube vencedor, com administração séria, transparente e competente. Os atletas que vierem a jogar no Corinthians serão valorizados por toda a estrutura profissional em que estarão inseridos e, por isso, serão cobrados também pelo profissionalismo esportivo e de conduta. Um time forte se faz com atletas fortes e com planejamento pautado nos resultados, esportivos e financeiros.
Será oferecida uma gestão de marca e curadoria aos jogadores. Desenvolveremos e manteremos novos ídolos para o Corinthians. Teremos um time de futebol montado com verdadeiros guerreiros e que jogarão com o ímpeto de vencedores.
Na base, desenvolver o departamento com efetiva formação de atletas. Já no futebol feminino, ser referência esportiva, administrativa e de marketing. Utilizar premissas de desenvolvimento do futebol masculino no feminino.
Nas negociações, ter critérios pré-estabelecidos que serão rigorosamente cumpridos, satisfazendo os objetivos do atleta e do Corinthians, não dos empresários.
O time irá treinar no clube social uma vez por mês. A sirene do Parque São Jorge será tocada nas apresentações dos jogadores.
Queremos ser referência também nos departamentos de estatística, médico, de fisiologia e fisioterapia esportiva.

7 - Ingressos

O valor do ingresso será congelado durante um ano. Crianças abaixo de oito anos não pagarão ingresso. O programa Fiel Torcedor será aprimorado e com de abrangência nacional. A cada jogo do Corinthians, uma família que nunca assistiu a uma partida do time será beneficiada com uma ida ao estádio para acompanhar o espetáculo.

8 - Corinthians Solidário

Em todos os jogos mil ingressos serão disponibilizados para pessoas carentes.
A cada partida os torcedores poderão entrar numa plataforma e assinalar quantas cestas básicas eles doarão para uma entidade assistencial a cada gol marcado pelo Corinthians. Esta promoção faz com que, a cada jogo, seja criada uma “Bolsa de Apostas do Bem”.

9 - Shows e eventos

Será criado um calendário de eventos para o clube. No Parque São Jorge, serão realizados shows a preços populares. Na Arena, grandes eventos.

10 - Institucional

Reestruturar todo o projeto de iluminação do clube, batizado de "Projeto Lampião", nome inspirado na história de criação do Corinthians.
Enaltecer os ídolos que escreveram a história de conquistas e vitórias do Timão.
Desenvolver uma metodologia de incentivo aos esportes amadores do Corinthians, valorizando futuros atletas e incentivando a prática do esporte em suas diferentes modalidades e características, com incentivos fiscais federais e estaduais.
Pensando nos jovens, o Corinthians terá uma das mais importantes e modernas arenas de e-sports do Brasil.
Construir o Hospital Dr. Sócrates no Parque São Jorge e desenvolver clínicas de exames e primeiro atendimento.
Criar a "Salve", operadora de telefonia própria do clube, além de uma uma rede social própria do clube e uma plataforma digital de transmissão por streaming de conteúdo audiovisual por demanda. A programação da televisão contará com conteúdo jornalístico, esportivo e filmes.
Inaugurar a Corinthians Academy, uma plataforma de educação e intercâmbio do Corinthians através do futebol, compartilhamento das metodologias esportivas e de gestão do clube.
Desenvolver uma aliança junto a uma grande instituição internacional, com o compromisso para o ensino da língua inglesa para todos os jogadores que estiverem na base do Corinthians.
Realizar uma vez por mês uma reunião com os torcedores para discutir novas ideias através da perspectiva e experiência de quem vive o dia a dia e acompanha o time em todos os jogos.
Criar a "Fiel Cap", título de capitalização do Corinthians, um produto financeiro/filantrópico que premiará a torcida e destinará parte da arrecadação à Cruz Vermelha.
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Duílio Monteiro Alves:

1 - Clube social

O clube precisa ser um espaço que contemple todas as idades da família corintiana, com segurança, serviços de qualidade, valores acessíveis, boa infraestrutura, esporte, cultura e lazer. Para tanto, como sócio, frequentador desde o berço e profundo conhecedor dos anseios dos associados e das dificuldades do clube, baseamos a gestão do clube social em quatro pilares essenciais: Estrutura, Social/Lazer, Esportes e Tecnologia.
Com base nesses pilares, elaboraremos um Plano Diretor para padronizar a identidade do clube e permitir seu crescimento planejado e dentro da legislação. Vamos modernizar a academia e o parque aquático, ampliar as vagas de estacionamento e criar novas atrações voltadas para as crianças e os adolescentes, como skate (cuja pista foi recentemente inaugurada), BMX e e-Sports, além de incentivar os times Masters do clube. Também implementaremos a segunda fase do projeto de Wi-Fi para os sócios e a entrega das novas funcionalidades do sistema de gestão da secretaria do clube, que facilitará o contato com os associados.

2 - Gestão de esportes olímpicos e amadores

O foco nas modalidades esportivas que vão além do futebol profissional seguirá forte. A intenção é que o Corinthians se estabeleça cada vez mais como um clube formador, em diversas modalidades, tanto no esporte amador quanto para os sócios. E que os esportes sejam, em breve, autossuficientes. Para isso, criaremos um braço específico do departamento de marketing/comercial que trabalhe parcerias de investimento para as modalidades dos diversos esportes praticados no clube, buscando patrocínios, incentivos a intercâmbios, comunicação, promoção e divulgação nas redes digitais do clube. O objetivo é fazer com que os demais esportes sigam o exemplo do que temos hoje com natação, basquete e futsal, que possuem todas as categorias de formação de atletas – para que, assim, o clube possa contar com o atleta que forma, além de evitar perdê-lo para outros clubes. Paralelamente, iremos manter o fortalecimento das seleções associativas, de modo que o sócio possa continuar treinando e participando, sem perder espaço para o atleta de alto rendimento.

3 - Futebol profissional

O Corinthians tem obrigação de disputar títulos todos os anos. Essa certeza me orientou desde quando participei da montagem do time que ganhou o Brasileiro de 2011, a Libertadores e o Mundial de 2012. As taças da última década criaram uma cultura de vitórias, da qual não podemos abrir mão. Tivemos um tri paulista e campanhas sólidas na Copa do Brasil de 2018 e na Sul-Americana de 2019, fomos vices no Paulistão neste ano. Embora não estejamos satisfeitos com os resultados mais recentes, é preciso reconhecer que a atual gestão deixará uma estrutura profissional, em todos os sentidos. Os setores estão consolidados: teremos uma comissão técnica experiente; um elenco com talento e jovens promissores, que evoluirão para um encaixe no futuro; um Centro de Inteligência operante; um CT sem igual no Brasil; uma base forte e totalmente estruturada com seu novo CT, além de uma das Arenas mais modernas do mundo. O time sub-23 cumprirá um papel fundamental: ele dá rodagem e acompanhamento próximo a meninos da base no último estágio da maturação, como ocorreu com Roni, Raul e Xavier, além de abrigar a captação de talentos mais tardios. O desafio é aprimorar para continuar ganhando.

4 - Futebol de base

A formação de atletas exige investimento a longo prazo, olhar apurado e paciência com os processos. A atual gestão continuou a otimização da base, que foi competitiva em todos os campeonatos, revelou talentos que reverteram lucro, como Pedrinho e Carlos, e retorno esportivo, como Mantuan, Lucas Piton, Roni e Xavier no time principal. O próximo passo é ainda mais importante: com a entrega do CT da base neste ano, vizinho ao CT profissional, o Corinthians traz um incremento definitivo à formação e à transição desses jovens para o time adulto. Em 2021, finalizaremos o alojamento que receberá 160 jovens, com conforto para os atletas e confiança para as famílias que muitas vezes optavam por outros clubes devido ao custo do transporte, à moradia distante, à falta de segurança, entre outros aspectos, além de permitir ao Corinthians acompanhar esse atleta mais de perto e orientá-lo no seu crescimento como atleta e cidadão. Iremos ainda implantar as tecnologias de ponta utilizadas com os profissionais também na base, auxiliando no acompanhamento do desempenho, no aprimoramento do desenvolvimento dos jovens e na captação de novos talentos. E para garantir que isso se torne realidade, faremos com que os dois departamentos trabalhem ainda mais próximos e em sintonia, acompanhando e participando pessoalmente de todo o processo.

5 - Futebol feminino

O time feminino do Corinthians é mundialmente reconhecido como um caso de sucesso, graças ao trabalho incessante da diretora Cristiane Gambaré com apoio do presidente Andrés Sánchez. Motivo de enorme orgulho da nossa torcida, ninguém discute hoje que a evolução da modalidade no Brasil e na América do Sul passa, obrigatoriamente, pelo Corinthians. Renovamos nosso compromisso de consolidar o nosso futebol feminino entre os melhores do mundo, contando com talentos de seleção brasileira, como Lelê, Tamires e Andressinha. Nos próximos anos, o futebol feminino também será um laboratório de inovação, dentro e fora do gramado, promovendo, cada vez mais, as histórias de superação, dedicação e enorme talento das nossas meninas e aproximando o clube de um novo perfil de torcida, dedicada à modalidade.

6 - Gestão financeira e governança

Como a capacidade de geração de caixa do nosso clube é gigantesca, precisamos adotar as melhores práticas de gestão, ter profissionais capacitados e fazer uso de ferramentas que nos possibilitem equilibrar as finanças e garantir fluxo de caixa positivo. A disciplina financeira será um objetivo a ser perseguido com elaboração de orçamentos, fluxos de caixa projetados e políticas internas de gastos e investimentos. Tudo alinhado a planejamento estratégico com foco em atender as demandas de nossa imensa torcida e de nossos sócios. Para nos ajudar nesse desafio, estamos alinhando procedimentos com uma das quatro maiores consultorias de gestão do Brasil e do mundo. Trata-se de um investimento que certamente nos ajudará a implementar e perpetuar processos e procedimentos que trarão importante retorno estratégico e financeiro. Governança é algo em que iremos também investir permanentemente para proteger e impulsionar nosso clube. Já estamos sob as regras do Estatuto Social e de outras diversas que precisam ser respeitadas de forma irrestrita, além de constantemente revisadas e aperfeiçoadas. Vamos incentivar o estreitamento das relações com todos os poderes do clube, como Diretoria Executiva, Conselho Deliberativo, Conselho Fiscal e Conselho de Orientação. Na seção “Transparência” do site do clube vamos publicar os balancetes mensalmente, além de todos as demais demonstrações financeiras acompanhadas por relatórios de auditores.

7 - Inovação, comunicação e marketing

A transformação digital do clube exige o cumprimento de uma missão: colocar o nosso torcedor no centro do ecossistema corintiano. Para isso, nossa estratégia é buscar uma interação total clube-torcedor, por meio de um aplicativo de celular fácil e ágil: a ideia é que o ingresso, o gol e até a cerveja da Arena estejam à distância de um clique. Mas a ambição não fica restrita à experiência na Arena: seja para a geração de conteúdo engajador em todas as nossas plataformas, seja para conceber produtos e serviços de real impacto no torcedor, seja para executar um programa de nacionalização e internacionalização do clube a sério, tudo isso exige criar uma relação de intensa intimidade entre clube e torcedor. Todo corintiano importa, esteja ele em Corumbá ou em Yokohama, e nossa gestão tem que garantir que o exercício da paixão corintiana seja pleno em todos os momentos e lugares.

8 - Transformação comercial

Nosso objetivo é aumentar a receita comercial em 50% nos próximos três anos, uma ambição que exige muito mais do que simples venda de patrocínios. É preciso acoplar um misto de microscópio com mira laser em todas as ações comerciais do futuro. Primeiro, criaremos um grupo profissional e verticalizado com foco na geração de parcerias comerciais de valor real para torcedores, parceiros e clube. Depois, combinaremos as ferramentas mais modernas de gestão comercial, como Big Data e Inteligência de Mídias Sociais, com outras já presentes no clube, como o CRM e monitoramento de valor de marca em mídia, a fim de ampliar o alcance dessas ações. O caminho é unificar as bases de dados de torcedores e consumidores, entender seus hábitos de consumo e interpretá-los estrategicamente para o aumento de receita.

9 - Fiel Torcedor

O aprimoramento do nosso programa Fiel Torcedor será uma das nossas maiores prioridades nos próximos três anos. Queremos triplicar a base de associados, e isso significa tornar o Fiel Torcedor atraente a todos, independentemente de onde morem. Como fazer isso? Bom, a gestão atual já investiu numa interação mais direta: o Fiel Torcedor já faz perguntas nas entrevistas coletivas, sejam elas de imprensa ou reservadas aos fiéis-torcedores. Tudo isso será intensificado. Os próximos passos são claros: além dos benefícios tradicionais, como desconto nos ingressos e nos produtos licenciados, haverá acesso a conteúdos exclusivos, experiências únicas no CT e na nossa Arena, participação em jogos e competições com distribuição de prêmios e brindes, prioridade no recebimento de notícias. Enfim, será um caminho para viver a paixão corintiana de forma privilegiada.

10 - Arena

Iremos transformar nossa Neo Química Arena no centro vivo da paixão corintiana. O acordo dos naming rights, combinado com as negociações avançadas para a quitação da Arena, nos permitem projetar uma geração de novos recursos ao clube já no primeiro ano da gestão. Cumprindo sua vocação de equipamento central da Zona Leste, iremos trazer um hotel (já em negociação), um espaço de coworking (já em negociação), tirolesa (fase de contrato), um restaurante no 4º andar (contrato já assinado) e novos bares nos setores Leste/Sul. Outros planos incluem a realização de inúmeras ativações em datas diversas além dos dias de jogos em parceria com a Neo Química, com shows e eventos culturais. Por fim, queremos criar uma incubadora de empreendedorismo digital, o Hub Fiel, a fim de incentivar projetos tecnológicos, os quais o clube terá prioridade na aquisição.
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Mario Gobbi:

1 - Saúde financeira

Como é de conhecimento público, a situação financeira do Corinthians é gravíssima e praticamente pré-falimentar. Então, a recuperação das finanças, bem como da credibilidade do clube, será prioridade. O projeto para esta área é bastante complexo, como teria que ser face à complexidade dos desafios e oportunidades de um clube como o Corinthians. Mas ele passa essencialmente pela gestão eficiente do fluxo de caixa do clube. Temos que equilibrar as contas, voltar a gastar dentro do que o clube arrecada, mas, além disso, buscar o crescimento desta arrecadação, gerando recursos para investir no futebol e nas outras importantes iniciativas do clube. Entre os principais pilares do projeto da área financeira, além de prováveis cortes de custos e da readequação de processos internos que a auditoria de uma das big four\* (Deloitte, Ernst & Young, KPMG e PricewaterhouseCooper) irá nos mostrar, temos um plano de criação de fundos de investimento, feito por um renomado profissional da área e com passagens por grandes instituições brasileiras e internacionais. Em três anos, quero entregar o clube saudável financeiramente e com o caminho trilhado para ocupar o seu devido lugar: o protagonismo permanente no futebol mundial. \Quatro principais empresas de auditoria do mundo.*

2 - Credibilidade

O Corinthians vive uma crise profunda de credibilidade com a sua torcida, que é o principal patrimônio do clube, e com o mercado. Para reconstruirmos esta credibilidade, temos um grande projeto administrativo que, resumidamente, contemplamos: realização de uma auditoria geral em termos de processos administrativos e financeiros, recursos humanos e sistemas de informação; um plano de governança corporativa, gestão de riscos associados e compliance; remodelamento dos processos de aquisições e suprimentos, após diagnóstico dos processos atuais envolvendo seleção, contratação e gestão de fornecedores; reestruturação da área de recursos humanos; revisão da tecnologia e sistemas utilizados em termos de integrações, automação e inteligência de mercado; e atuação na área de patrimônio e controle de obras. Todas as ações, que podem ser conhecidas com muito mais detalhes no site da Reconstrução Corinthiana, certamente colocarão o Corinthians em condições de recuperar a imagem positiva perante a sociedade, incluindo credores, fornecedores, comunidade esportiva, poder judiciário, sócios e torcedores.

3 - Arena Corinthians

O projeto para a Arena Corinthians é grande e todos os pontos podem ser consultados no programa completo. Alguns que cito aqui são: a total profissionalização dos quadros de profissionais do estádio; a transformação em uma Arena multiuso com o objetivo de ampliar drasticamente o número de dias utilizados; e que tenha separação de custos do clube afim de que opere por meios próprios, sob comando do clube.
Algumas das propostas são: aumentar a ocupação do estádio com estratégias de inclusão dos corinthianos de camadas sociais menos privilegiadas, aumentar previsibilidade e garantia das receitas de bilheteria através da implantação do Season Tickets, aumentar quantidade global de compradores de ingressos, internalização da venda de ingressos e programa de relacionamento, ingressos subsidiados para a comunidade, melhorar a experiência “Corinthians” no estádio para todos, análise de Dados, CRM e BI, adequação das faixas de precificação, melhoria e desenvolvimento de canais de venda e parcerias, maximização do uso de inteligência de dados para ativações segmentadas e customizadas, transformação da Arena em um destino diário, com atividades diversas, integração de fato e “abertura” da Arena para a população da zona Leste e do entorno, aproximação com órgãos de turismo, transformação do Oeste Inferior em uma área de comércio e serviços para atrair visitantes em dias sem jogos, potencializar atividades de esporte e lazer em áreas externas, posicionar a Arena como espaço para Eventos sociais e corporativos.
Abertura dos espaços externos para uso da população e realização de eventos esportivos, de lazer e culturais, benefícios e facilidades para moradores de Itaquera na aquisição de ingressos para determinados jogos, maior gestão sobre a qualidade e oferta de serviços prestados pelos operadores terceiros / parceiros, visando maximizar oportunidades de receitas e níveis de atendimento aos frequentadores da Arena, incluir Arena no calendário de grandes shows e turnês internacionais, valorização da experiência premium e conceito do produto, criar produtos e pacotes customizados (Camarotes, 3 Business e Oeste Superior) para o mercado corporativo, venda de produtos de matchday (avulsos) para pessoas físicas e turistas, melhorar e segmentar oferta de alimentação e bebidas, e muitos outros.

4 - Marketing

O departamento de marketing do Corinthians precisa ser atualizado com urgência, além de auxiliar diretamente no trabalho de reconstrução da imagem e da credibilidade com a torcida, que é o principal patrimônio do clube; e com o mercado, para atrair novos investimentos e patrocinadores. Entre outros projetos da minha gestão – e todos podem ser conferidos no site da Reconstrução Corinthiana – cito o ID único. Com ele, o Corinthians vai conhecer profundamente os interesses do torcedor, entender os desejos, hábitos e frequência de utilização, proporcionando melhores experiências. Todos os pontos de contato de relacionamento alimentarão uma base de dados única e proprietária do clube. Com um CRM – Customer Relationship Management, integrando inteligência no mapeamento e refino na segmentação dos diversos perfis, o clube poderá também enviar ofertas para mercado corporativo como plataforma de dados para campanhas. Sem esta ferramenta, o clube interage com uma pequena.

5 - Fiel Torcedor

O Fiel Torcedor precisa ser repensado por inúmeros motivos. O Corinthians não pode ter um programa de relacionamento com o torcedor com uma receita inferior à do Flamengo em quatro ou cinco vezes: em 2019, foram R$ 14 milhões de renda bruta do Fiel Torcedor contra R$ 61 milhões de renda líquida do programa do time carioca. A diferença é muito grande! Então vamos mudar o princípio, a ideia do plano. A prioridade e desconto na compra de ingressos têm que continuar, mas também vamos oferecer uma série de benefícios e vantagens aos torcedores que não frequentam o estádio – e neste ponto, o projeto do ID único será fundamental para enxergar os anseios e necessidades de cada um da imensa base. No projeto, ainda está a possibilidade do sócio do Fiel Torcedor também se tornar associado do clube social - o que ajudaria diretamente a sede social a se tornar autossustentável. Para finalizar, é preciso tirar da gaveta a discussão sobre a possibilidade de voto ao Fiel Torcedor. Já não podemos ficar sentados sobre esse tema. Temos que estudar, apresentar as ideias possíveis e então esperar que o Conselho e a Assembleia de sócios definam as diretrizes.

6 - Clube social

A sede social do Corinthians é um dos grandes patrimônios do clube. Na minha primeira gestão, fizemos uma lista enorme de benfeitorias e a entreguei em ótimas condições. Cuidar do clube significa não só oferecer o melhor ambiente possível para o associado, mas também preservar a história do Corinthians! A sede social precisa de uma série de melhorias, e isso demanda estudos aprofundados sobre o que fazer com o espaço ocioso. Não adianta alguém tirar da cabeça que o tema precisa ser estudado e não fazer mais nada. Mudanças grandes devem ser aprovadas nos conselhos deliberativos, como um plano diretor e uma meta de avanço para o Parque São Jorge, e, aos poucos, isso vai ser feito com a ajuda de parceiros e da iniciativa privada.
De concreto e imediato, os serviços que precisam melhorar são os de zeladoria, de vestiário, para garantir o dia-a-dia dos sócios com mais qualidade. Também queremos também trazer para o clube social pequenas e médias empresas (PME´s) interessadas em uma participação mais efetiva junto ao clube, envolvendo patrocínio de esportes olímpicos, áreas externas, equipamentos, praças, alamedas, museus, piscinas, quadras entre outros; organizar espaço para Feiras e Eventos empresariais nas dependências do clube; introduzir um polo de atração de startups voltadas à tecnologia, esporte e bem estar em área específica do clube; e realização de projetos que gerem atração a novos sócios e a antigos associados que se afastaram do clube.

7 - Responsabilidade social

Como disse o eterno presidente Miguel Battaglia: “O Corinthians é o time do povo e é o povo que vai fazer o time”. Não há como imaginar o Corinthians sem envolvimento com a população e as ações de responsabilidade social. Entre outras propostas da área, vamos criar a diretoria integrada de responsabilidade social e relações institucionais. Entre outros assuntos, a pasta cuidará das interações do Corinthians com organizações dos setores públicos e privados, apoiando a gestão do clube na busca de investimentos sociais que persigam resultados de impacto social, com caráter transformador, gerando subsídios materiais e imateriais para o Corinthians.
Também vamos criar uma instituição de terceiro setor (uma ONG ou a Fundação Corinthians), que terá como objetivo criar uma personalidade jurídica com capacidade de captação de recursos, autonomia e eficiência na prestação dos serviços sociais de sua competência. Também cito a criação do EducaSCCP, um projeto elaborado com o objetivo de levar a educação para o centro da administração e, portanto, das proposições do Corinthians. Como a instituição clube associativo tem uma função social, é preciso criar uma estrutura educacional mais sólida. O projeto, dividido em três etapas, tem o objetivo de levar a dimensão educacional como elemento constitutivo da formação de atletas feita pelo clube, chegando até à formação do atleta de futebol profissional.

8 - Futebol (masculino e feminino)

Temos uma equipe dominante no futebol feminino com grandes resultados, aceitação e engajamento da torcida. Temos que caminhar em duas frentes: uma que amplie o público que se identifica com as mulheres; e outra que encontre fontes de receitas que façam o projeto cada vez mais sustentável por si só – o que me parece muito viável, aliás.
O projeto para o futebol masculino é ter um time competitivo, que honre as tradições do Corinthians, até que as finanças do clube sejam sanadas. Depois que conseguirmos colocar o Corinthians de volta ao trilho do trem, certamente o clube assumirá o papel de protagonista permanente. Não queremos que esta mudança aconteça por um curto período, de quatro, cinco anos, como já aconteceu. Queremos que o Corinthians seja protagonista permanente! Por isso, é extremamente importante entender o novo momento, enxergar o clube de forma diferente, apoiar as mudanças e ter paciência por algum tempo para, então, assumir o protagonismo.

9 - Categorias de base

O trabalho atual da base é como todo o trabalho de gestão do Corinthians. Não se sabe muito bem para quem serve e ao que serve. É uma pena porque isso afeta o sonho de muitos jovens e suas famílias, além de ser terrível para o clube e a torcida. Lamento também que o Sub-23, um projeto teoricamente positivo porque era para ser um trabalho continuado da base, tenha virado uma ilha completamente nebulosa. O nosso projeto para esta área, entre outros pontos, é investir em tecnologia para aprimorarmos a captação de jovens com potencial. Pretendemos enxugar ao máximo o número de atletas e investir mais nos profissionais ligados à preparação. Precisamos ter as melhores comissões técnicas, compostas por profissionais de alto gabarito e trajetória. Também apostaremos na qualificação dos atletas na parte educacional.

10 - Esportes olímpicos

Na minha primeira gestão, conquistamos títulos inesquecíveis em muitas modalidades: a única medalha olímpica em esporte individual na história do clube (Thiago Pereira, na natação, em Londres-2012), recorde de medalhas de ouro de um só atleta em um Mundial de Piscina Curta (Felipe França ganhou cinco no Mundial de Doha, em 2014), Cinturão Peso Médio do UFC (Anderson Silva, 2012), UFC 153 (Anderson Silva, 2012), Mundial de Skate Vertical (Rony Gomes, 2013), Troféu Maria Lenk de Natação após 48 anos (2014), Campeonato Sul-Americano de Clubes de Basquete Feminino (2015), Campeonato Paulista de Basquete Feminino (2015), Taça Brasil de Futsal (2014) e Liga Paulista de Futsal (2013 e 2015).
Além de todos os títulos, também inovamos e contratamos um surfista (Adriano de Souza “Mineirinho”, que conquistou o Mundial em 2015 após deixar o clube). Como mostra o investimento feito à época e os resultados, eu sou um apaixonado também por esportes olímpicos. No entanto, com a situação financeira que se apresenta e é de conhecimento público, precisamos analisar, verificar o que é possível após a realização da auditoria e, então, implantar projetos de desenvolvimento de novos talentos que couberem na nova realidade do clube.
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E aí, o que acharam? Em quem vocês votariam?
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2020.10.13 07:10 TapperTotoro Eu venci a depressão e é isso que tenho feito desde que me curei! - Parte 5/365

Uma espécie de diário aberto: Tinha vezes em que eu não queria ou voltava para casa.
Olá!
(Editado: comecei a escrever há mais de três horas (usar atrás nesse ponto configuraria redundância lol) e agora que terminei, vejo que o texto é enorme. O próximo será mais curto, prometo!)
Para colocar em perspetiva: tudo isso aconteceu no meu último ano de casamento, e nessa mesma altura, os pensamentos sobre acabar com a minha própria vida ganharam tamanha força e se a minha ex-esposa não tivesse ficado grávida do nosso segundo filho, tenho a certeza de que não estaria por cá hoje. Ele, o meu segundo Príncipe, foi um dos gatilhos para a minha decisão de lutar pela vida.
Em 2018 aconteceram imensas coisas e mudanças na minha vida, começando pelo caos no início do ano após perder o trabalho porque os serviços de fronteiras e estrangeiros de Portugal cometeram um erro relativo à caducidade do meu cartão de residência (deveria caducar em Agosto, e eles colocaram Fevereiro - o documento tem a validade de 5 anos, o meu teve 4 anos e 6 meses apenas), e por conseguinte, estar impedido de trabalhar (por conta própria ou de outrem), seguido do facto que eles obrigaram-me a renovar o meu passaporte que caducava em, na altura, mais ou menos seis meses (para cidadãos Angolanos isso implica duas coisas: ou gastar mais de dois mil euros para viajar para Angola e tratar dos documentos ou pedir para alguém que tenha uma procuração para tratar, apostilar e autenticar em vários órgãos governamentais Angolanos e Portugueses em Angola tais documentos, coisa que demora pelo menos 2 meses).
Segundo, o piorar da relação "juridico-afetiva" porque mesmo com todas as coisas que aconteciam na minha vida, a minha ex-esposa acusava-me das coisas mais absurdas (se ela sonhasse com algo que me envolva com outra mulher a culpa era minha; se uma mulher na rua olhasse para ela de forma fixa era porque tinha alguma coisa comigo mesmo quando ela saía sozinha; discussões e acusações de que ela era vítima por parte da família dela acabavam sempre com o "eu só não faço porque o Aladino não gosta" - nota: esforçava-me para estar com a família dela, mas havia dias em que preferia não estar porque não são as melhores pessoas do mundo, mas nunca a proibi de ir, mesmo sem mim, mas ela sempre disse que não ia porque eu não queria ir ...).
Tudo isso e mais alguma coisa me fez me focar imenso em começar a trabalhar num projeto pessoal enquanto estava proibido por lei de exercer alguma atividade laboral remunerada por causa dos meus documentos de residência que, mesmo que erradamente, estavam caducados. Então atirei-me de cabeça para um projeto literário para editar e publicar obras de outros autores sem cobrar absolutamente nenhum valor monetário. Como é que pretendia ganhar dinheiro com isso? Por cada cópia das obras artísticas que o autor vendesse, eu ganharia 5% e outros 5% iam para um fundo para ajudar tanto os autores quanto outras pessoas que precisassem de ajuda, 10% o autor tinha a opção de investir para criar "merchandise" e os restantes 80% revertiam integralmente para o autor, afinal, ele é a pessoa mais importante no projeto que tinha. Além disso, também tinha alguns pequenos investimentos que me ajudavam a suportar as despesas mensais ...
Aos poucos fui ficando mais reservado pois sentia-me traído pela minha ex-esposa depois de ter pedido em várias ocasiões para que ela não me usasse como escudo para as guerras dela e para que parasse de falar dos meus projetos e problemas ou questões para outras pessoas, coisas estas que só diziam respeito a mim e à ela. Ela prometeu-me também em várias ocasiões que não o faria (por incrível que pareça, as mesmas pessoas que eu não queria que soubessem das coisas, não sei com que intuito, conversavam comigo a falar sobre tudo o que faço, e também sobre as que não fazia eu a ideia que fazia, mesmo sem ter eu contado nada, exceto para a minha ex-esposa), mas por amá-la imenso, não me chateava ou discutia. Na verdade (só) discuti uma vez, pois prefiro sempre estar calmo e conversar do que me exaltar ...
Isso fez-me adotar um ciclo que se tornou mais vicioso do que era: acordar, trabalhar, estudar e quando me lembrasse, comer. Era (quase) tudo o que fazia. Não havia nos meus dias espaço para lazer para mim, não havia espaço para falar com amigos (ou poucos que restavam e que não sucumbiram ao veneno dela ou não pararam de falar comigo por causa dos ciúmes dela), não havia espaço para viajar e estar com a minha família; nada extra, somente acordar, trabalhar, estudar, comer, tentar dormir.
Aos poucos o projeto começou a dar muito certo, e como não tinha dinheiro para contratar alguém para me ajudar, tampouco podia por causa da situação dos meus documentos; comecei a fazer mais coisas, como ir à reuniões com possíveis autores e com os que tinham obras comigo para editar e publicar, conhecer instituições com as quais queria ter parcerias, salas e auditórios para o lançamento das obras que editaria e publicaria sob o selo do projeto, enfim, uma infinidade de coisas que não conseguia terceirizar. Além das imensas chamadas telefónicas e emails, tinha de ir presencialmente a muitos lugares, recebia muita gente em casa também (onde tinha o meu escritório) e muitas das vezes tinha de ir para lugares que só funcionavam ao final da tarde e noite (na maior parte das vezes era porque eu só conseguia ir para lá ao final da tarde mesmo).
Por algum motivo, a minha ex-esposa tinha ciúmes disso e as pessoas diziam que andava a traí-la, tanto que ela visitou "bruxas" ou pessoas que "têm visão" e que diziam que era isso que eu andava a fazer sempre que recebia uma mulher em casa (eu sou "bissexual" e as pessoas com "poderes sobrenaturais" nunca afirmaram que eu a traí com homens, só com mulheres), mas não me importava com isso pois tinha a minha consciência limpa. O cúmulo foi quando alguém disse que me viu num lugar com uma mulher qualquer quando estava em casa a dormir, e ela minutos antes saiu de casa para ir às compras e deixou-me a dormir e era fisicamente impossível eu estar naquele lugar (não existe maneira de sair em menos de 10 minutos do ponto A até ao ponto B quando a distância entre ambos é de mais de 20 quilómetros e só existirem estradas muito movimentadas e com limite de velocidade de 60 Km/h nessa mesma área). Nessa ocasião, depois de já termos tido vários momentos em que ela gritava comigo por ciúmes (ou simplesmente por algumas vezes dar eu prioridade às coisas que faço em vez das dela - para colocar em perspetiva: 80% do meu tempo e dinheiro foram gastos com e para ela, 19% com os meus filhos e o restante 1% era para mim e para os meus amigos e outros familiares, isso desde que me mudei para Portugal em 2012) ela preferiu acreditar na pessoa que disse que me viu na rua com uma mulher qualquer. Simplesmente cansei-me de (tentar) explicar e voltei às minhas coisas (nota: não é muito fácil eu ser confundido com outra pessoa, primeiro porque sou extremamente alto, e segundo porque eu tinha o cabelo cor de prata na altura e não corto a barba numa tentativa de fazê-la crescer, coisa que se tem mostrado infrutífera para a minha deceção heheheh).
Os dias em que eu saía de casa, conduzia sem destino ou estacionava o carro num lugar qualquer e caminhava sozinho, voltando para casa somente no dia seguinte.
Depois desse episódio absurdo, passei e ligar cada vez menos ao que as pessoas diziam sobre mim, inclusive ela, a minha ex-esposa, pois nada disso me estava a fazer bem, e sempre que o ambiente em casa ficava insuportável, eu saía de carro sem destino, sem atender o telemóvel ou ver as mensagens, eu simplesmente queria estar sozinho com os meus pensamentos e tentar entender o porquê de mesmo não fazendo nada de errado, estar sempre errado. Todo esse caos junto com o luto pela morte do meu pai que só consegui fazer depois de me divorciar, arrastaram-me para o fundo do poço da saúde mental, não havia um dia em que eu podia parar para estar com ela sem que começasse tudo bem e se alguma pessoa afirmasse alguma coisa que não fiz, ela simplesmente acreditava nelas mesmo não dando eu motivo para tal. Ou terminavam mal quando ela queria sair e eu não podia/queria ir com ela, ou se fosse, não fizesse tudo exatamente como ela queria que eu fizesse.
E esses dias terminavam comigo a ouvir os gritos dela, com ela a gritar com o meu primeiro Príncipe por coisas absurdas, com ela a chorar e a pedir desculpas e prometer que mudaria e não mais gritaria pois eu odeio gritos por causa da minha infância e ela sabe disso desde que nos conhecemos, e afirmava isso sempre que pedia desculpas; mas o dia seguinte era só uma "reprise" do dia anterior mas mais intenso pela negativa ... a única saída para mim era sair de casa sem destino, ir até ao mar algumas vezes e deixar que o mundo lavasse a minha alma e mente, mas estava errado. Ninguém sobrevive ao caos se não sair dele definitivamente e afastar-se da variável que é a ignição do caos. Eu só percebi isso num dia em que saí de casa de madrugada e numa estrada reta fechei os olhos (não para dormir, mas fechar para não ver o mundo mesmo) e acelerei o máximo que pude. Eu queria ver até onde é que conseguia ir se não visse nada, ou o que aconteceria se tivesse um acidente, mas alguma coisa fez-me abrir os olhos.
No dia que precedeu o em que fechei os olhos enquanto condizia, a minha ex-esposa voltou para casa a chorar em desespero com uma carta (é assim que se chamam dos documentos ou faturas que chegam por correio aqui em Portugal) aberta na mão, e eu soube logo que ela estava grávida do nosso segundo filho, mesmo não sabendo que ela tinha feito o teste ou que suspeitava disso. Soube porque a reação dela foi exatamente igual quando ficou grávida do nosso primeiro filho. Novamente eu sorri e fiquei super feliz apesar de ter, durante o ano de 2017, dito que não queria ter outro filho (ela disse muitas vezes para mim e para outras pessoas com quem estivemos que queria ter outro filho). Abracei-a e limpei as lágrimas dela, disse que estava tudo bem e que teríamos o filho e ela disse que chorava porque achava que eu não quereria que ela tivesse a criança (porque ela contou para outra pessoa antes de me ter contado que estava grávida e esta disse que eu diria para ela fazer o aborto, mas eu sou pró-vida e sempre disse para ela que apesar de não querer, nunca recorreria ao aborto caso ficasse grávida novamente pois todas as vidas são preciosas para mim). No momento não dei importância para esse pequeno facto pois estava tremendamente feliz ... E meses depois, quando a nossa relação chegou no ponto de rotura, soube que ela planeou a gravidez e que usaria isso para prender-me à ela e "salvar" a nossa relação.
Foi um dos piores sentimentos que tive ao ouvi-la a dizer isso ao telefone enquanto falava com a nossa gestora de conta bancária. Ela nunca soube que ouvi essa conversa (acho que achou que eu estivesse no escritório no piso superior de casa e ela estava na sala no piso inferior e do corredor dá para ouvir quem fala na sala, mesmo com a porta fechada). Depois disso, outra pessoa mandou-me uma mensagem a dizer a mesma coisa, e perguntou porquê é que eu queria que ela ficasse grávida só para salvar a nossa relação ... Nunca respondi essa mensagem. Nunca contei para ela que sei de coisas que fomentaram o meu dizer "sim, aceito o divórcio" quando ela pediu o divórcio a meio da gestação do nosso segundo filho (o divórcio também era mais uma jogada dela para "pressionar-me psicologicamente"). As pessoas que se importam comigo até hoje mandaram-me áudios, prints das mensagens trocadas onde ela dizia as coisas mais absurdas e partilhava os planos que tinha para preservar o nosso casamento e manipular-me psicologicamente; cheguei inclusive a entrar para as contas dessas pessoas com a autorização delas só para ver que os prints e áudios eram reais e recebidos das contas que ela usa. Mas o meu "sim" para o divórcio, foi mesmo quando uma das pessoas da família dela disse, numa conversa telefónica, que se me visse na rua atropelar-me-ia por estar eu a pedir o divórcio numa altura em que ela estava grávida, entretanto, quem pediu o divórcio foi ela, depois de sem eu saber ter ela ido ao advogado tratar dos papeis, e para todas as pessoas que ambos conhecemos ela disse que fui eu a pedir o divórcio e a tratar disso (os agendamentos com o advogado).
No início do ano corrente (2020) confrontei-a com esse facto último, pois por alguma razão ela andava a tentar controlar a minha vida mesmo depois do divórcio e disse na minha cara que fui eu quem pediu isso (o divórcio) e que só estamos divorciados porque quis e pedi isso. Foi a primeira vez que ela disse essa mentira para mim, e fiquei chocado pois ela acredita nas próprias mentiras que cria a ponto de contá-las para mim com se fosse verdade. Mandei para ela as mensagens do dia em que ela avisou que estava marcada a reunião com o advogado para tratar dos papeis do divórcio, e na mensagem seguinte pergunto: O quê? Divórcio? Que divórcio?
Ela nunca respondeu a mensagem em que a confrontei com o facto de que foi ela quem pediu o divórcio, não contei outro facto sobre coisas que sei dos planos ardilosos engrenados por ela; e acho que nunca contarei. Só espero que os meus Príncipes sejam fortes o suficiente para lidar com ela até a maioridade, e que ela não os manipule da mesma ou de outra maneira.
Depois do divórcio, nunca saí de casa sem destino, nunca mais discuti com alguém ou me exaltei, vivi na rua e tive crises de ansiedade graves, fiz medicação para a mente, fui acompanhado por psicólogos e tive de ir à polícia apresentar uma queixa de violência doméstica (mesmo depois do divórcio, qualquer tipo de violência psicológica ou física por parte de um ex-conjugue configura violência doméstica aqui em Portugal e pelo que me lembro das aulas de direito que tive no secundário, em Angola também), mas tudo isso foi parte do processo para poder sair definitivamente do buraco da depressão ...
Para todas as pessoas que estejam a viver algo parecido, a melhor saída é mostrar para as pessoas que fomentam o caos da vossa vida que elas são o mal que vos afeta a ver se elas percebem o mal que fazem, mas tentem o máximo que puderem, caso as coisas não mudem ou comecem a piorar, simplesmente afastem-se delas, definitivamente ou não, mas afastem-se, pois a saúde mental degrada-se imenso e se passamos o ponto de rotura, as consequências podem ser desastrosas. Nada nesse mundo vale a perda de uma vida, nada nesse mundo é precioso o suficiente para poluir a nossa saúde mental a ponto de todas as coisas e pessoas se tornarem só objetos animados que nos rodeiam. Afastem-se de tudo e de todos os que fazem mal com consciência dessa maldade. Amem ao máximo, mas afastem-se.
Com carinho;
Aladino.
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2020.09.13 08:06 pissass5 Manifesto de Theodore Kaczynski (Unabomber), grande filosofo que popularizou o anarco-primitivismo

A sociedade industrial e suas consequências têm sido um desastre para a raça humana. Elas não apenas aumentaram em muito a expectativa de vida nos países "avançados", como também desestabilizaram a sociedade, tornaram a vida frustrante, sujeitaram os seres humanos a indignidades, provocaram sofrimento psicológico generalizado (no Terceiro Mundo, sofrimentos físicos também) e infligiram graves danos ao mundo natural. O contínuo desenvolvimento da tecnologia irá agravar essa situação.O sistema tecnológico industrial poderá sobreviver, ou poderá entrar em colapso. Se sobreviver, é possível -apenas possível- que com o tempo chegue a um nível reduzido de sofrimento físico e psicológico. Mas isso só poderá acontecer depois de passado um período longo e muito doloroso de adaptação, e apenas ao custo da redução permanente dos seres humanos e muitos outros organismos vivos à situação de produtos criados artificialmente e meras peças na máquina social.Se o sistema entrar em colapso, as consequências serão muito dolorosas. Mas quanto mais o sistema crescer mais desastrosos serão os resultados de sua ruptura. Portanto, se pretendemos provocar sua ruptura é melhor fazê-lo mais cedo do que mais tarde.Por essas razões defendemos uma revolução contra o sistema industrial. Essa revolução pode ou não fazer uso da violência. Ela poderá ser repentina ou ser um processo relativamente gradativo, estendendo-se por algumas décadas.A Psicologia do Esquerdismo ModernoUma das manifestações mais difundidas da doidice de nosso mundo é o esquerdismo, de modo que uma discussão da psicologia do esquerdismo pode funcionar como introdução à discussão da sociedade moderna.Chamamos às duas tendências psicológicas subjacentes ao esquerdismo moderno de "sentimentos de inferioridade" e "supersocialização".Quando dizemos "sentimentos de inferioridade" queremos dizer não apenas sentimentos de inferioridade no sentido restrito do termo, mas todo um espectro de traços relacionados: baixa auto-estima, sentimentos de impotência, tendências depressivas, derrotismo, culpa, raiva de si mesmo, etc...Os esquerdistas são hipersensíveis em relação às palavras usadas para designar integrantes de minorias e a qualquer coisa que seja dita relativa às minorias. Os termos "negro", "oriental", "deficiente físico" ou "gata" para designar um africano, um asiático, uma pessoa incapacitada ou uma mulher não tinham, originalmente, qualquer conotação pejorativa.Muitos esquerdistas identificam-se profundamente com os problemas de grupos que transmitem imagens de fracos (mulheres), derrotados (índios americanos), repulsivos (homossexuais) ou inferiores de alguma outra maneira. Os próprios esquerdistas sentem que esses grupos são inferiores. Jamais admitiriam a si mesmos que têm tais sentimentos, mas é porque realmente vêem esses grupos como inferiores que se identificam com seus problemas.Os esquerdistas tendem a odiar qualquer coisa que transmita a imagem de ser forte, bom e bem-sucedido. Eles odeiam os EUA, odeiam a civilização ocidental, odeiam os homens brancos, odeiam o que é racional.Note-se a tendência masoquista das táticas esquerdistas. Os esquerdistas fazem protestos deitando-se no chão na frente de veículos. Nesses protestos, eles provocam a polícia, intencionalmente, a cometer abusos contra eles. Essas táticas podem muitas vezes funcionar, mas muitos esquerdistas as utilizam não como meios para atingir um fim, mas porque preferem táticas masoquistas. O ódio a si mesmo é uma característica esquerdista.Se nossa sociedade não tivesse nenhum problema, os esquerdistas teriam que inventar problemas para conseguir armar confusão.SupersocializaçãoAlgumas pessoas são tão altamente socializadas que a tentativa de pensar, sentir e agir moralmente impõe um peso muito grande a elas. Para evitar seus sentimentos de culpa, elas precisam enganar-se continuamente sobre suas verdadeiras motivações e encontrar explicações morais para sentimentos e atos que na realidade têm uma origem não moral. Utilizamos o termo "supersocializado" para descrever tais pessoas.Sugerimos que a supersocialização é uma das piores crueldades que os seres humanos infligem uns aos outros.O processo do poderOs seres humanos têm a necessidade (provavelmente originária de razões biológicas) de algo ao qual chamaremos "processo do poder". Este processo está intimamente ligado à necessidade de poder (que é amplamente reconhecida), mas não é exatamente a mesma coisa.É verdade que alguns indivíduos parecem ter pouca necessidade de autonomia. Ou seu desejo de poder é fraco, ou elas o satisfazem através da identificação com alguma organização poderosa da qual fazem parte. E existem também aquelas pessoas que não pensam, tipos animais que parecem se satisfazer com uma sensação de poder puramente físico.Mas para a maioria das pessoas, é por meio do processo do poder que se adquire auto-estima, autoconfiança e um senso de poder -ter uma meta, fazer um esforço autônomo e atingir essa meta. Quando não se tem uma oportunidade adequada de viver o processo de poder, as consequências são (dependendo do indivíduo e da maneira pela qual o processo de poder é perturbado) tédio, desmoralização, baixa auto-estima, sentimentos de inferioridade, derrotismo, depressão, ansiedade, sentimentos de culpa, frustração, hostilidade, abuso de cônjuge ou crianças, hedonismo insaciável, comportamentos sexuais anormais, desordens do sono, desordens alimentares, etc.Raízes dos Problemas SociaisAtribuímos os problemas sociais e psicológicos da sociedade moderna ao fato de que a sociedade exige que as pessoas vivam sob condições radicalmente diferentes daquelas nas quais a raça humana evoluiu, e se comportem de maneiras que entram em conflito com os padrões de comportamento que a raça humana desenvolveu enquanto vivia sob condições anteriores.Entre as condições anormais presentes na sociedade industrial moderna figuram a densidade demográfica excessiva, a separação entre o homem e a natureza, a rapidez excessiva das transformações sociais e a ruptura das comunidades naturais em pequena escala, como a família extensa, a aldeia ou a tribo.Os conservadores são idiotas: eles se queixam da decadência dos valores tradicionais, mas apóiam entusiasticamente o progresso tecnológico e o crescimento econômico. Ao que parece, nunca lhes ocorre que não se pode operar transformações drásticas e velozes na tecnologia e economia de uma sociedade sem provocar transformações velozes em todos os outros aspectos da sociedade também, e que tais transformações velozes levam inevitavelmente à ruptura dos valores tradicionais.Outra razão pela qual a sociedade não pode ser reformada em favor da liberdade é que a tecnologia moderna é um sistema unificado no qual todas as partes são interdependentes. Não se pode livrar-se das partes "ruins" da tecnologia e manter apenas as partes "boas". Tomemos o caso da medicina moderna. Os avanços na ciência médica dependem dos avanços nos campos da química, física, biologia, informática e outros. Os tratamentos médicos avançados exigem equipamentos caros de alta tecnologia que só podem ser assegurados por uma sociedade tecnologicamente progressiva e economicamente rica. É evidente que não se pode ter muitos progressos na medicina sem o sistema tecnológico inteiro e tudo que o acompanha.Revolução é mais fácil do que reformaA única saída é dispensar o sistema tecnológico industrial inteiro. Isso implica uma revolução, não necessariamente um levante armado, mas com certeza uma transformação radical e fundamental da natureza da sociedade.O que sugerimos é que a raça humana poderia facilmente chegar a um ponto em que sua dependência das máquinas seria tão grande que não lhe restaria nenhuma opção prática senão aceitar todas as decisões das máquinas. À medida que a sociedade e os problemas que a confrontam se tornam mais e mais complexos e as máquinas ficam mais e mais inteligentes, as pessoas vão deixar as máquinas tomarem cada vez mais decisões em seu lugar, simplesmente porque as decisões tomadas pelas máquinas trarão melhores resultados do que as decisões tomadas pelos homens. Com o tempo, é possível que se chegue a um estágio em que as decisões necessárias para manter o sistema funcionando sejam tão complexas que os seres humanos serão incapazes de tomá-las inteligentemente. Quando se chegar a esse estágio, as máquinas estarão, efetivamente, no controle. As pessoas não poderão simplesmente desligar as máquinas porque elas estarão tão dependentes delas que desligá-las equivaleria a cometer suicídio.EstratégiaAs duas principais tarefas para o presente são promover o estresse social e a instabilidade na sociedade industrial, e desenvolver e difundir uma ideologia que se oponha à tecnologia e ao sistema industrial. Quando o sistema ficar suficientemente estressado e instável, uma revolução contra a tecnologia pode tornar-se possível.Quanto às consequências negativas da eliminação da sociedade industrial, bem, dois proveitos não cabem num saco só. Para ganhar uma coisa, é preciso sacrificar outra.A maioria das pessoas odeia conflitos psicológicos. Por essa razão elas evitam pensar seriamente sobre qualquer problema social grave, e gostam que esses problemas lhes sejam apresentados em termos simples, preto no branco. A revolução precisa ser internacional e mundial. Ela não pode ser realizada de nação em nação. Toda vez que se sugere que os EUA, por exemplo, deveriam frear seu progresso tecnológico ou crescimento econômico, as pessoas ficam histéricas e começam a gritar que se cairmos para segundo lugar em termos tecnológicos os japoneses vão assumir a dianteira.Seria inútil os revolucionários tentarem atacar o sistema sem utilizar um pouco da tecnologia moderna. Eles precisam, no mínimo, utilizar a mídia para divulgar sua mensagem. Mas deveriam recorrer à tecnologia moderna para apenas um fim: atacar o sistema tecnológico.Com relação à estratégia revolucionária, os únicos pontos sobre os quais insistimos totalmente são que a única meta que se sobrepõe a todas as outras deve ser a eliminação da tecnologia moderna, e que não se deve permitir que nenhuma outra meta compita com essa.
Edit: Isso é apenas um trecho.
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2020.07.23 10:09 diplohora Mes estudos para o CACD - Bruno Pereira Rezende

Livro do diplomata Bruno Pereira Rezende
INTRODUÇÃO
📷📷Desde quando comecei os estudos para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), li dezenas de recomendações de leituras, de guias de estudos extraoficiais, de dicas sobre o concurso, sobre cursinhos preparatórios etc. Sem dúvida, ter acesso a tantas informações úteis, vindas de diversas fontes, foi fundamental para que eu pudesse fazer algumas escolhas certas em minha preparação, depois de algumas vacilações iniciais. Mesmo assim, além de a maioria das informações ter sido conseguida de maneira dispersa, muitos foram os erros que acho que eu poderia haver evitado. Por isso, achei que poderia ser útil reunir essas informações que coletei, adicionando um pouco de minha experiência com os estudos preparatórios para o CACD neste documento.
Além disso, muitas pessoas, entre conhecidos e desconhecidos, já vieram me pedir sugestões de leituras, de métodos de estudo, de cursinhos preparatórios etc., e percebi que, ainda que sempre houvesse alguma diferenciação entre as respostas, eu acabava repetindo muitas coisas. É justamente isso o que me motivou a escrever este documento – que, por não ser (nem pretender ser) um guia, um manual ou qualquer coisa do tipo, não sei bem como chamá-lo, então fica como “documento” mesmo, um relato de minhas experiências de estudos para o CACD. Espero que possa ajudar os interessados a encontrar, ao menos, uma luz inicial para que não fiquem tão perdidos nos estudos e na preparação para o concurso.
Não custa lembrar que este documento representa, obviamente, apenas a opinião pessoal do autor, sem qualquer vínculo com o Ministério das Relações Exteriores, com o Instituto Rio Branco ou com o governo brasileiro. Como já disse, também não pretendo que seja uma espécie de guia infalível para passar no concurso. Além disso, o concurso tem sofrido modificações frequentes nos últimos anos, então pode ser que algumas coisas do que você lerá a seguir fiquem ultrapassadas daqui a um ou dois concursos. De todo modo, algumas coisas são básicas e podem ser aplicadas a qualquer situação de prova que vier a aparecer no CACD, e é necessário ter o discernimento necessário para aplicar algumas coisas do que falarei aqui a determinados contextos. Caso você tenha dúvidas, sugestões ou críticas, fique à vontade e envie-as para [[email protected] ](mailto:[email protected])(se, por acaso, você tiver outro email meu, prefiro que envie para este, pois, assim, recebo tudo mais organizado em meu Gmail). Se tiver comentários ou correções acerca deste material, peço, por favor, que também envie para esse email, para que eu possa incluir tais sugestões em futura revisão do documento.
Além desta breve introdução e de uma também brevíssima conclusão, este documento tem quatro partes. Na primeira, trato, rapidamente, da carreira de Diplomata: o que faz, quanto ganha, como vai para o exterior etc. É mais uma descrição bem ampla e rápida, apenas para situar quem, porventura, estiver um pouco mais perdido. Se não estiver interessado, pode pular para as partes seguintes, se qualquer prejuízo para seu bom entendimento. Na segunda parte, trato do concurso: como funciona, quais são os pré-requisitos para ser diplomata, quais são as fases do concurso etc. Mais uma vez, se não interessar, pule direto para a parte seguinte. Na parte três, falo sobre a preparação para o concurso (antes e durante), com indicações de cursinhos, de professores particulares etc. Por fim, na quarta parte, enumero algumas sugestões de leituras (tanto próprias quanto coletadas de diversas fontes), com as devidas considerações pessoais sobre cada uma. Antes de tudo, antecipo que não pretendo exaurir toda a bibliografia necessária para a aprovação, afinal, a cada ano, o concurso cobra alguns temas específicos. O que fiz foi uma lista de obras que auxiliaram em minha preparação (e, além disso, também enumerei muitas sugestões que recebi, mas não tive tempo ou vontade de ler – o que também significa que, por mais interessante que seja, você não terá tempo de ler tudo o que lhe recomendam por aí, o que torna necessário é necessário fazer algumas escolhas; minha intenção é auxiliá-lo nesse sentido, na medida do possível).
Este documento é de uso público e livre, com reprodução parcial ou integral autorizada, desde que citada a fonte. Sem mais, passemos ao que interessa.
Parte I – A Carreira de Diplomata
INTRODUÇÃO
Em primeiro lugar, rápida apresentação sobre mim. Meu nome é Bruno Rezende, tenho 22 anos e fui aprovado no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) de 2011. Sou graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (turma LXII, 2007-20110), e não tinha certeza de que queria diplomacia até o meio da universidade. Não sei dizer o que me fez escolher a diplomacia, não era um sonho de infância ou coisa do tipo, e não tenho familiares na carreira. Acho que me interessei por um conjunto de aspectos da carreira. Comecei a preparar-me para o CACD em meados de 2010, assunto tratado na Parte III, sobre a preparação para o concurso.
Para maiores informações sobre o Ministério das Relações Exteriores (MRE), sobre o Instituto Rio Branco (IRBr), sobre a vida de diplomata etc., você pode acessar os endereços:
- Página do MRE: http://www.itamaraty.gov.b
- Página do IRBr: http://www.institutoriobranco.mre.gov.bpt-b
- Canal do MRE no YouTube: http://www.youtube.com/mrebrasil/
- Blog “Jovens Diplomatas”: http://jovensdiplomatas.wordpress.com/
- Comunidade “Coisas da Diplomacia” no Orkut (como o Orkut está ultrapassado, procurei reunir todas as informações úteis sobre o concurso que encontrei por lá neste documento, para que vocês não tenham de entrar lá, para procurar essas informações):
http://www.orkut.com.bMain#Community?cmm=40073
- Comunidade “Instituto Rio Branco” no Facebook: http://www.facebook.com/groups/institutoriobranco/
Com certeza, há vários outros blogs (tanto sobre a carreira quanto sobre a vida de diplomata), mas não conheço muitos. Se tiver sugestões, favor enviá-las para [[email protected].](mailto:[email protected])
Além disso, na obra O Instituto Rio Branco e a Diplomacia Brasileira: um estudo de carreira e socialização (Ed. FGV, 2007), a autora Cristina Patriota de Moura relata aspectos importantes da vida diplomática daqueles que ingressam na carreira. Há muitas informações desatualizadas (principalmente com relação ao concurso), mas há algumas coisas interessantes sobre a carreira, e o livro é bem curto.
A DIPLOMACIA E O TRABALHO DO DIPLOMATA
Com a intensificação das relações internacionais contemporâneas e com as mudanças em curso no contexto internacional, a demanda de aprimoramento da cooperação entre povos e países tem conferido destaque à atuação da diplomacia. Como o senso comum pode indicar corretamente, o
diplomata é o funcionário público que lida com o auxílio à Presidência da República na formulação da política externa brasileira, com a condução das relações da República Federativa do Brasil com os demais países, com a representação brasileira nos fóruns e nas organizações internacionais de que o país faz parte e com o apoio aos cidadãos brasileiros residentes ou em trânsito no exterior. Isso todo mundo que quer fazer o concurso já sabe (assim espero).
Acho que existem certos mitos acerca da profissão de diplomata. Muitos acham que não irão mais pagar multa de trânsito, que não poderão ser presos, que nunca mais pegarão fila em aeroporto etc. Em primeiro lugar, não custa lembrar que as imunidades a que se referem as Convenções de Viena sobre Relações Diplomáticas e sobre Relações Consulares só se aplicam aos diplomatas no exterior (e nos países em que estão acreditados). No Brasil, os diplomatas são cidadãos como quaisquer outros. Além disso, imunidade não é sinônimo de impunidade, então não ache que as imunidades são as maiores vantagens da vida de um diplomata. O propósito das imunidades é apenas o de tornar possível o trabalho do diplomata no exterior, sem empecilhos mínimos que poderiam obstar o bom exercício da profissão. Isso não impede que diplomatas sejam revistados em aeroportos, precisem de vistos, possam ser julgados, no Brasil, por crimes cometidos no exterior etc.
Muitos também pensam que irão rodar o mundo em primeira classe, hospedar-se em palácios suntuosos, passear de iate de luxo no Mediterrâneo e comer caviar na cerimônia de casamento do príncipe do Reino Unido. Outros ainda acham que ficarão ricos, investirão todo o dinheiro que ganharem na Bovespa e, com três anos de carreira, já estarão próximos do segundo milhão. Se você quer ter tudo isso, você está no concurso errado, você precisa de um concurso não para diplomata, mas para marajá. Obviamente, não tenho experiência suficiente na carreira para dizer qualquer coisa, digo apenas o que já li e ouvi de diversos comentários por aí. É fato que há carreiras públicas com salários mais altos. Logo, se você tiver o sonho de ficar rico com o salário de servidor público, elas podem vir a ser mais úteis nesse sentido. Há não muito tempo, em 2006, a remuneração inicial do Terceiro-Secretário (cargo inicial da carreira de diplomata), no Brasil, era de R$ 4.615,53. Considerando que o custo de vida em Brasília é bastante alto, não dava para viver de maneira tão abastada, como alguns parecem pretender. É necessário, entretanto, notar que houve uma evolução significativa no aspecto salarial, nos últimos cinco anos (veja a seç~o seguinte, “Carreira e Salrios). De todo modo, já vi vários diplomatas com muitos anos de carreira dizerem: “se quiser ficar rico, procure outra profissão”. O salário atual ajuda, mas não deve ser sua única motivação.
H um texto ótimo disponível na internet: “O que é ser diplomata”, de César Bonamigo, que reproduzo a seguir.
O Curso Rio Branco, que frequentei em sua primeira edição, em 1998, pediu-me para escrever sobre o que é ser diplomata. Tarefa difícil, pois a mesma pergunta feita a diferentes diplomatas resultaria, seguramente, em respostas diferentes, umas mais glamourosas, outras menos, umas ressaltando as vantagens, outras as desvantagens, e não seria diferente se a pergunta tratasse de outra carreira qualquer. Em vez de falar de minhas impressões pessoais, portanto, tentarei, na medida do possível, reunir observações tidas como “senso comum” entre diplomatas da minha geraç~o.
Considero muito importante que o candidato ao Instituto Rio Branco se informe sobre a realidade da carreira diplomática, suas vantagens e desvantagens, e que dose suas expectativas de acordo. Uma expectativa bem dosada não gera desencanto nem frustração. A carreira oferece um pacote de coisas boas (como a oportunidade de conhecer o mundo, de atuar na área política e econômica, de conhecer gente interessante etc.) e outras não tão boas (uma certa dose de burocracia, de hierarquia e dificuldades no equacionamento da vida familiar). Cabe ao candidato inferir se esse pacote poderá ou não fazê-lo feliz.
O PAPEL DO DIPLOMATA
Para se compreender o papel do diplomata, vale recordar, inicialmente, que as grandes diretrizes da política externa são dadas pelo Presidente da República, eleito diretamente pelo voto popular, e pelo Ministro das Relações Exteriores, por ele designado. Os diplomatas são agentes políticos do Governo, encarregados da implementação dessa política externa. São também servidores públicos, cuja função, como diz o nome, é servir, tendo em conta sua especialização nos temas e funções diplomáticos.
Como se sabe, é função da diplomacia representar o Brasil perante a comunidade internacional. Por um lado, nenhum diplomata foi eleito pelo povo para falar em nome do Brasil. É importante ter em mente, portanto, que a legitimidade de sua ação deriva da legitimidade do Presidente da República, cujas orientações ele deve seguir. Por outro lado, os governos se passam e o corpo diplomático permanece, constituindo elemento importante de continuidade da política externa brasileira. É tarefa essencial do diplomata buscar identificar o “interesse nacional”. Em negociações internacionais, a diplomacia frequentemente precisa arbitrar entre interesses de diferentes setores da sociedade, não raro divergentes, e ponderar entre objetivos econômicos, políticos e estratégicos, com vistas a identificar os interesses maiores do Estado brasileiro.
Se, no plano externo, o Ministério das Relações Exteriores é a face do Brasil perante a comunidade de Estados e Organizações Internacionais, no plano interno, ele se relaciona com a Presidência da República, os demais Ministérios e órgãos da administração federal, o Congresso, o Poder Judiciário, os Estados e Municípios da Federação e, naturalmente, com a sociedade civil, por meio de Organizações Não Governamentais (ONGs), da Academia e de associações patronais e trabalhistas, sempre tendo em vista a identificação do interesse nacional.
O TRABALHO DO DIPLOMATA
Tradicionalmente, as funções da diplomacia são representar (o Estado brasileiro perante a comunidade internacional), negociar (defender os interesses brasileiros junto a essa comunidade) e informar (a Secretaria de Estado, em Brasília, sobre os temas de interesse brasileiro no mundo). São também funções da diplomacia brasileira a defesa dos interesses dos cidadãos brasileiros no exterior, o que é feito por meio da rede consular, e a promoção de interesses do País no exterior, tais como interesses econômico-comerciais, culturais, científicos e tecnológicos, entre outros.
No exercício dessas diferentes funções, o trabalho do diplomata poderá ser, igualmente, muito variado. Para começar, cerca de metade dos mil1 diplomatas que integram o Serviço Exterior atua no Brasil, e a outra metade nos Postos no exterior (Embaixadas, Missões, Consulados e Vice-Consulados). Em Brasília, o diplomata desempenha funções nas áreas política, econômica e administrativa, podendo cuidar de temas tão diversos quanto comércio internacional, integração regional (Mercosul), política bilateral (relacionamento do Brasil com outros países e blocos), direitos humanos, meio ambiente ou administração física e financeira do Ministério. Poderá atuar, ainda, no Cerimonial (organização dos encontros entre autoridades brasileiras e estrangeiras, no Brasil e no exterior) ou no relacionamento do Ministério com a sociedade (imprensa, Congresso, Estados e municípios, Academia, etc.).
No exterior, também, o trabalho dependerá do Posto em questão. As Embaixadas são representações do Estado brasileiro junto aos outros Estados, situadas sempre nas capitais, e desempenham as funções tradicionais da diplomacia (representar, negociar, informar), além de promoverem o Brasil junto a esses Estados. Os Consulados, Vice-Consulados e setores consulares de Embaixadas podem situar-se na capital do país ou em outra cidade onde haja uma comunidade brasileira expressiva. O trabalho nesses Postos é orientado à defesa dos interesses dos cidadãos brasileiros no exterior. Nos Postos multilaterais (ONU, OMC, FAO, UNESCO, UNICEF, OEA etc.), que podem ter natureza política, econômica ou estratégica, o trabalho envolve, normalmente, a representação e a negociação dos interesses nacionais.
O INGRESSO NA CARREIRA
A carreira diplomática se inicia, necessariamente, com a aprovação no concurso do Instituto Rio Branco (Informações sobre o concurso podem ser obtidas no site http://www2.mre.gov.birbindex.htm). Para isso, só conta a competência – e, talvez, a sorte – do candidato. Indicações políticas não ajudam.
AS REMOÇÕES
Após os dois anos de formação no IRBr , o diplomata trabalhará em Brasília por pelo menos um ano. Depois, iniciam-se ciclos de mudança para o exterior e retornos a Brasília. Normalmente, o diplomata vai para o exterior, onde fica três anos em um Posto, mais três anos em outro Posto, e retorna a Brasília, onde fica alguns anos, até o início de novo ciclo. Mas há espaço para flexibilidades. O diplomata poderá sair para fazer um Posto apenas, ou fazer três Postos seguidos antes de retornar a Brasília. Isso dependerá da conveniência pessoal de cada um. Ao final da carreira, o diplomata terá passado vários anos no exterior e vários no Brasil, e essa proporção dependerá essencialmente das escolhas feitas pelo próprio diplomata. Para evitar que alguns diplomatas fiquem sempre nos “melhores Postos” – um critério, aliás, muito relativo – e outros em Postos menos privilegiados, os Postos no exterior estão divididos em [quatro] categorias, [A, B, C e D], obedecendo a critérios não apenas de qualidade de vida, mas também geográficos, e é seguido um sistema de rodízio: após fazer um Posto C, por exemplo, o diplomata terá direito a fazer um Posto A [ou B], e após fazer um Posto A, terá que fazer um Posto [B, C ou D].
AS PROMOÇÕES
Ao tomar posse no Serviço Exterior, o candidato aprovado no concurso torna-se Terceiro-Secretário. É o primeiro degrau de uma escalada de promoções que inclui, ainda, Segundo-Secretário, Primeiro-
-Secretário, Conselheiro, Ministro de Segunda Classe (costuma-se dizer apenas “Ministro”) e Ministro de Primeira Classe (costuma-se dizer apenas “Embaixador”), nessa ordem. Exceto pela primeira promoção, de Terceiro para Segundo-Secretário, que se dá por tempo (quinze Terceiros Secretários são promovidos a cada semestre), todas as demais dependem do mérito, bem como da articulação política do diplomata. Nem todo diplomata chega a Embaixador. Cada vez mais, a competição na carreira é intensa e muitos ficam no meio do caminho. Mas, não se preocupem e também não se iludam: a felicidade não está no fim, mas ao longo do caminho!
DIRECIONAMENTO DA CARREIRA
Um questionamento frequente diz respeito à possibilidade de direcionamento da carreira para áreas específicas. É possível, sim, direcionar uma carreira para um tema (digamos, comércio internacional, direitos humanos, meio ambiente etc.) ou mesmo para uma região do mundo (como a Ásia, as Américas ou a África, por exemplo), mas isso não é um direito garantido e poderá não ser sempre possível. É preciso ter em mente que a carreira diplomática envolve aspectos políticos, econômicos e administrativos, e que existem funções a serem desempenhadas em postos multilaterais e bilaterais em todo o mundo, e n~o só nos países mais “interessantes”. Diplomatas est~o envolvidos em todas essas variantes e, ao longo de uma carreira, ainda que seja possível uma certa especialização, é provável que o diplomata, em algum momento, atue em áreas distintas daquela em que gostaria de se concentrar.
ASPECTOS PRÁTICOS E PESSOAIS
É claro que a vida é muito mais que promoções e remoções, e é inevitável que o candidato queira saber mais sobre a carreira que o papel do diplomata. Todos precisamos cuidar do nosso dinheiro, da saúde, da família, dos nossos interesses pessoais. Eu tentarei trazem um pouco de luz sobre esses aspectos.
DINHEIRO
Comecemos pelo dinheiro, que é assunto que interessa a todos. Em termos absolutos, os diplomatas ganham mais quando estão no exterior do que quando estão em Brasília. O salário no exterior, no entanto, é ajustado em função do custo de vida local, que é frequentemente maior que no Brasil. Ou seja, ganha-se mais, mas gasta-se mais. Se o diplomata conseguirá ou não economizar dependerá i) do salário específico do Posto , ii) do custo de vida local, iii) do câmbio entre a moeda local e o dólar, iv) do fato de ele ter ou não um ou mais filhos na escola e, principalmente, v) de sua propensão ao consumo. Aqui, não há regra geral. No Brasil, os salários têm sofrido um constante desgaste, especialmente em comparação com outras carreiras do Governo Federal, frequentemente obrigando o diplomata a economizar no exterior para gastar em Brasília, se quiser manter seu padrão de vida. Os diplomatas, enfim, levam uma vida de classe média alta, e a certeza de que não se ficará rico de verdade é compensada pela estabilidade do emprego (que não é de se desprezar, nos dias de hoje) e pela expectativa de que seus filhos (quando for o caso) terão uma boa educação, mesmo para padrões internacionais.
SAÚDE
Os diplomatas têm um seguro de saúde internacional que, como não poderia deixar de ser, tem vantagens e desvantagens. O lado bom é que ele cobre consultas com o médico de sua escolha, mesmo que seja um centro de excelência internacional. O lado ruim é que, na maioria das vezes, é preciso fazer o desembolso (até um teto determinado) para depois ser reembolsado, geralmente em 80% do valor, o que obriga o diplomata a manter uma reserva financeira de segurança.
FAMÍLIA : O CÔNJUGE
Eu mencionei, entre as coisas n~o t~o boas da carreira, “dificuldades no equacionamento da vida familiar”. A primeira dificuldade é o que fará o seu cônjuge (quando for o caso) quando vocês se mudarem para Brasília e, principalmente, quando forem para o exterior. Num mundo em que as famílias dependem, cada vez mais, de dois salários, equacionar a carreira do cônjuge é um problema recorrente. Ao contrário de certos países desenvolvidos, o Itamaraty não adota a política de empregar ou pagar salários a cônjuges de diplomatas. Na prática, cada um se vira como pode. Em alguns países é possível trabalhar. Fazer um mestrado ou doutorado é uma opção. Ter filhos é outra...
Mais uma vez, não há regra geral, e cada caso é um caso. O equacionamento da carreira do cônjuge costuma afetar principalmente – mas não apenas – as mulheres, já que, por motivos culturais, é mais comum o a mulher desistir de sua carreira para seguir o marido que o contrário2.
CASAMENTO ENTRE DIPLOMATAS
Os casamentos entre diplomatas não são raros. É uma situação que tem a vantagem de que ambos têm uma carreira e o casal tem dois salários. A desvantagem é a dificuldade adicional em conseguir que ambos sejam removidos para o mesmo Posto no exterior. A questão não é que o Ministério vá separar esses casais, mas que se pode levar mais tempo para conseguir duas vagas num mesmo Posto. Antigamente, eram frequentes os casos em que as mulheres interrompiam temporariamente suas carreiras para acompanhar os maridos. Hoje em dia, essa situação é exceção, não a regra.
FILHOS
Não posso falar com conhecimento de causa sobre filhos, mas vejo o quanto meus colegas se desdobram para dar-lhes uma boa educação. Uma questão central é a escolha da escola dos filhos, no Brasil e no exterior. No Brasil, a escola será normalmente brasileira, com ensino de idiomas, mas poderá ser a americana ou a francesa, que mantém o mesmo currículo e os mesmos períodos escolares em quase todo o mundo. No exterior, as escolas americana e francesa são as opções mais frequentes,
podendo-se optar por outras escolas locais, dependendo do idioma. Outra questão, já mencionada, é o custo da escola. Atualmente, não existe auxílio-educação para filhos de diplomatas ou de outros Servidores do Serviço Exterior brasileiro, e o dinheiro da escola deve sair do próprio bolso do servidor.
CÉSAR AUGUSTO VERMIGLIO BONAMIGO - Diplomata. Engenheiro Eletrônico formado pela UNICAMP. Pós- graduado em Administração de Empresas pela FGV-SP. Programa de Formação e Aperfeiçoamento - I (PROFA -
I) do Instituto Rio Branco, 2000/2002. No Ministério das Relações Exteriores, atuou no DIC - Divisão de Informação Comercial (DIC), 2002; no DNI - Departamento de Negociações Internacionais, 2003, e na DUEX - Divisão de União Europeia e Negociações Extrarregionais. Atualmente, serve na Missão junto à ONU (DELBRASONU), em NYC.
2 Conforme comunicado do MRE de 2010, é permitida a autorização para que diplomatas brasileiros solicitem passaporte diplomático ou de serviço e visto de permanência a companheiros do mesmo sexo. Outra resolução, de 2006, já permitia a inclusão de companheiros do mesmo sexo em planos de assistência médica.
Para tornar-se diplomata, é necessário ser aprovado no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), que ocorre todos os anos, no primeiro semestre (normalmente). O número de vagas do CACD, em condições normais, depende da vacância de cargos. Acho que a quantidade normal deve girar entre 25 e 35, mais ou menos. Desde meados dos anos 2000, como consequência da aprovação de uma lei federal, o Ministério das Relações Exteriores (MRE/Itamaraty3) ampliou seus quadros da carreira de diplomata, e, de 2006 a 2010, foram oferecidas mais de cem vagas anuais. Com o fim dessa provisão de cargos, o número de vagas voltou ao normal em 2011, ano em que foram oferecidas apenas 26 vagas (duas delas reservadas a portadores de deficiência física4). Para os próximos concursos, há perspectivas de aprovação de um projeto de lei que possibilitará uma oferta anual prevista de 60 vagas para o CACD, além de ampliar, também, as vagas para Oficial de Chancelaria (PL 7579/2010). Oficial de Chancelaria, aproveitando que citei, é outro cargo (também de nível superior) do MRE, mas não integra o quadro diplomático. A remuneração do Oficial de Chancelaria, no Brasil, é inferior à de Terceiro-Secretário, mas os salários podem ser razoáveis quando no exterior. Já vi muitos casos de pessoas que passam no concurso de Oficial de Chancelaria e ficam trabalhando no MRE, até que consigam passar no CACD, quando (aí sim) tornam-se diplomatas.
Para fazer parte do corpo diplomático brasileiro, é necessário ser brasileiro nato, ter diploma válido de curso superior (caso a graduação tenha sido realizada em instituição estrangeira, cabe ao candidato providenciar a devida revalidação do diploma junto ao MEC) e ser aprovado no CACD (há, também, outros requisitos previstos no edital do concurso, como estar no gozo dos direitos políticos, estar em dia com as obrigações eleitorais, ter idade mínima de dezoito anos, apresentar aptidão física e mental para o exercício do cargo e, para os homens, estar em dia com as obrigações do Serviço Militar). Os aprovados entram para a carreira no cargo de Terceiro-Secretário (vide hierarquia na próxima seç~o, “Carreira e Salrios”). Os aprovados no CACD, entretanto, não iniciam a carreira trabalhando: há, inicialmente, o chamado Curso de Formação, que se passa no Instituto Rio Branco (IRBr). Por três semestres, os aprovados no CACD estudarão no IRBr, já recebendo o salário de Terceiro-Secretário (para remunerações, ver a próxima seç~o, “Hierarquia e Salrios).
O trabalho no Ministério começa apenas após um ou dois semestres do Curso de Formação no IRBr (isso pode variar de uma turma para outra), e a designação dos locais de trabalho (veja as subdivisões do MRE na página seguinte) é feita, via de regra, com base nas preferências individuais e na ordem de classificação dos alunos no Curso de Formação.
3 O nome “Itamaraty” vem do nome do antigo proprietrio da sede do Ministério no Rio de Janeiro, o Bar~o Itamaraty. Por metonímia, o nome pegou, e o Palácio do Itamaraty constitui, atualmente, uma dependência do MRE naquela cidade, abrigando um arquivo, uma mapoteca e a sede do Museu Histórico e Diplomático. Em Brasília, o Palácio Itamaraty, projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1970, é a atual sede do MRE. Frequentemente, “Itamaraty” é usado como sinônimo de Ministério das Relações Exteriores.
4 Todos os anos, há reserva de vagas para deficientes físicos. Se não houver número suficiente de portadores de deficiência que atendam às notas mínimas para aprovação na segunda e na terceira fases do concurso, que têm caráter eliminatório, a(s) vaga(s) restante(s) é(são) destinada(s) aos candidatos da concorrência geral.
O IRBr foi criado em 1945, em comemoração ao centenário de nascimento do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira. Como descrito na página do Instituto na internet, seus principais objetivos são:
harmonizar os conhecimentos adquiridos nos cursos universitários com a formação para a carreira diplomática (já que qualquer curso superior é válido para prestar o CACD);
desenvolver a compreensão dos elementos básicos da formulação e execução da política externa brasileira;
iniciar os alunos nas práticas e técnicas da carreira.
No Curso de Formação (cujo nome oficial é PROFA-I, Programa de Formação e Aperfeiçoamento - obs.: n~o sei o motivo do “I”, n~o existe “PROFA-II”), os diplomatas têm aulas obrigatórias de: Direito Internacional Público, Linguagem Diplomática, Teoria das Relações Internacionais, Economia, Política Externa Brasileira, História das Relações Internacionais, Leituras Brasileiras, Inglês, Francês e Espanhol. Há, ainda, diversas disciplinas optativas à escolha de cada um (como Chinês, Russo, Árabe, Tradução, Organizações Internacionais, OMC e Contenciosos, Políticas Públicas, Direito da Integração, Negociações Comerciais etc.). As aulas de disciplinas conceituais duram dois semestres. No terceiro semestre de Curso de Formação, só há aulas de disciplinas profissionalizantes. O trabalho no MRE começa, normalmente, no segundo ou no terceiro semestre do Curso de Formação (isso pode variar de uma turma para outra). É necessário rendimento mínimo de 60% no PROFA-I para aprovação (mas é praticamente impossível alguém conseguir tirar menos que isso). Após o término do PROFA-I, começa a vida de trabalho propriamente dito no MRE. Já ouvi um mito de pedida de dispensa do PROFA I para quem já é portador de título de mestre ou de doutor, mas, na prática, acho que isso não acontece mais.
Entre 2002 e 2010, foi possível fazer, paralelamente ao Curso de Formação, o mestrado em diplomacia (na prática, significava apenas uma matéria a mais). Em 2011, o mestrado em diplomacia no IRBr acabou.
Uma das atividades comuns dos estudantes do IRBr é a publicação da Juca, a revista anual dos alunos do Curso de Formação do Instituto. Segundo informações do site do IRBr, “[o] termo ‘Diplomacia e Humanidades’ define os temas de que trata a revista: diplomacia, ciências humanas, artes e cultura. A JUCA visa a mostrar a produção acadêmica, artística e intelectual dos alunos da academia diplomática brasileira, bem como a recuperar a memória da política externa e difundi-la nos meios diplomático e acadêmico”. Confira a página da Juca na internet, no endereço: http://juca.irbr.itamaraty.gov.bpt-bMain.xml.
Para saber mais sobre a vida de diplomata no Brasil e no exterior, sugiro a conhecida “FAQ do Godinho” (“FAQ do Candidato a Diplomata”, de Renato Domith Godinho), disponível para download no link: http://relunb.files.wordpress.com/2011/08/faq-do-godinho.docx. Esse arquivo foi escrito há alguns anos, então algumas coisas estão desatualizadas (com relação às modificações do concurso, especialmente). De todo modo, a parte sobre o trabalho do diplomata continua bem informativa e atual.
MEUS ESTUDOS PARA O CACD – http://relunb.wordpress.com
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2020.07.14 16:30 galoccego Relato de um ex-barman

ESSE RELATO NÃO É MEU, ENCONTREI NO FACE E COMO ACHEI MUITO INTERESSANTE DECIDI TRAZER PARA O REDDIT.
Relato da internet: Parte 1 Já trabalhei como barman e observando bastante a vida dos que estavam do outro lado do balcão, tudo o que já falaram é verdade.
Entradas para as mulheres são sempre cortesias. Os homens pagam caro. E não se enganem achando que as mulheres não pagam a entrada, quem paga são os homens. Se a entrada na noite custa R$ 30,00 pra um homem, a verdade é que é R$ 15,00 masc(a dele). e R$ 15,00 femin(de alguma menina que entrou "free"). Os donos de bares jamais levam prejuízos e nada é de graça. No bar que eu trabalhava, o dono fazia "descontos" para os amigos, e usava esse argumento.
Nos bares sempre tem as bebidas originais bem guardadas, que são destinadas aos Vips. Geralmente, os alfa$. Os ricos chegam, as bebidas de qualidade vão todos para eles, e pegam mulher com o rodo. Já os pobres coitados que não são ricos, consomem bebidas falsificadas e não pegam ninguém.
Nesses lugares, o que mais vi mandar em tudo é o dinheiro. Quanto mais rico o cara for, mais mulher ele consegue. E nunca vi um alfa físico sair ganhando de um rico. A ordem de prevalências pelo que já constatei é:
  1. Ricos.
  2. Caras que tem o shape massa.
O resto nem entra, porque gordos, magrelos, baixos, pobres, etc, só levam prejuízo na balada. Prejuízo financeiro e EMOCIONAL. Quando conseguem alguma coisa, é no final da noite com alguma feínha que foi rejeitada pelos alfas. Quando a balada está terminando, e aquelas meninas que foram rejeitadas pelos alfas estão voltando para casa chateadas com a vida, é onde os zé ninguéns conseguem alguém. A única chance para o cara mediano na balada conseguir alguma coisa, é no fim dela. Pois mesmo uma vilena numa balada se sente uma rainha, e despreza todo mundo, com um ego gigantesco. Elas fazem isso porque se acham dignas apenas dos alfas. Mas quando os alfas as dispensam e a rejeitam porque acharam outra mulher mais atraente, é um tiro bem no meio do ego dela, pois ela passou a festa inteira dispensando os medianos porque se achava digna apenas do alfa, e agora no final ela vai embora sozinha sem ninguém? Aqui é onde o emocional está fragilizado e onde o homem mediano terá mais chances de conseguir alguma coisa com uma menina mediana ou feia. As bonitas, esqueçam. Não tem nem como se você não for alfa.
Se a intenção é pegar mulher, se for ao puteiro gastará bem menos financeiramente, não terá desgaste emocional, e o risco de pegar DST é o mesmo da mulher baladeira. Se brincar, é até menor. Se não for rico, beberá bebidas falsas, terá prejuízo, e saíra com o emocional destruído de lá, achando que o problema do mundo não te aceitar e te enxergar é seu.
Já vi muitos clientes homens medianos, indo pagar sua conta cabisbaixo, sem graças, com dois ou três amigos tudo desanimado porque vão embora sozinhos dentro um carro. E outros fingindo que só foram na balada pra curtir, que embora não tenham pegado ninguém, se divertiram e etc. O que é mito.
E tem um monte de mulher que paga de santinha falando que vai só pra curtir e ver o Dj, ou porque gosta de tal banda e etc, mas vai só pra dar toco. Não gostam de transar, não gostam de beber, não gostam de nada, só de se sentirem poderosas. Até os alfas penam nas mãos dessas mulheres em baladas.
Em baladas, o único que ganha realmente é o dono da boate. Pois ele ganhou um lucro exorbitante nas bebidas que vendeu(porque TODAS as bebidas são compradas a preço de banana, se você paga R$ 250,00 numa garrafa de whisky, pode ter certeza que ela foi comprada por R$60,00 no máximo, e se for falso, R$ 20,00 ou 30,00). Para constatar isso do preço, é bem simples, vá um supermercado e olhe o preço da garrafa. Depois divida ele por 2. E compare com o preço que você pagou na boate. No bar que trabalhei, compravam latinhas de Antartica por R$ 1,45 no próprio supermercado, e revendiam a R$ 5,50. Quando compravamos direto da Ambev, havia longneck que pagamos 0,90c a unidade, e revendiamos a R$ 6,00 ou R$ 7,00. O dono sempre tem mulher no pé dele, e mulher top. Ele nunca fica "desamparado sexualmente". O status do cara de ser dono de uma boate, desbanca todos os alfas.
Na minha opinião boate é um prejuízo de todas as formas possíveis, exceto para o dono. Mesmo para os alfas e ricos, é um prejuízo tanto financeiro como emocional. Pois você continua pagando pra comer a menina e se desgatando emocional fingindo interesse, competindo com outros machos e etc., mas eles não ligam, né?
Parte 2 Baladas é tanto o puteiro para mulheres, como disseram, como também é armadilha para bobos. É bom mostrar os outros aspectos que prejudica o homem, não sendo só as mulheres, para que possam ficar alertas. Todos os panfletos, as propagandas, as pulseiras de camarote, os copos e bonés e outros brindes... Tudo isso é friamente pensado pelos organizadores da festa para vender uma ilusão enorme, de tal forma que faça o nerd jogador de minecraft sentir vontade de sair de casa e ir lá e gastar seu dinheiro achando que vai se dar bem, de fazer a mais alta piranha sonhar que vai encontrar o Eike Batista dela lá dentro. Observem bem na cidade de vocês como são as propagandas, se você esquecer seu bom senso um pouquinho, você vai cair no conto de que balada é o melhor lugar para ir e ser feliz.
Por trás dos autofalantes, dos graves, do neon, daquelas pessoas fingindo ser felizes, está um máquina pronta pra sugar seu dinheiro. A intenção é sempre pegar o dinheiro do homem. É por isso que eles também lotam de mulheres, quanto mais cheio de mulher um lugar estiver, mais homem disposto a perder tudo o que tem. Mulheres são as iscas, a massa de manobra, para juntar homens fracos emocionalmente e sugarem seu dinheiro. Em uma análise bronca, pode-se dizer que boate é uma das coisas mais anti-homem já criadas. Porque ela nunca prejudica as mulheres de fato, somente homens. Pois mesmo as mulheres sendo apenas iscas, elas ganham emocionalmente e ganham a chance de encontrar um bobo para ser provedor (e acreditem, tem muito playboy que assume uma bomba dessa).
E depois que o camarada entra lá dentro, ele vai ser vampirizado financeiramente o quando puder. A vampirização emocional é só a consequência de ser bobo. Eu mesmo comprava maços de Carlton por R$ 6,50, e vendia cada cigarro picado por R$ 2,00. Eu ganhava em torno de R$ 30,00 por maço, pois na boate não era permitido vender e fumar, mas o cigarro é um símbolo de status que todo mundo lá dentro quer, até quem não fuma quer fumar pra poder ser notado, e quem se aproveitar disso... Será que é errado? Não sei. Eu fazia. Sei que quando meus maços acabavam, os caras ficavam tão fissurados que saíam da boate, iam até os postos de combustíveis, compram cigarro e voltavam. Só pra poder senta na mesa fumando. E a mesma lógica vale também as drogas ilicitas (que eu não vendia, mas quem vendia ganhava uma puta grana).
O ambiente geralmente é tão baixo, que as pessoas que estão no camarote, com pulserinha e copo estilizados por exemplo, esnobam as pessoas que estão na pista. Mulher então? Elas faziam questão de mostrar que são apenas para os vips lá de cima. As mulheres quando sobem para os andares superiores, elas se sentem como verdadeiras deusas. E falo isso porque, eu trabalhei no bar de camarote, e minha função era apenas preparar coqueteis e servir bebidas, nada mais e também não abria nenhuma exceção pra favorzinho. E ouvia muitos sapos de mulheres dizendo que estudam medicina ou direito, que estavam acompanhadas de fulano de tal, que eu tinha que fazer o que eles mandavam... E eu nunca fazia. Só me restringia ao bar. Já tive que chamar segurança pra me defender porque os ricões, além de bobos, ainda queriam pagar de machões e iam lá tirar satisfação do porque não levei algo para a mesa deles etc, sendo que tinha garçom pra isso. Alias, os garçons... Pobres coitados! Eram o que mais sofriam. Raramente eu trabalhei com o mesmo garçom por mais de dois meses, eles não aguentam. Eles chegam na mesa e são ridicularizados, pelos homens que querem bancar os machoes e pelas mulheres que sentem poderosas. É realmente um trabalho de cão. A maioria dos garçons(e barmans) eram estudantes, caras feios, magros, precisavam de um dinheiro extra, e faziam esses bicos. E quando topavam de servir uma mesa cheio de caras ricos, mulheres bonitas e etc... Puts. Dava dó. Eram motivo de piadas. Você via nitidamente o emocional dos caras destruídos. Tinha que ter um emocional muito forte pra aguentar aquilo sem esmorecer. As mulheres sentiam um prazer enorme em ver outros caras pisando no pobre coitado que estava servindo elas, elas se sentiam, de verdade, deusas. Eu aposto que elas gozavam quando debochavam dos outros.
E, também, boate é um ambiente muito inseguro. Além das brigas constantes que sempre acontecem, quase dono nenhum gasta dinheiro investindo na segurança da infraestrutura, porque eles pensam que nunca vai acontecer nada na boate deles.
Parte3
Sobre DSTs, era prache eu ouvir comentários de fulanas e ciclanas que tinham herpes na xota. Com tempo você vai pegando amizade com alguns caras, seguranças, e as fofocas correm. Mulheres bonitas, que só frequentam camarote e só andam com os ricões e esnobavam todo mundo, tinham histórias muito cabulosas. Tinha menina que eles falavam pra não deixar ela nem fazer boquete porque senão o pau pegava carie. Meninas que todo matrixiano JAMAIS pensaria que fosse tão nojenta. E são essas meninas que vão se casar aos 30 anos com um bobo matrixiano que jamais vai saber do passado negro dela. Já vi alguns casais por aqui, um cara gente fina, que mal saia de casa, junto com uma menina que era verdadeiro carrapato de boate. E quando elas reconhecem a gente na rua, abaixam os olhos, ficam com medo da gente ser amigo do namorado dela e contar as coisas que viamos.
Mals o textão. Mas pra quem teve saco e quis ler, fica o relato. Se eu contar todas as histórias escabrosas que já vi e ouvi, do que a gente faz nas boates com as bebidas, enfim, é de doer os olhos. Mas tem gente que apanha e apanha e continua indo. Tenho amigos que diz que exagero muito, que eu sou revoltado e etc. Mas, as pessoas são como animais criados pro abate, são influenciados pela propaganda, sempre vão, se dão mal, passam mal, mas acordam no outro dia crente que o próximo final de semana será diferente. Enquanto isso vão só perdendo dinheiro e tempo.
Eu não recomendo o cara nem ir a um pub bem light. Embora não sejam um ambiente tão fútil e banal como é a boate, acontecem as mesmas coisas, mas apenas em menor escala e mais discretamente. Se a intenção é beber com os amigos, descontrair e relaxar, é melhor queimar uma carne em casa e comprar bebidas por conta, por exemplo. Pelo menos é minha opinião. Para conhecer mulheres: não faça isso, meu amigo. É tiro no pé.
Talvez alguém pense que essas coisas são exageros, mas é a minha conclusão da minha experiência pessoal enquanto fiz bicos de barman. E quando falo barman, esqueçam aquele esteriotipo de cara fortão, bonito que usa uma gravata borboleta no pescoço, na maioria dos casos é só gente normal fazendo bico. Esses "showmans" são outra parte da história que tem bastante privilégios por serem alfas. Eu não fazia parte dessa categoria. Pra eles as boates devem ser boas. Não era para mim porque eu sou um cara normal, e talvez por isso até pareça um butthurt. Mas é só um relato que espero que sirva de alerta. Hehe
Parte 4 Obrigado pelas boas vindas, pessoal!
Então... Sobre as histórias cabulosas, vou começar contando as profissionais. Claro que existe boates exceções assim como mulheres (será? ), mas... Enfim. Eu também não trabalhei em clubes de tão alto padrão assim, quando eu falo que era clubes pra quem tinha dinheiro, é porque as coisas eram muito caras. Mas, não é nada comparado a uma boate grande e famosa. hehe
Começando pelas bebidas, coisas que barmans geralmente são obrigados a fazer:
- A maioria das pessoas não bebem as cervejas completamente, pois elas esquentam rápido na mão, e sempre volta pro bar ou fica espalhado pelo lugar longnecks pela metade. No final da festa, alguns barmans despejam toda essa sobra de cerveja num balde, enfileira as longnecks e coloca funis nos gargalos, e sai enchendo elas tudo novamente. Depois colocam a tampinha e botam pra gelar. As cervejas, lógicamente, vão ficar chocas. Por isso só devem começar a servidas após 2h da manhã, por exemplo. Onde a maioria já se encontra bêbada e qualquer coisa que consumir está gostoso. Como os barmans, por cortesia, sempre abrem as longnecks para os clientes, eles nunca desconfiam das tampas frouxas. Não fiz muito isso, mas já trabalhei em um local e uma festa ao ar livre que fez. Não era prática diária comigo.
- Os sucos naturais, não são naturais. Muita gente pagava o preço por um coquetel feito com o suco da laranja exprimida na hora, mas tudo era somente suco de saquinho(tang ou o mais barato que tiver) batido no liquidificador. Ele fica consistente e espumoso como um suco da fruta. Restaurantes também fazem essa jogada. Um copo de suco "natural" de 200ml era R$ 4,50, por exemplo. O saquinho tang que fazia 1l no liquidificador era 1 e pouco.
- As tequilas sempre saíam em dose, e as garrafas sempre ficam com o barman. Reaproveitamos sempre a mesma garrafa, enchíamos ela um pouco menos da metade de whisky vagabundo ou falsificado, e completávamos com pinga vagabunda. Sacudiamos e vu a la! Tinhamos uma tequila ouro José Cuervo. Como a maioria das pessoas não conhece gosto de nada, pagam R$ 15,00 numa dose de 50ml que custou apenas, no máximo, R$ 5,00 pra fazer. E pior: muitos ainda elogiavam. xD
- Tinhamos um tónel, que se dizia vender cachaça artesanal. Cada dose de 50ml era R$ 6,00. Mas sabe o que tinha lá dentro? Pinga barata de R$ 3,00 o litro. Aquelas 51, 21, 31...
- Os whiskys que servíamos no bar, sempre eram tretas. Muitas vezes a gente fazia aquele lance de encher a garrafa de coca-cola com whisky barato e acoplar ela na boca de uma garrafa de Red Label e mandar o o whisky vagabundo pra lá. Essas geralmente são as que ficam penduradas no dosador de garrafa invertido. Numa festa com umas 3 ou 4 caixas de whisky, tinha no máximo 3 ou 4 garrafas realmente originais, guardadas para os magnatas.
- Quase sempre a gente recebia ordens pra marcar coisa a mais na comada do cliente, se ele parecesse que estivesse muito bêbado. Quando eles iam pagar, sempre ficavam muito putos com as meninas que trabalhavam no caixa, mas, então o gerente jogava aquela onda de que ele emprestou a comanda pra alguma mulher, que ele não lembra, se a coisa aperta muito já vinhas os seguranças intimidar, no final o cara sempre pagava. Não tinha jeito.
- As porções nunca jogavam fora. Já vi cozinheira tirando cinzas de cigarro de um resto de porção de batata e guardando as batatas pra usar com outra pessoa que comprava porção.
Tomem bastante cuidado, porque vocês nunca vão saber o que realmente estão consumindo. Isso não vale só pra boate, vale pra restaurante, lanchonete, casa da vó etc.
Também existia alguns esquemas de lavagem de dinheiro, eu não sabia muito sobre isso, só ouvia a respeito. Mas alguns eventos em fazendas particulares, reunia bastante magnata e alguns amigos afirmavam que rolava um esquema de lavar dinheiro tenebroso. E que muitas boates são usadas pra isso. Sobre isso não posso afirmar com certeza, isso foi só um boato que eu ouvia e acreditava, por tudo o que eu já presenciei lá.
Para atrair homens para festa, o promoter dava brindes, cortesias e até dinheiro pra algum grupo de meninas fazer volume na porta da boate. Já dava as instruções para elas irem super maquiadas, roupas curtas e ficarem bem visíveis. A panfletagem nas ruas e nas faculdades, era sempre feito por meninas bonitas e com roupas curtas. O próprio promoter que cuidava da casa, fazia uma propaganda ferrenha no Facebook. Pra cada 5 mulheres que ele marcava no post, ele marcava 1 homem, por exemplo. E pedia pras meninas confirmarem presença no evento divulgado no Facebook. Tudo isso pra dar a impressão que naquela festa tem mais mulher do que homem.
Parte 5 Então, o homem escravogina, solitário e carente, via aquele harém pela baguetala de R$ 30,00 o ingresso... Era casa cheia na certa. Uma vez lá dentro, o cara até parcela a consumação no cartão de crédito. A maior dificuldade é sempre fazer o homem entrar na boate, porque depois que está lá dentro, já era.
Um pouco do lado obscuro:
As mulheres nunca me cantaram no balcão com um real interesse em mim. Geralmente, aparecia uma mediana que estava de favor na festa, jogar um charme pra tentar descolar um drink de graça. Como eu não dava, saíam nervosas e davam chiliques. Mas alguns colegas davam, e só ganhavam um sorrisinho de volta e a menina nem voltava mais no bar, senão pra tentar pegar outro drink na faixa. Mas para meus colegas, aquele sorrisinho era sinônimo de um casamento. kkkkk
Elas sempre pediam para o acompanhante delas levantar e buscar bebida no bar, jamais ela ia sozinha ou ia junto com ele. E nesses momentos, esses prazos de 5 e 10 min, é onde ela flertava com muitos outros homens. O cara saia da mesa para buscar mais bebida para ela, e ela levava aquelas bulinadas do cafa de leve, pra elas era como se estivessem numa sauna greco-romana.
Banheiro de deficiente físico sempre foi usado como quarto de sexo. Isso era unânime em todas casas que trabalhei e eventos que fiz, era só jogar um "café" na mão do segurança, que o próprio segurança vigiava a porta pra não deixar ninguém interromper a trepada. Aqui era onde muito cara com físico bom e pouca grana, algumas vezes ganhava a noite. Ele não precisava de carro, nem de levar no motel, nem nada, torava a menina na lá no banheiro e só dava uma gorjeta pro segurança. Havia vezes que garotas de programas trabalhavam discretamente nos eventos, em parceria com os seguranças. Elas davam uma grana pra eles, e ela fazia o trabalho. A mesma menina, que nem parecia puta, ás vezes transava com 3 ou 4 cara na mesma noite, sem ninguém nem desconfiar que rolava uma fita dessa lá dentro. Mas como nada fica discreto pra sempre, começou querer haver CONCORRÊNCIA, outras meninas também queriam, e aí começou virar bagunça até que o dono deu um jeito de cortar ameaçando os seguranças de demissão.
Muita gente FINGIA ficar bêbada pra ter desculpas para fazer merda. Isso eu via muito, e a maioria sempre era mulheres. Elas subiam na mesa, faziam danças sensuais, ligavam para ex, pegava no pinto do caras, traiam os namorados, enfim, fingindo completamente que estavam bêbadas. Eu sabia que era fingimento, porque eu tinha um certo controle de quem bebia no bar, dava pra saber o quanto a pessoa consumiu e tinha menina que tomava duas cervejas e começava a fazer merdas, só pra ter um monte de cara endeusando elas e poder fazer uma putaria "sem culpa". E quem fica bêbado com duas cervejas? Mas tinha muito idiota que caía.
Certa vez, trabalhei em um evento que veio uma Dj que era da Espanha, senão me engano. Não lembro o nome, mas era uma menina baixinha com trejeitos de sapatão, cabelos raspados do lado e tranças onde tinha cabelo. Quem é mais ligado em música eletrônica deve saber o nome, eu não lembro. (Ela é aquele tipo de dj desconhecido no país onde mora, mas quando vem pro Brasil, faz sucesso, porque brasileiro é lambe-saco de gringo.) Eu sei que foi um evento que todo mundo quis ir, mas o lugar estava lotado, ingressos caros e etc. Havia uma menina que estava lá dentro, mas queria passar mais cinco amigas pra dentro da festa na faixa. O segurança não deixava. Até que uma delas ofereceu um boquete pra ele. Não foi nem o cara que pediu. A própria menina ofereceu. Obviamente, ele não recusou. Deram um jeito de ir pro estacionamento da fazenda e mandou ver. Entrou as cincos. Depois vi essa mesma menina beijando um playboy na mesma festa, o que me embrulhou o estômago. E com o tempo, ela foi ganhando fama de boqueteira entre os seguranças, então toda festa grande, os caras quase saiam no tapa pra decidir quem ia ficar na portaria, porque já sabiam que ela ia aparecer por ali. Afinal, ela não tinha grana e não tinha jeito de entrar, mas queria estar no meio dos playboys. E ela virou figurinha marcada mas depois sumiu. Um belo dia, num pubzinho, eu tava na porta conversando com os seguranças, ela me desce do carro de mãos dadas com um playboy. O segurança cumprimentou ela, e ela fingiu que não conhecia(sendo que ela tinha um passado negro com ele). Cumprimentou apenas o dono do pub e falou que agora estava noiva do fulano de tal. O cara tinha grana, a julgar pelo carro que ele tinha na época. E depois nunca mais víamos ela nas festa, e quando ia, ia acompanhada dele.
Que fique claro que não estou querendo criar ódio por boates, é só um relato do que vivenciei. O cara que quiser ir, não se prenda no que eu falo não, só fique atento. Hehe
Parte 6 Fico feliz em saber que tem alguma utilidade minhas observações. É impressionante o que você enxerga por trás das coisas somente observando. Nem precisa ser clarividente. hehe
Com o decorrer do tempo vou dando um up aqui com as histórias banais.
Mas acho que o mais importante que eu queria ter compartilhado com vocês a respeito das boates, era a questão de como fraudávamos bebidas. Porque isso é algo que prejudica a saúde dos consumidores a longo prazo, e além de pagar caro por algo que você nem sabe o que é. É algo que me arrependo de ter feito, embora fosse meu trabalho, então eu sempre tento alertar as pessoas que vão em boates para ficar espertas nesse sentido.
As histórias das perícias femininas são coisas bem baixas, praticamente histórias de filmes pornôs. Mas nada diferente do que acontece fora da boate, também.
Eu achava mais interessante o comportamento masculino do que o feminino, e aprendi muito observando caras que estavam caídos, usando a tal lógica reversa. Por exemplo, nas festas acontecem muitas frustrações, e na minha condição de barman, muitas vezes acabávamos fazendo um papel de ouvinte e psicólogo. Muitos homens bebem para amenizar as dores, e quando encontram alguém para ouvir os problemas deles, os caras desabam. Geralmente, esse alguém é o barman, o garçom... Ninguém do outro lado do balcão, nem os próprios amigos do cara, o acolhem nesse momento. E aqui vivenciei muitas situações constrangedoras, de caras enormes de tamanho, chorando feitos beberrões na minha frente. Era engraçado, porque eu sou um cara pequeno e mais duro emocionalmente do que eles(que em teoria, pareciam ser os caras mais frios do mundo) . hehe
Eu não podia fazer muita coisa a não ser ouvir e guardar aquelas histórias como experiências. Eu praticamente nunca consegui ajudar nenhum cliente. Todos eles queriam ouvir que a esposa era exceção, que mesmo traídos deveriam dar segunda chance, que ele era o errado da história, etc. Nenhum aceitava qualquer ponto de vista diferente em que a sua companheira fosse uma pessoa ruim. E ás vezes, discutiam comigo defendendo a esposa após eu aplicar pequenas injeções de real. Mas com tempo percebi que era inútil tentar salvar alguém, porque existe homens que se acomodaram a viver numa lama emocional que tem até medo de sair dali. Eu no máximo consegui algumas amizades, que me ajudaram depois a arranjar outro emprego melhor, mas, os caras infelizmente vivem a mesma vida que levavam, com migalhas emocionais, dores profundas e um depressão que eles tentam abafar com bebida, gerando lucro pra alguém que se aproveita da fraqueza emocional desses mesmo caras.
Acho que se o cara assimilou bem a real, é esperto, tem uma grana pra gastar que não vai fazer falta, tem problema nenhuma ir em boate. O único problema que vi mesmo é o cara pobre que se endivida achando que vai ter sexo fácil ou o ingenuo que vai achando que vai encontrara mulher da vida dele lá.
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2020.07.06 00:45 dukaymon Ou os dois são loucos ou nenhum é.

Dia 1: Mário pega no carro e foge, saindo do concelho.
Dia 2 a dia 10: após abandonar o carro num parque de estacionamento a 230 km de casa, Mário esconde-se num pinhal e aí fica até acabaram as poucas latas de comida que trazia na mochila.
Dia 11 a dia 33: alimentado-se de frutas e vegetais que vai roubando de campos agrícolas e sem nunca ficar no mesmo sítio mais do que um dia, Mário encontra-se já a 300 km de casa, perto da fronteira.
Dia 33 a dia 77: sem se atrever a aproximar-se da civilização, por medo que o reconheçam (e não só), no meio do mato Mário encontra refúgio num casebre abandonado, envolto em silvas e arbustos, que funcionam como camuflagem, impedindo que mesmo o transeunte mais atento pudesse vislumbrar o edifício aí escondido. Na praia deserta que fica a 500 metros do local, Mário obtém o alimento que precisa e bebe a água da chuva que se acumula num pequeno tanque decrépito atrás do casebre.
Dia 78: Mário tenta pôr fim a tudo.

"Desculpem-me o mal que vos causei", lia-se na carta, "mas quero que saibam que, tal como rio rebenta o dique e inunda os campos em seu redor, se vocês sofrem por minha culpa, é porque não consegui conter em mim tanto sofrimento."
Dobrou a folha ao meio e deixou-a sobre um banco. Uma lágrima tinha esborratado o texto, deixando uma das palavras totalmente ilegível e, de forma parcial, a palavra que lhe antecedia e a palavra seguinte, mas ele nem reparou. Também não interessava, provavelmente ninguém iria descobrir aquela carta.
Levantou-se, saiu do casebre e caminhou nervosamente até à arriba de onde decidira que haveria de ser conduzido pela gravidade até ao abismo álgido e salgado que o tinha vindo a seduzir sempre um pouco mais de cada vez que o contemplara.
Era um dia ventoso e borralhento, mais ventoso ainda à beira mar, no cimo da falésia. Lá em baixo o mar castigava as rochas impassíveis que outrora haviam estado cobertas por um amplo lençol de areia.
Mário olha para baixo e murmura sofridamente:
-Como é possível que isto já tenha sido uma praia, e eu tenha sido tão feliz nela!
E não contém as lágrimas quando à mente lhe vêm as imagens dos longos e soalheiros dias de verão passados naquele lugar com os amigos, na adolescência.
Vinte anos separavam essas memórias do presente, vinte anos que, a bem dizer, pareciam cem ou mesmo vinte anos vividos por uma pessoa diferente, de tão antipodal era o seu estado de alma na altura em que decide suicidar-se, face à alegria, a energia e o fulgor do seu espírito na juventude.
Mário tentava sempre, quando ainda fazia um esforço para não desistir de viver, impedir-se de recordar esses bons momentos do passado, por saber que lhe agravavam a dor do presente. "O mau não parece tão mau a quem nunca conheceu o bom. Tomara que nunca tivesse experimentado a felicidade!", pensava ele.
Mas agora que está prestes a acabar tudo, que mal advinha de deleitar-se uma última vez com o sol e o calor desses Verões longínquos? A dor terminaria em breve.
- Seja esta a minha última refeição de condenado, um festim para as sensações! - disse ele.
A sua mente é então invadida por todas essas boas recordações que tanto procurara reprimir: as gargalhadas de fazer doer a barriga, os planos e objectivos idílicos para o futuro, a descoberta do prazer da sexualidade, as fogueiras acendidas pouco antes do Sol mergulhar no mar, com o intuito de obrigarem a praia a dar palco à sua puberdade até durante a noite.
Mário trauteia uma música da adolescência, de um desses Verões insuportavelmente felizes, e conforta-se com acreditar que dentro dos vãos e grutas daquela defunta praia ainda é possível ouvir o eco da sua melodia.
No alto do precipício o vento fustiga-o, e ele, de olhos fechados, imagina-o como sendo os seus amigos a saltarem para cima dele em jeito de brincadeira.
Esteve assim largos minutos, a colher quanta felicidade podia colher de um campo de alegrias já ceifado há muito. Até que a noção do presente retorna, para converter essa alegria em suplício: a realidade desesperante que põe fim à miragem de um oásis.
A chuva começava a cair tímida e lentamente, mas era perceptível que se estava a tornar ligeiramente mais forte a cada minuto que passava. Mas o vento, pelo contrário, seguia o sentido oposto ao crescendo da chuva.
-Ah, sim, o último banho do meu último dia de praia - diz Mário sarcasticamente, no seu habitual exercício de auto-comiseração, levantando a cabeça para encarar a chuva.
- Basta! - resmungou ele, cheio de repulsa de si mesmo, por não conseguir deixar de tratar com sarcasmo nem mesmo aquele que era o momento mais sério da sua vida.
Dito isto, baixa a cabeça, fita o abismo, vendo o mar que parecia aumentar de fúria, ofendido com a indiferença dos rochedos, e, sem ponderar um segundo, por medo que a coragem lhe viesse a faltar, dá aquele que pretende que seja o último mergulho da sua vida.
Mantém os olhos fechados e sente nos ouvidos o assobio do ar, que sobrepõe-se ao som da ira do oceano. E assim vai descendo, até que, de súbito, vê as memórias da sua vida, que naquele derradeiro momento parecem-lhe mais vívidas do que alguma vez pareceram, darem lugar a memórias estranhas e alheias a tudo o que vivera, e mas mais bizarro ainda: vê-as, não da sua perspectiva, mas da perspectiva de outra pessoa, que ele não fazia ideia de quem era.
Assustado, abre os olhos de repente e vê o mar a uns quantos metros de distância. Depois disso não se lembra de mais nada.

Quando acordou, Mário deparou-se com uma enfermeira que, empunhando uma seringa, tentava encontrar uma veia no seu braço. Ao vê-lo acordar, a enfermeira apressa-se a chamar um médico.
- O que é que aconteceu? - pergunta Mário, desorientado, ao médico que lhe auscultava o peito.
-Não se lembra do que aconteceu? - pergunta o médico. - O senhor atirou-se de uma falésia. Por sorte, ou mesmo por milagre, caiu numa zona em que a água tinha profundidade suficiente para que não tivesse morte imediata nas rochas. O hospital irá contactar a sua mulher e o o seu filho para informá-los que o senhor já se encontra consciente.
-Desculpe!? Mulher e filho? Eu sou solteiro e vivo com os meus pais! Enganou-se no paciente.
O médico, surpreendido, observa a sua ficha clínica e pergunta-lhe:
- Você não se chama Mário Costa Figueiredo?
-Sim - respondeu Mário.
-Então não há nenhum engano!
-Não, desculpe, há de certeza um equívoco... - retorna Mário, irritado e, ao tentar levantar os braços em protesto, repara que um deles estava algemado à cama.
- Ah, sim já me lembro, apanharam-me finalmente! Mas eu não tenho família nenhuma! Nem sou responsável pelo crime que me atribuem!
O médico calou-se, na dúvida entre estar perante um legítimo caso de amnésia ou um criminoso a mentir para tentar passar a ideia de que estava inocente.
Disse: "eu volto já" e afastou-se.
Os dois polícias que estavam de vigia à porta da sala onde Mário estava internado entraram assim que o médico avisou-os que ele tinha acordado e, a alguma distância, fitaram-no com cara de poucos amigos e trocaram entre si palavras que Mário não conseguia ouvir.
Provavelmente insultos, pensou Mário.
E pela razão certa, mas não contra a pessoa certa. Mário era suspeito de matar uma mulher grávida. O crime fora gravado e a cara dele tinha aparecido na televisão, mas não era ele.
Porém, o facto de se ter posto em fuga não fizera nenhum favor à sua reputação de auto-proclamado inocente, embora se ele próprio se tinha visto em vídeo a cometer aquele crime hediondo, seria impossível parecer mais culpado mesmo que tivesse ficado placidamente sentado no sofá à espera que a polícia arrombasse a porta de sua casa para o prender.
Setenta e oito dias em fuga andou Mário, até ser encontrado inconsciente na praia, após a tentativa falhada de suicido.
Mas porque fugiu Mário? E porque se tentou matar? As respostas, que parecem óbvias - não ser injustamente condenado por homicídio e estar cansado de viver como um pária fugitivo - não satisfazem totalmente as perguntas. Se esses foram factores a ter em conta, havia contudo algo de mais profundo, mais inquietante e mais assustador - ele fê-lo porque, no seu íntimo, sentia-se de alguma maneira culpado pelo crime que não cometeu.
Um Mário completamente seguro da sua inocência talvez não fugisse se o acusassem de um crime cometido por outrem. E decerto que jamais aceitaria carregar a culpa alheia por um crime, mesmo que todas as testemunhas jurassem pelos parentes defuntos que o tinham visto a disparar a arma. Nem mesmo que ele se tivesse visto a matar a vítima, como de facto viu. Nem mesmo que a sua vida dependesse disso. Mário estava inocente e sabia-o com toda a certeza, mas sabia também, com equivalente grau de certeza, que era (um pouco) culpado.

Mas os problemas de Mário não começaram com o homicídio.
Um estranho acontecimento ocorrido vinte anos antes, fora o que dera início à inexorável descida de Mário ao abismo.
Mário sempre jurou que pouco tempo antes do acidente que o tinha deixado desfigurado, tivera uma premonição. Um sentimento repugnante, um misto de desespero e medo avassalador, acompanhado por um arrepio na espinha, que sentira ao ver um relâmpago cair no sítio onde meses mais tarde seria atropelado por um carro.
Estropiado e desfigurado, não foi mais capaz de arranjar emprego e muito menos manter uma vida amorosa com uma mulher. Tinha passado os últimos vinte anos da sua vida a viver em casa dos pais, dependente destes, sem quase nunca sair à rua. Um adulto que nunca experimentara ser adulto, alguém que ia envelhecendo mas cuja vida parara para sempre na adolescência.
Sem coragem para matar-se, a única coisa que desejava, dia a pós dia, era a morte.


As provas não deixavam margem para dúvida: as impressões digitais recolhidas no local do crime eram dele, bem como ADN. Se ele não era culpado deste crime, as prisões estavam cheias de inocentes.
E no entanto não era culpado, asseverava ele com toda a convicção e honestidade possíveis de se encontrar num inocente injustamente acusado.
Mário foi condenado à pena máxima. A "sua" mulher esteve presente no julgamento, chorosa, desolada, horrorizada. E na cara de Mário era patente a incredulidade de um viajante do tempo que encontra no futuro um mundo tecnologicamente impossível de conceber na sua era. Estarei louco?, pensou ele. E foi nisso que preferiu acreditar, confrontado com a sua "nova" realidade. Mas não cometi aquele crime, posso estar louco mas não sou assassino!
A mulher visitou-o relutantemente apenas uma vez na prisão. Quando, durante essa visita, ele lhe disse que nunca a tinha visto na vida e que não tinha filho algum, nem com ela nem com ninguém, ela sentiu alívio por ter sido ele a pôr fim a tudo. Se fosse eu a rejeitá-lo, ele ainda me mandava matar!, pensou ela à saída da prisão.Mário depressa se aclimatou à vida de recluso, que ele não considerava pior que a vida miserável que tinha levado durante os últimos vinte anos, enclausurado em casa dos pais. Ao fim do primeiro ano, Mário decide escrever um livro, uma espécie de biografia "barra" apologia da sua inocência.
Falou da premonição, do acidente meses mais tarde, da visão que teve quando se tentou matar; tentou demonstrar o seu álibi para a momento do crime e falou das suas famílias: a verdadeira, os pais, dos quais nunca mais teve notícia e nunca mais não foi capaz de encontrar, como se nunca tivessem existido (a casa onde viviam também não existia), e da nova família e nova vida que o universo lhe atribui depois de se ter atirado da falésia.

O manuscrito chamou a atenção do psiquiatra que acompanhava Mário. O psiquiatra tinha diagnosticado Mário com amnésia retrógrada e classificara as memórias anteriores ao acidente de confabulações.
O psiquiatra tinha um amigo, Alexandre, um sujeito lunático mas interessante, que tinha interesse no ocultismo, em particular na parapsicologia. O psiquiatra, Carlos de seu nome, que gostava de ficar a ouvir o seu amigo e antigo colega de faculdade a debitar disparates fantasiosos mas originais quando se encontravam aos domingos à tarde, na casa deste último, sempre com um leve sorriso de troça na cara, sem, contudo, ser desrespeitoso e sem que Alexandre levasse a mal, decidiu mostrar-lhe uma cópia do manuscrito, com a autorização de Mário.
Numa terça-feira de manhã, no caminho para o trabalho, Carlos parou na casa do seu amigo e entregou-lhe o manuscrito, na expectativa de ouvir Alexandre discorrer sobre o assunto no domingo seguinte.
- Olha o que um recluso lá da prisão escreveu. Diverte-te.
E saiu um pouco apressado, pois já ia atrasado.
Domingo chegou, e, para quebrar o hábito, era Alexandre que batia à porta de Carlos logo após o almoço e não o inverso, como sempre sucedera. Estava nervoso e efusivo, como um adolescente prestes a perder a virgindade.
- Tenho de falar com esse tipo. A que horas podem os prisioneiros receber visitas? - perguntou Alexandre.
Carlos tentou demovê-lo, pois não lhe agradava a ideia que um doente mental como Mário, e ainda por cima um paciente seu, fosse influenciado por um excêntrico como Alexandre, por mais bem-intencionado que fosse. Discutiram e foram-se zangando gradualmente mais com o decorrer da discussão. No fim, para não arruinar aquela amizade que ambos prezavam, Carlos concedeu que Alexandre visitasse Mário, até porque não havia maneira legal de o impedir.

O dia em que Mário e Alexandre se conheceram chegou, e, assim que Mário o viu, pensou tratar-se de algum daqueles "novos" parentes ou amigos da sua realidade pós tentativa de suicídio.
- Ah, sim, você é o tal amigo do psiquiatra - disse Mário, aliviado por não ser nada daquilo que esperara.
Alexandre disse que lera o livro e Mário interrompeu-o:
-Deve pensar que eu sou maluco ou mentiroso, não é? - acrescentou ele.
Houve uma pausa e Alexandre, num tom sério, respondeu:
- Não, não acho...
Os olhos de Mário acenderam-se e, após alguns uns segundos, perguntou:
Quer dizer que você... acredita?
Uma pausa, mais longa que a anterior, separou a pergunta de Mário da resposta de Alexandre. Alexandre aproximou a cara do vidro e, como que reconfortando um amigo em sofrimento, diz com voz baixa mas firme:
- Acredito.
Mário pergunta imediatamente, incrédulo e extático:
-Acredita que eu sou inocente ou no resto? Ou em tudo?
Alexandre diz:
-Acredito que teve de facto aquilo a que chama de "premonição". Acredito que viu o que viu quando se atirou para o mar e, embora não descarte a hipótese de amnésia, creio que é possível que esteja a ser sincero quando diz que a sua família não é de facto a sua família. Quanto ao crime, devo ser a única pessoa no mundo que não está convicto da sua culpabilidade.
Mário não sabia o que achar. A realidade para ele não fazia sentido. Se ele próprio vira-se a cometer o crime e sentia-se um pouco culpado por isso, embora soubesse que não o cometera, e se havia provas irrefutáveis que apontavam para si, como é que era possível que alguém duvidasse disso, ainda para mais um total desconhecido como Alexandre? Uma realidade em que Mário era casado e tinha um filho, era uma realidade em que também podia existir alguém como Alexandre. Mas provavelmente estava louco, como preferia acreditar.
Quase a chorar, Mário pergunta:
-O que o leva acreditar em mim?
Alexandre diz:
-Conhece o conceito de doppelganger?
- Sósias? Sim - respondeu Mário.
-Certo - retorquiu Alexandre-, mas não me refiro somente a pessoas apenas com similaridades físicas com outras pessoas sem parentesco. Falo de uma relação entre dois ou mais indivíduos que vai além do que é meramente o aspecto físico, a uma relação de transcendência psicológica, uma ligação talvez metafísica entre mentes.
-Desculpe, mas não acredito nessas coisas - retrucou Mário. - E não vejo o que tem isso a ver com o meu caso. Está a querer dizer que foi um sósia meu que cometeu o crime?
-Não acredita, mas no entanto jura que a sua família foi trocada, que não cometeu o crime apesar das evidências e que viu a vida de outra pessoa à frente quando tentou matar-se. Se não acredita, então só podemos concluir que é louco, certo? E para além disso, é você que afirma ter tido uma "premonição". Ora, não acredita em si próprio? Loucura por certo...

Mário, sentiu-se tocado. Nunca revelara a ninguém que achava que talvez estivesse louco. Mas que outra explicação haveria?
-Não me diga que o meu sósia também tem o meu ADN e as minhas impressões digitais? - disse Mário, um pouco desdenhoso. - E quando eu falei de premonição, se você leu mesmo livro, decerto se lembrará que não invoquei explicações paranormais. Eu senti que algo de mau ia acontecer, e aconteceu. Foi apenas isso, um sentimento. Se eu "adivinhei" o futuro ou se foi um sinal "dos Céus" abstenho-me de especular.
Pense nisto - disse Alexandre-, tal como duas pessoas diferentes, sem qualquer contacto entre si, podem acertar nos números da lotaria, também é possível, mas extremamente improvável, que duas pessoas tenham o mesmo ADN. A probabilidade é tão baixa que no mundo você não encontrará ninguém geneticamente igual a si, mas se a população mundial fosse suficientemente numerosa, seria possível encontrar; e quanto mais numerosa fosse, mais probabilidade haveria. Seriam seus "gémeos" idênticos, apesar de não serem filhos dos mesmos pais... - Mário ia dizer algo, mas Alexandre aumentou e apressou a voz de modo a impedido de exprimir-se. - Quanto à premonição, se você pressentiu algo de mau que iria acontecer meses depois, então é óbvio que temos de recorrer a explicações não usuais para isso, pois prever o futuro não é considerado possível pela ortodoxia científica. Dou-lhe o seguinte exemplo como forma de fazê-lo perceber melhor onde quero chegar:
"Há várias décadas, na Austrália, um homem, incapaz de adormecer, decide ir à varanda para apanhar ar. No momento em que vê a lua cheia sente uma repulsa macabra inexplicável, como nunca tinha sentido, um mal-estar físico como se tivesse ingerido algum veneno. Era perto da meia-noite. No dia seguinte, a polícia bate à sua porta e informa-o que a sua filha fora assassinada. O médico legista determinou que ela tinha sido morta por volta da meia-noite.
"Não havia maneira do pai saber que a filha estava a ser assassinada a dezenas de km de distância, no entanto esse acontecimento foi sentido por ele de algum modo, a não ser que acreditemos que se tratou de uma coincidência.
"Isto costuma acontecer também com gémeos idênticos, em que um deles é sensível ao que se passa com o outro."
-Continuo sem perceber o que tem isso a ver comigo - disse Mário.
-Da mesma forma que a mente consegue sentir a dor ou alegria de alguém que nos é biologicamente próximo, ou mesmo idêntico, você, como confessou no seu livro, talvez sente-se um pouco culpado pelo crime porque aquele poderia ser o seu irmão gémeo ou algum "clone" sem relação a si, como referi há pouco. Esta - um irmão gémeo - seria a explicação mais simples, e portanto mais plausível, para o sucedido. Mas como acreditar nisto se você próprio confessou o crime na sua carta de despedida? E se eu acreditasse nisto não estaria aqui.
Mário ficou atónito:
-Desculpe?
Alexandre, que não estava surpreendido com a surpresa de Mário, não que achasse que ele estava amnésico ou a fingir, diz:
-Sim, após acordar no hospital você revelou o seu esconderijo à polícia e lá encontraram a sua carta, na qual desculpava-se pelo sofrimento causado à sua mulher e filho e confessava o homicídio da sua amante grávida. .
-Não, lamento, isso não aconteceu. Eu escrevi uma carta, sim. Mas como tem você conhecimento disso? - pergunta Mário. Que um estranho tivesse conhecimento de uma carta que nem a polícia que investigou o crime e perseguiu Mário durante quase três meses conhecia, seria motivo de estupefacção e medo para qualquer pessoa, mas em Mário, que já passara e continuava a passar por coisas mais bizarras, isso não causou tanto espanto como deveria. Mário acrescenta:
-Mas não escrevi isso que diz. E para além disso, a polícia, que eu saiba, nunca encontrou a carta porque eu, com vergonha, nunca mencionei o esconderijo. Não queria que a minha carta de despedida fosse descoberta tendo eu sobrevivido, seria vergonhoso demais. Mas em nenhum parágrafo da carta admiti o crime, pois não o cometi. Apenas pedia desculpa aos meus pais pelo sofrimento que lhes causei, motivado pelo sofrimento que eu sentia.
-Lembre-se, eu acredito que esteja a ser sincero quando diz o que diz. E que essa sinceridade não advém das confabulações em que um amnésico acredita, mas correspondem aos factos.
"Eis o que eu acho: você não matou aquela mulher. Mas você também matou-a. E as suas duas famílias são ambas suas mas não ao mesmo tempo. E as memórias que viu na mente são suas e e não são suas, pois foram e não foram vividas por si.
"Aquela sua premonição, tida no momento de uma descarga de energia - o relâmpago - foi a recolecção, por parte da sua mente, da informação de um evento que tinha acontecido no futuro, mas um futuro doutro universo, futuro esse que, em relação à linha temporal do nosso universo, seria um acontecimento do passado. Doutro modo, você não poderia ter tido a premonição, pois a causa (o acidente) teve de anteceder o efeito (a premonição do acidente) para que aquele pudesse ser previsto. Como, de acordo com as leis da física, as causas nunca antecedem os efeitos, o acidente teve de ocorrer primeiro noutro universo para que o conhecimento dele neste universo pudesse anteceder o seu acontecimento neste universo. É esta, a meu ver, a explicação para o fenómeno vulgarmente denominado «premonição»: a falsa «previsão» do futuro que não é mais que a lembrança, neste universo, de um evento já ocorrido noutro universo e que irá também ocorrer neste. E falo da verdadeira premonição, não da ilusão de premonição que advém das naturais falhas e vieses cognitivos da mente humana."
-Agora você já está a abusar- disse Mário. - Ou você é mais louco do que eu ou está a fazer pouco de mim.
Alexandre esboçou um sorriso, mas logo ficou sério:
- Não, repare, o que eu lhe estou a tentar dizer é que acredito que cada um de nós tem pelo menos um outro "eu", e talvez uma infinidade de "eus", que existem simultaneamente connosco, mas não aqui. O que acontece, na minha opinião, é que, por razões que ainda não vislumbro, às vezes esse(s) diferente(s) universo(s), ou partes dele(s), como você, ou eu, ou uma cadeira, ou uma árvore, ou um simples átomo, cruza(m)-se com o nosso, da mesma maneira que duas linhas de pesca se emaranham ao cruzarem-se, ou como dois fios de electricidade, que correm paralelos de um poste ao outro, tocam-se quando há vento. E ao fazerem-no podem trocar matéria, energia e informação. As memórias que você viu, e que se calhar irá ver com mais frequência, ou nunca mais, são as memórias do seu outro "eu" de um universo paralelo, com o qual você trocou informação. A "nova" vida que todos dizem ser sua após a queda no mar, talvez não seja mais que a "sua" vida de um universo paralelo. Talvez você não seja deste universo, ou talvez sejamos nós, e quando digo nós refiro-me à totalidade do que existe neste universo, que estejamos a mais; se calhar este universo, ao emaranhar-se com outro, foi esvaziado do seu conteúdo original, excepto você, e preenchido com o conteúdo desse outro universo. E agora você, neste seu universo, paga pelo crime que o seu outro eu cometeu naquele nosso universo. E o seu outro eu deve andar por lá livre como um passarinho. Que bela forma de escapar à justiça, não acha?
"E às vezes, creio que acontece o seguinte: quando dois universos se «cruzam» apenas um deles recebe matéria ou energia do outro. É esta, a meu ver, a origem de alguns doppelgangers. Que podem ser de pessoas, animais, plantas ou coisas inanimadas.
"É natural que se sinta culpado do crime, foi você que o cometeu. Se um pai é capaz de sentir uma filha a ser assassinada e um gémeo a dor de outro gémeo, como não havia você de sentir o que você próprio fez?"
Mário abanou a cabeça como quem está farto de ouvir baboseiras e levantou-se da cadeira.
-A visita acabou - disse ele ao guarda. E foi reconduzido à sua cela.
Devo estar louco, de facto. E se calhar até cometi o crime e não me lembro. Se calhar estão todos certos. Mas aquele tipo também não devia andar à solta, pensou Mário. E talvez estivesse certo também.
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2020.01.13 12:30 AntonioMachado [2012] Oliver James - Como desenvolver a inteligência emocional

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2019.11.08 11:09 altovaliriano Teoria Blackfyre

Link: https://www.reddit.com/asoiaf/comments/156odh/spoilers_all_complete_analysis_of_the_blackfyre/
Autor: Galanix, moderador do asoiaf, em parceria com diversos usuários
Título original: Complete Analysis of the Blackfyre Theory

Nenhuma das informações abaixo é nova. Estou apenas reafirmando as informações coletadas de várias fontes. Se houver algum argumento que eu tenha perdido, eu os adicionarei aqui.

A TEORIA

Aegon (Jovem Griff) não é realmente o bebê de Rhaegar Targaryen e Elia Martell, mas um impostor Blackfyre que Varys e Illyrio Mopatis estão alegando ser um verdadeiro Targaryen. Ele é descendente da linhagem feminina dos Blackfyre (todos os homens foram mortos). Uma variação desta teoria é que Aegon seria filho de Illyrio com sua falecida esposa Serra, que pode ter sido uma Blackfyre. Alguns acham que Varys também pode ter sangue Blackfyre.

ARGUMENTOS A FAVOR

VISÃO DO DRAGÃO DE PANTOMIMEIRO
Uma das visões de Dany na Casa dos Imortais:
“Brilhando como o pôr do sol, uma espada vermelha foi erguida na mão de um rei de olhos azuis que não projetava sombra. Um dragão de pano oscilou em mastros por cima de uma multidão exultante. De uma torre fumegante, um grande animal de pedra levantou voo, exalando fogo de sombras. … Mãe de dragões, matadora de mentiras…”
(ACOK, Daenerys IV)
Dany depois discute a visão com Jorah:
– Um homem morto na proa de um navio, uma rosa azul, um banquete de sangue… O que significam essas coisas, Khaleesi? Falou de um dragão de pantomimeiro. O que é um dragão de pantomimeiro, diga-me?
– Um dragão de pano montado em varas – Dany explicou. – Os pantomimeiros usam-nos em seus espetáculos, para dar aos heróis algo com que lutar.
(ACOK, Daenerys V)
Um "dragão de pantomimeiro" ou dragão falso pode ser uma metáfora para Aegon ser um Blackfyre, e não um dragão verdadeiro (ou seja, um Targaryen). A frase "matadora de mentiras" pode indicar que Aegon é uma das mentiras que Dany pode precisar matar. Outra maneira de interpretar isso é dizer que Varys é o pantomimeiro e Aegon é o dragão de pano que ele está sustentando. Varys é referido como um pantomimeiro em várias ocasiões.
A COMPANHIA DOURADA
Illyrio e Tyrion discutem a quebra do contrato da Companhia Dourada:
– Soube que a Companhia Dourada estava sob contrato de uma das Cidades Livres.
– Myr. – Illyrio sorriu. – Contratos podem ser rompidos.
– Queijo dá mais dinheiro do que eu imaginava – Tyrion disse. – Como conseguiu isso?
O Magíster balançou os dedos gordos.
– Alguns contratos são selados com tinta, outros com sangue. Não direi mais nada.
\Tyrion conta uma história da Companhia Dourada e do passado Blackfyre**
– Admiro seu poder de persuasão – Tyrion falou para Illyrio. – Como você convenceu a Companhia Dourada a aceitar a causa de sua doce rainha, quando eles passaram muito de sua história lutando contra os Targaryen?
Illyrio afastou a objeção como se fosse uma mosca.
– Negro ou vermelho, um dragão ainda é um dragão. Quando Maelys, o Monstruoso, morreu no Passopedra, foi o fim da linhagem masculina da Casa Blackfyre. – O queijeiro sorriu através da barba bifurcada. – E Daenerys dará para eles o que Açoamargo e os Blackfyre nunca puderam dar. Ela vai levá-los para casa.
(ADWD, Tyrion I)
Essa citação é a melhor evidência para a teoria Blackfyre e oferece muitas informações. A Companhia Dourada foi originalmente fundada por Açoamargo (meio-irmão de Daemon Blackfyre e seu aliado mais próximo), e sua missão original era colocar um Blackfyre no trono. Mesmo depois que Daemon foi morto na primeira rebelião Blackfyre, Açoamargo tentou várias vezes sentar um dos herdeiros de Daemon no trono até a morte do último herdeiro masculino.
A Companhia Dourada nunca quebrou um contrato, mas se isso significa cumprir sua missão original, isso faz sentido. Enquanto o contrato quebrado de Myr foi escrito em "tinta", a missão de restaurar um Blackfyre no trono foi escrita em "sangue". Isso também tem respaldo no lema da Companhia Dourada: "Sob o ouro, o aço amargo".
A justificativa de Illyrio para a quebra do contrato Companhia Dourada é que "negro ou vermelho, um dragão ainda é um dragão". Significando que eles não se importam se é um Targaryen ou Blackfyre que eles estão apoiando neste momento, desde que ele os leve a Westeros. No entanto, isso parece contradizer uma lembrança que Dany tem:
Certa vez, seu irmão Viserys oferecera um banquete para os capitães da Companhia Dourada, na esperança de que pudessem apoiar sua causa. Eles comeram sua comida, ouviram seus apelos e riram dele.
(ADWD, Daenerys III)
Parece que eles recusaram Viserys, um dragão vermelho, então talvez ainda se importem. Myles 'Coração Negro' Toyne (ex-capitão da Companhia) é quem fez o contrato com Illyrio em segredo, e dada a briga sangrenta dos Toynes com os Targaryen, não faria sentido para ele fazer esse contrato para apoiar um Targaryen.
ILLYRIO & SERRA
Outro detalhe interessante de Illyrio na citação acima é ele dizendo especificamente que a linha masculina Blackfyre foi extinta. Isso parece indicar que uma linha feminina sobreviveu. Essa fêmea poderia ter sido a falecida esposa de Illyrio, Serra. Aqui está o que ele diz sobre ela:
Illyrio enfiou a mão direita na manga esquerda e tirou um medalhão de prata. Dentro havia uma pintura de uma mulher com grandes olhos azuis e cabelos de pálido ouro mesclado com prata.
– Serra. Encontrei-a em uma casa de travesseiros lisena e a trouxe para casa, para aquecer minha cama, mas no final me casei com ela. Eu, cuja primeira esposa havia sido prima do Príncipe de Pentos. Os portões do palácio se fecharam para mim depois disso, mas não me importei. Era um preço pequeno por Serra.”
[...]
– Boa sorte! – Illyrio gritou atrás deles. – Diga ao garoto que sinto não estar presente no casamento dele. Vejo vocês de novo em Westeros. Juro pelas mãos da minha doce Serra.
(ADWD, Tyrion II)
Sabemos daí que Serra tinha traços valirianos, olhos azuis e cabelos loiros prateados (embora seja notório que muitas pessoas em Lys têm características valirianas, pois fazia parte do Domínio Valiriano). Além disso, os olhos púrpura são uma característica mais Targaryen do que os azuis. Na última linha, vemos que Illyrio tem uma participação muito pessoal no sucesso de Aegon e fala com muito carinho do garoto. É possível que Aegon seja filho de Illyrio e de Serra (Serra sendo uma Blackfyre).
Isso explicaria por que Illyrio tinha em casa um baú cheio de roupas destinadas a um menino pequeno. Também ajudaria a explicar por que Illyrio está interessado em Westeros. Ele tem todo o dinheiro que ele poderia precisar e Tyrion parece cético em relação às motivações de Illyrio:
– E você tem certeza de que Daenerys vai cumprir as promessas do irmão?
– Pode ser que sim, pode ser que não – Illyrio mordeu metade do ovo. – Eu lhe disse, meu pequeno amigo, nem tudo o que um homem faz é por lucro. Acredite se quiser, mas mesmo velhos gordos tolos como eu têm amigos e dívidas de afeto para pagar.
Mentiroso, pensou Tyrion. Algo nesse empreendimento vale mais para você do que moedas ou castelos.
(ADWD, Tyrion II)
Então, o que é essa "dívida de afeto" que Illyrio procura retribuir que vale mais que "moedas" e "castelos"? Ele pode estar tentando cumprir o desejo de Serra de ver seu filho assumir o Trono de Ferro em nome dos Blackfyres. Ainda que tudo isso se encaixe, é bastante circunstancial.
Outra evidência que indica que Illyrio é o pai de Aegon é uma estátua que ele tem em sua mansão que se parece muito com Aegon (Illyrio mais tarde afirma que é uma versão jovem de si mesmo):
Um rapaz nu estava na água, pronto para um duelo, com uma lâmina bravosi na mão. Era flexível e bonito, com não mais do que dezesseis anos e um cabelo loiro liso que lhe caía sobre os ombros. Parecia tão real que levou um longo tempo até que o anão percebesse que era de mármore pintado, embora a espada brilhasse como aço de verdade.
(ADWD, Tyrion I)
A HISTÓRIA DO SEPTÃO MERIBALD
Septão Meribald conta a Brienne e Pod a história da Estalagem da Encruzilhada:
Ele forjou um novo sinal para o pátio, um dragão de três cabeças em ferro negro que pendurou em um poste de madeira. O animal era tão grande que teve de ser feito em uma dúzia de peças, unidas com corda e arame. Quando o vento soprava, tinia e ressoava, de modo que a estalagem se tornou conhecida por todo lado como o Dragão Ressonante.
– O sinal do dragão ainda está lá? – Podrick quis saber também.
– Não – Septão Meribald respondeu. – Quando o filho do ferreiro era já um velho, um filho bastardo do quarto Aegon ergueu-se em rebelião contra seu irmão legítimo e escolheu como símbolo um dragão negro. Estas terras pertenciam então a Lorde Darry, e sua senhoria era ferozmente leal ao rei. Ver o dragão de ferro negro o deixou furioso, e por isso derrubou o poste, fez o sinal em pedaços e os atirou ao rio. Uma das cabeças do dragão foi dar à costa na Ilha Quieta muitos anos mais tarde, embora nessa época estivesse vermelha de ferrugem.
(AFFC, Brienne VII)
Esta história poderia ser uma alegoria para Aegon ser um Blackfyre. Um dragão negro representa Blackfyre e um dragão vermelho é um Targaryen. Então os dragões negros (Blackfyres) foram forçados a atravessar o Mar Estreito e muitos anos depois um deles (Aegon) enferrujou e agora aparenta ser um dragão vermelho (Targaryen).
VARYS É UM BLACKFYRE
Varys ser um Blackfyre é a parte mais especulativa da teoria e não precisa ser verdadeira para as outras partes sejam verdadeiras. A evidência disso é inteiramente circunstancial, mas explica algumas incoerências no caráter de Varys.
Por que, apesar de afirmar ser um lealista Targaryen, ele estava alimentando a paranóia de Aerys sobre Rhaegar usurpar o trono (de acordo com relatos de Barristan e Jaime)? Por que ele raspa a cabeça? Para poder esconder seus cabelos valirianos (embora o mesmo seja verdade se ele for de alguma descendência valiriana, Blackfyre ou não)?
Além disso, por que Varys foi castrado quando menino? Ele diz a Tyrion o seguinte sobre sua castração:
Um dia, em Myr, um certo homem foi ao nosso espetáculo. Quando terminou, fez uma oferta por mim que meu mestre achou tentadora demais para recusar. Fiquei aterrorizado. Temi que o homem pretendesse me usar como ouvira dizer que os homens usavam garotinhos, mas, na verdade, a única parte de mim que ele queria era meu órgão viril. Deu-me uma poção que me deixou incapaz de me movimentar ou de falar, mas nada fez para adormecer meus sentidos. Com uma longa lâmina em forma de gancho cortou-me raiz e caule, sem parar de entoar cânticos. Vi-o queimar meus órgãos masculinos num braseiro. As chamas ficaram azuis, e ouvi uma voz responder ao seu chamado, embora não compreendesse as palavras que foram ditas.
(ACOK, Tyrion X)
Sabemos pelas práticas de Melisandre que os feiticeiros preferem usar sangue real em seus rituais. Se Varys fosse um Blackfyre, ele teria sangue real.
DUNK & EGG
Uma grande parte das novelas Dunk & Egg cobre a história das Rebeliões Blackfyre. Isso pode indicar um significado maior para os Blackfyres em ASoIaF como um todo. É claro que também poderia ser apenas uma justificativa para as novelas de D&E e não ter qualquer outro significado.
AEGON TER SIDO SALVO NÃO FAZ SENTIDO
Como Varys saberia que Gregor esmagaria o rosto do bebê Aegon de modo a deixa-lo irreconhecível? É improvável que isso possa ter sido planejado.
DISCREPÂNCIA DE IDADE
Aegon nasceu em 282 dC, então, quando Tyrion o conhece, ele deveria ter 18 anos. No entanto, aqui está a descrição de Jovem Griff feita por Tyrion:
Era um jovem ágil e benfeito, magro e com um escandaloso cabelo azul-escuro. O anão calculou sua idade entre quinze, dezesseis anos, ou algo próximo a isso. (ADWD, Tyrion III)
É claro que é muito plausível que um jovem de 18 anos possa ser confundido com um de 16, então eu não chamaria isso de uma evidência forte.
RASCUNHO DE "A DANÇA DOS DRAGÕES"
Os rascunhos anteriores dos capítulos de ADWD têm outras pistas. Especula-se que Martin tenha feito muitos cortes nesse material, porque tornou o parentesco de Aegon muito óbvio.
De uma leitura de Tyrion II em 2005:
"Illyrio diz que quer dar a Jovem Griff suas bênçãos e tem um presente para ele no baú. Haldon diz a ele que a liteira não conseguirá chegar a tempo. Illyrio fica bravo e diz que há coisas que Griff deve saber.
[...]
Haldon olha para Tyrion e então começa a falar em outro idioma. Tyrion não sabe dizer o que é, mas acha que deve ser em volantino. Ele capta algumas palavras que se aproximam do Alto Valiriano. As palavras que ele captura são: rainha, dragão e espada."
Especula-se que Illyrio queria dar Fogonegro (Blackfyre) a Jovem Griff, a espada ancestral da Casa Targaryen que foi levada para o outro lado do mar pelos Blackfyres.
De Elio [Garcia], que analisou os rascunhos primitivos do ADWD:
"Um rascunho anterior do capítulo da "lição" tinha um pouco mais de detalhes sobre Maelys o Monstruoso, e os Blackfyres (para aqueles que possuem o RPG da Guardians of the Order, algumas dessas informações acabaram naquele livro). Eu me pergunto por que George decidiu fazer retirar isso deste livro".
[Nota de u/altovaliriano: Eu verifiquei o livro do RPG da Guardians of the Order e as informações são as mesmas que constam em O Mundo de Gelo e Fogo. Como a fala de Elio é de 2011, ele deve ter conhecido a razão mais tarde, enquanto escrevia O Mundo de Gelo e Fogo a seis mãos com Linda e GRRM]

ARGUMENTOS CONTRA

NENHUMA PROVA!
Um grande argumento contra toda essa teoria é que todas as evidências são basicamente circunstanciais. Isso não quer dizer que as evidências circunstanciais sejam inválidas (especialmente em um livro), mas apenas que ainda não houve nada flagrante ainda.
CONVERSA DE VARYS COM KEVAN
Isto é o que Varys diz ao moribundo Kevan Lannister:
– Aegon? – Por um momento, ele não entendeu. Então se lembrou. Um bebê envolto em um manto carmesim, o tecido manchado com o sangue e o cérebro dele. – Morto. Ele está morto.
– Não. – A voz do eunuco pareceu mais profunda. – Ele está aqui. Aegon tem sido moldado para governar desde antes que pudesse andar. Foi treinado em armas, como convém a um cavaleiro, mas esse não foi o fim de sua educação. Ele lê e escreve, fala diversas línguas, estudou história, leis e poesia. Uma septã o instruiu nos mistérios da Fé desde que teve idade suficiente para entendê-los. Viveu com pescadores, trabalhou com as próprias mãos, nadou em rios, remendou redes e aprendeu a lavar as próprias roupas na necessidade. Ele consegue pescar, cozinhar e curar uma ferida, sabe como é sentir fome, ser caçado, sentir medo. Tommen tem sido ensinado que a realeza é o direito dele. Aegon sabe que a realeza é seu dever, que um rei deve colocar seu povo em primeiro lugar, e viver e governar para eles.
(ADWD, Epílogo)
Varys responde diretamente à pergunta de Kevan sobre Aegon estar morto e diz que não está. Por que Varys mentiria sobre Aegon para Kevan, quem ele estava prestes a matar de qualquer maneira?
É improvável que, se Aegon fosse um Blackfyre, Varys não soubesse disso, pois ele provavelmente foi quem contrabandeou o bebê Aegon de Porto Real (ou não), então ele provavelmente sabe se Aegon é realmente Aegon.
Então, por que mentir para um homem moribundo sobre isso? Algumas possíveis respostas seriam:
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2019.09.04 17:03 mgramigna4L O Espaço Entre os Espaços

A história reportada a seguir é baseada em acontecimentos reais. Por ser um experimento confidencial, os nomes e a localidade foram ocultados ou alterados.
______________________________________________________________________
Já passavam das duas da manhã e os cientistas estavam cansados. Dr. Gama e Dr. Omega estavam há exatos 756 dias preparando este teste e há cinco dias sem dormir mais do que vinte minutos. A cápsula temporal os levaria até três minutos e trinta e três segundos no passado, em uma sala de segurança, onde observariam a si mesmos por um tempo até voltarem até sete minutos e cinquenta e seis segundos no futuro.
Os dois haviam idealizado o projeto da máquina do tempo há tantos anos que isso, de alguma forma, nem parecia mais algo surreal. Era, simplesmente, banal o fato de que Gama e Omega estavam prestes a ir contra as leis da física de vez e provar que, de alguma maneira, Einstein estava errado.
Omega era o mais velho dos dois. Não era casado, mas já foi um dia. A esposa pediu o divórcio quando o projeto foi aprovado pelo governo. Ela argumentava, e depois gritava, que ele nunca deu mínima para ela e os filhos de verdade e, por isso, aceitou a clausura que é a instalação onde vive hoje. Ela estava certa. O cientista não fazia ideia de que o filho mais novo havia morrido em um acidente de moto e que a filha mais velha acabara de dar à luz ao seu primeiro neto. Mas é como foi dito, ele não se importava.
Gama foi o aluno mais brilhante que passou pela classe de Omega. Ele era, não tão incrivelmente, mais inteligente que o professor. Órfão de pai e mãe, o rapaz foi criado pelos avós, já falecidos. Nunca namorou, ou mesmo se relacionou com alguém por mais de cinco minutos. Tudo que importava em sua vida era o trabalho e a ambição pelo poder, algo que ele tentava ocultar, miseravelmente, do seu mestre. O jovem PhD raramente teve alguma ligação com o “mundo exterior”. Seu laboratório era o único bem material que importava para ele.
– Nós não temos mais tempo a perder. – Exclamou Omega.
– Acalme-se, professor. Há uma probabilidade de 99,863 % de obtermos sucesso.
– São esses 0,137 que me preocupam, garoto.
Depois de todo esse tempo trabalhando juntos Omega ainda tratava Gama como um inferior. Era a única forma que o velho via para mascarar a inveja que ele sentia do brilhantismo do ex-aluno. Ele sabia que o rapaz era muito melhor do que ele em qualquer aspecto que importava. E, por isso, ele receava pelo o que o prodígio poderia vir a se tornar. Além de também ter certeza que o garoto era um sociopata. Os rumores que ouviu sobre o garoto na época da faculdade só podiam ser verdade. Mas é como foi dito antes, Omega não se importava muito. Ele certamente se arrependerá de não ter dado a devida atenção a isso antes.
Já estavam prestes a começar o procedimento. A cápsula do tempo não era tão pequena. Haviam assentos no interior, arranjados em um círculo, disponíveis para cinco pessoas.
Omega foi o primeiro a entrar pela escotilha superior da cápsula. O velho não conseguia esconder sua ansiedade. Dois anos e vinte e seis dias de trabalho que ele fingia não estar contando. Ele já estava tão estressado que até os pelos da sua barba haviam começado a cair. Omega, um dia, já foi um jovem e ambicioso empreendedor que largou a faculdade para fundar uma startup de tecnologia. Quase faliu a si e aos sogros, foi obrigado a voltar aos estudos e se dedicar à vida acadêmica. As frustrações dos fracassos acumulados ao longo de sua vida tiravam mais seu sono do que qualquer outra coisa.
Já Gama entrou com calma na cápsula. Não estava ofegante como o professor. Aliás, nunca esteve. O jovem que antes nunca havia se interessado por nada, ou ninguém, teve um breve momento de humanidade aparente quando conheceu Linda há exatos 749 dias. Ele a seguia por todos os cantos, sabia seus modos, seus costumes, a anatomia de seu sorriso. Ele esteve com ela nos últimos sete dias antes da clausura voluntária e até parecia estar feliz.
A cabine estava vazia com apenas os dois cientistas ali. Parecia errado, parecia impuro, mas eles estavam preparados. O experimento já ia começar.
Apertaram os cintos, viraram todas as chaves e alavancas necessárias e a única coisa que faltava era pressionar o grande botão vermelho. Gama e Omega se olharam.
– Dr. Omega, eu acho correto que–
– Nem pense nisso, garoto. – Disse Omega interrompendo o rapaz e imediatamente pressionando o grande, e ameaçador, botão vermelho.
E ele pensou que isso seria uma boa ideia. Imediatamente se arrependeu da decisão. Omega nunca havia visto Gama com um olhar raivoso, aquela foi a primeira vez e isso o deixou assustado. Toda ideia da cápsula do tempo, a criação da partícula Fermi e a idealização do projeto em si, tudo partiu de Gama. Omega apenas se aproveitou de seus antigos contatos empresariais, alguns nomes que conhecia no governo e sua inata habilidade de parecer mais inteligente do que realmente é. Nunca o jovem reclamou, Omega até achava que ele era grato por, de certa forma, se apossar da sua ideia. Naquele momento Gama sentiu ódio e Omega pôde perceber.
Tudo corria normalmente, era possível ver o lado de fora através das pequenas janelas. Os raios azuis ricocheteavam pelas paredes de concreto e logo formariam o domo de energia em volta da cápsula. Omega estava eufórico, de felicidade por tudo estar correndo bem e também de temor pelo o que Gama faria assim que retornassem.
Algo começou a mudar…
Um estranho cheiro de amônia infectou pelo ar, os raios do lado de fora que, em todos os testes, sempre foram azuis se tornaram amarelos. Algo estava errado. Dentro da cápsula, uma esfera de energia também amarela se formou bem no centro.
Omega estava preocupado.
Gama estava fascinado.
Nenhum deles sabia a causa da anomalia, e isso poderia significar o fim do projeto, de todo esse tempo de trabalho, e de suas vidas.
O olhar de Gama era algo significativo no momento. Ele estava gostando daquilo. Isso era algo inconcebível para Omega. O discípulo controlador e meticuloso que ele conhecia estaria revoltado pelo experimento não sair como o planejado. Gama olhou dentro da esfera e viu o caos. Omega não sabia naquela hora, mas o Caos olhou de volta para ele.
A esfera começou a se expandir exponencialmente emitindo um alto som, como o de uma larga turbina. Omega, desesperado, gritou palavras aleatórias inaudíveis para Gama. O rapaz se livrou de seu cinto de segurança e se levantou. Enquanto andava em direção à esfera de energia, Omega gritou novamente, mas dessa vez uma palavra monossilábica, ainda inaudível.
Gama foi atingido pela superfície expansiva da esfera e jogado contra a parede da cápsula. Uma forte explosão luminosa cegou Omega por 37 segundos. Retornando aos seus sentidos, olhou para o seu lado direito e viu o parceiro caído, desacordado e com um enorme corte escorrendo sangue na testa. Eles estavam parados no mesmo lugar.
Nada havia mudado.
Ainda atordoado, passando os olhos pela cápsula, em seu lado esquerdo, Omega, por um instante pensou estar delirando, não acreditava em seus próprios olhos. Uma terceira pessoa estava ali. Uma mulher, aparentando ter de trinta a quarenta anos, negra, de cabelos cacheados e castanhos, vestindo uma roupa de segurança extremamente igual à dele, porém com uma letra grega diferente bordada no lado esquerdo do peito.
Alpha.
– Eu sabia que não devíamos ter nos precipitado assim. Merda… – Disse ela.
– Que porra é essa? Quem é diabos é você?! – Ao mesmo tempo, perguntou, exclamou e questionou Omega.
– Como assim, Dr. Omega? Que tipo de pergunta é essa? – Ela demonstra genuína surpresa com a reação do colega.
– Quem é você? Como você surgiu? De onde você veio? – Ele age de forma hesitante. Se não estava tremendo antes, agora ele estava.
– Ok, a anomalia gerada durante o teste deve ter lhe causado algum dano neural. Você está se sentindo nauseado? Teve alguma falha na visão, ou audição? Consegue se levantar? Você por acaso olhou diretamente para a anomalia? – Perguntou ela, tão rápido que não era possível para alguém conseguir assimilar, enquanto se levantava para dar assistência ao colega.
Uma pessoa havia aparecido do nada dentro da cápsula e agia como se o conhecesse há anos. Ela estava visivelmente cansada e estressada, como ele. Omega tentava disfarçar, mas estava exposto na sua expressão a angústia que sentia naquele momento. Gama permanecia desacordado.
– Você não está me reconhecendo mesmo, não é? – Alpha questionou sinceramente, andando em direção à Gama.
Omega apenas respondeu com um olhar.
– Alpha. Dra. Alpha. Física de Cordas. Parceira de laboratório. Estou aqui há dois anos, vinte e seis dias e sete horas.
Ele ainda não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo. O teste final havia dado errado. Seu colega estava desacordado e uma pessoa que nunca viu na vida estava na sua frente, olhando nos seus olhos, e alegando ser uma outra colega de trabalho que sempre esteve ali.
Mas ela estava?
Será que o estresse de Omega estava tão alto nos últimos dias que, simplesmente, deletou da memória a existência de Alpha? Ele não tinha certeza de mais nada, mas uma terceira cientista faria todo sentido, claro. Em um projeto desse tamanho, com essa importância faria sim todo sentido que o próprio governo nomeasse um profissional de confiança deles para participar também.
O que não fazia mais sentido era, por que estavam apenas os cientistas sozinhos em uma instalação daquele tamanho? Sem seguranças, sem profissionais de manutenção, sem serviços, já que o projeto era tão importante assim.
Só Gama poderia confirmar ou contradizer seu pensamento.
Mas ele ainda estava desacordado.
– Vamos tirá-lo daqui. – Disse Omega.
Eles o levaram para a enfermaria. Haviam dezenas de macas extremamente ensanguentadas lá. O sangue estava jorrado até pelas paredes.
– O que aconteceu aqui? – Perguntou Alpha. – Onde está todo mundo?
– Havia– Omega hesitou. Respirou fundo. – Havia alguém aqui? – Perguntou ele tentando soar minimamente são.
– Sim. Bem… Não. Não sei, na verdade. – Disse ela incerta, pela primeira vez.
– Você acabou de me dar todas as respostas possíveis. – Ele disse com um inquietante tom de ironia na voz.
– Estou confusa. Talvez tenha sido o incidente.
– É, talvez. – Omega estava cada vez mais desconfiado. – Vamos colocá-lo em algum lugar e depois checar as imagens do circuito interno de segurança. – Ele disse tentando desviar a atenção dela.
– É uma boa ideia. – Concordou Alpha.
Alpha limpou um dos leitos tirando os lençóis sujos de sangue e substituiu por novos e ainda lacrados na embalagem enquanto Omega ainda carregava o colega desacordado.
Eles tentaram aplicar soro intravenoso em Gama, mas nenhum dos dois cientistas tinha esse tipo de treinamento. Erraram a veia algumas vezes até desistirem. Deixaram algumas garrafas de água mineral em uma bandeja ao lado da cama do rapaz. Limparam a ferida que, estranhamente, já estava fechada. Todo o sangue que estava no corte era apenas o que estava na superfície da pele.
Não será uma boa sensação acordar sozinho em uma enfermaria naquele estado, mas era a única opção naquele momento.
Por alguns instantes, a presença de Alpha não parecia mais algo tão estranho para Omega. Era como um estranho corte de papel em um dos dedos, que você não se lembra mais de onde surgiu e não se incomoda mais por ele estar ali. Se tornou natural.
Ao chegarem na sala de segurança, mais sangue. As coisas continuavam a não fazer mais sentido. Mas a cada minuto que se passava, a estranheza se tornava comum para eles.
Omega era o expert em tecnologia ali. Não que precisasse disso para operar um sistema de segurança primário como aquele, mas mesmo assim tomou a frente na situação. Alpha estava de pé analisando os doze monitores aos mesmo tempo, enquanto o colega procurava pelos arquivos.
– Vamos começar pelas gravações de cinco dias atrás. – Disse ele.
– É um bom começo. – Respondeu.
As imagens mostravam a instalação repleta de funcionários, desde limpeza, seguranças, assistentes, cozinheiros, Gama e Omega, mas nada de Alpha.
Ambos estavam apreensivos. Ela tinha certeza que sempre esteve ali. As filmagens mostravam o contrário, confirmando a hipótese dele. Após alguns minutos analisando as imagens, tentando encontrar algum rastro de Alpha naquela instalação todas as câmeras de segurança falharam por um breve momento e todas as pessoas da instalação desapareceram. Todas. Incluindo Gama e Omega.
E foi quando aconteceu.
Alpha apareceu pela primeira vez nas imagens de segurança. Sozinha dentro do prédio, vivendo e convivendo como se tivesse a companhia de todos.
As imagens falharam novamente.
Ela desapareceu.
Gama e Omega reapareceram.
– Quem é você? – Ele fez a pergunta errada.
– Eu- Antes que Alpha terminasse, Omega a interrompeu.
– NÃO! Eu perguntei: QUEM. É. VOCÊ?
– EU NÃO SEI, OK? – Respondeu ela completamente irritada. – Eu não sei… – Alpha abaixou seu tom, mas sem demonstrar fraqueza. Não tirou os olhos dos monitores por um segundo enquanto falava. – Eu me lembro de tudo. De tudo.
Silêncio.
Omega se levanta lentamente, começa a andar, inquietamente, de um lado para o outro enquanto a suposta colega continua encarando as telas como se fosse encontrar alguma solução naquelas imagens. Ele se afasta quietamente e tenta alcançar a porta.
Alpha não consegue entender. Nada daquilo faz sentido. E ela continuava se fazendo as perguntas erradas. A pergunta certa?
O que aconteceu com as outras pessoas que estavam lá?
Claro.
Ela não se perguntou aquilo no momento. Sua crise existencial, e talvez pela primeira vez essa expressão é usada literalmente, tomava toda sua atenção enquanto Omega, aquele salafrário, a trancava na sala. Ela nem percebeu. Se virou e foi direto ao quadro branco de avisos. Alpha não conseguia encontrar o apagador e começou a escrever por cima de todos os recados.
Omega foge. Como o covarde que é, como sempre fez na vida. Ele tinha que encontrar Gama e juntos eles tinham que dar um jeito nela. Em tudo. Em todos os erros que cometeram. Eles tinham que reativar a máquina do tempo e impedirem a si mesmos de criarem o projeto. Ele planejava mesmo voltar dois anos no passado.
Alpha está tão concentrada calculando que nem se deu conta do que aconteceu. E é quando a ideia a atinge. Quase de forma cartunesca, a epifania, aquela clássica sensação de “eureca” e Alpha conclui que ela e aquelas versões de Gama e Omega são de realidades diferentes.
– Claro! – Exclamou.
Era só uma hipótese, mas ela tentava provar com cálculos que estava certa.
– Ok, faz todo sentido. – Ela disse se afastando do quadro e o olhando a distância. – Ok. OK. OK. – Ela repete indo e voltando em direção ao quadro.
Alpha começa a desenhar duas elipses paralelas e entre elas uma pequena bola preta. Ela explica:
– Ok, essas são nossas duas realidades. Ligeiramente distintas, correto? Aqui é onde estamos. Espremidos entre elas. Presos em algum tipo de limbo. Um espaço entre os espaços. Uma não-realidade. Uma não-existência. Ok? Ok. Mas o que causou isso?
Ela se afasta novamente. Olha e volta e não encontra Omega. Fica confusa por poucos segundos, mas no fim entende. Ele estava assustado. Mas também pudera. Óbvio que ela também estava, mas agora talvez haveria uma solução.
A cientista retorna às imagens do circuito de segurança em um dos monitores. Ela retorna ao momento que as imagens falharam pela primeira vez e analisa frame a frame para ter uma visão minuciosa do que realmente aconteceu.
Ela encontra.
Em apenas um frame.
Uma falha acontece e (quase) todas as pessoas que estavam na instalação desaparecem. Ela se vê novamente interagindo com pessoas que não estavam lá. Ela não admitiria isso, mas isso a abala.
Seu pai sempre dizia que a saúde mental é, talvez a coisa mais importante da vida. Algo extremamente subestimado, mas o homem de vida simples que a criou sozinho sempre zelou para que a filha estivesse bem psicologicamente.
Alpha adianta para o dia do teste. Ela percebe uma similaridade na interferência que ocorreu na imagem ali e no dia da primeira falha. Depois de ver e rever esse trecho, ela encontra na falha um frame sobreposto. Ela se aproxima para ver melhor. Todos os monitores se desligam ao mesmo tempo e religam imediatamente. Aquela única imagem está sendo exibida em todos eles, formando um quebra cabeça. Alpha vê as várias pessoas que estavam na instalação se comportando de maneira muito estranha. As imagens não têm áudio, mas os funcionários andam, correm de um lado para o outro. Alguns ainda aparentando um pouco de consciência prestam assistência e os levam à enfermaria. É quando acontece. Todos os corpos explodem, mas também é como se todos eles fossem apenas bolsas de sangue. Não há sinal de ossos, órgãos, carne, pele. Apenas sangue.
Alpha está chocada. As imagens voltaram ao normal. Ela não se lembra do que viu ali.
– A energia temporal resultante foi tão grande que reverberou dias antes. – Ela se indagou. – É bem possível que as duas realidades tenham executado o experimento ao mesmo temp--PORRA! – Ela mesmo se interrompe quando chega à uma conclusão final.
Coincidência, não?
Gama havia acabado de acordar quando Omega chegou à enfermaria.
– Garoto, você não vai acreditar.
Ele o atualizou sobre a situação. Contando a sua versão da história, no caso. Tentando manipular o garoto. Usando seus artifícios de um quase charlatão. Focando em partes nebulosas e inconsistentes da história. Era nas brechas entre realidade e uma quase ficção que ele trabalhava. Queria convencê-lo, a qualquer custo, de que o que fizeram é errado e que deveriam dar um fim em Alpha. Ela era o paradoxo, ela era causa de tudo. Se ela não tivesse aparecido, tudo teria dado certo.
O comportamento de Gama já deixava Omega desconfiado, mas aquele silêncio se tornava assustador. Não que fosse incomum. O rapaz sempre foi quieto e, como disse antes, nunca teve muitos amigos. Omega operava na suposta sociopatia do rapaz. Os rumores de que Gama era um estuprador, ou até um canibal se espalhavam pela faculdade, na época, como chamas em um campo de centeio. Nada confirmado, mas as pessoas são más e gostam de ferir os outros. Era no suposto ponto fraco do rapaz que Omega tentava cutucar.
Enquanto ainda falava, Omega notou que os olhos de Gama emitiam luz e se tornavam amarelos. Não como um anêmico, mas como uma fonte luminescente radioativa. Um líquido espesso e negro escorria pelos seus orifícios faciais.
Gama abriu a mão magra como uma lâmina afiada e atravessou o peito de Omega.
– Eu sei. – Ele disse. – De tudo.
Sua fala e expressão completamente apáticas carregavam um peso emotivo escondido nas entrelinhas. Ele realmente sabia de tudo. Ou é isso que acreditava.
Alpha viu tudo aquilo pelos monitores do circuito interno de segurança. Foi nesse momento que ela percebeu que estava trancada lá dentro. Ela já sabia a solução para a falha, mas primeiro precisava sair dali. Mas ela estava na sala de segurança.
Infelizmente não haviam muitas armas lá. Isso não era exatamente um problema para ela, já que seu pai a ensinou a atirar quando era criança e sempre incentivou que ela soubesse se defender.
Alpha se armou. Não até os dentes, isso seria ridículo.
Uma escopeta e um revólver. Ela não queria se aproximar de Gama, então a escopeta era apenas para abrir a porta.
Alpha tinha plena convicção de que a única forma de reverter a falha é resetar a máquina do tempo, forçando um reboot daquela não-linha temporal. Gama ainda estando entre ela e o laboratório era um empecilho. Mas agora ela tem um revólver.
Ela anda lentamente para não despertar muita atenção. Não quer fazer muito barulho. Mas, estranhamente, a instalação parece encolhida e não demora muito para encontrar Gama no corredor. Alpha para e dá o primeiro tiro ainda a uma certa distância. Gama desvia desaparecendo e reaparecendo, poucos metros à esquerda, em um piscar de olhos, como um frame perdido, similar às falhas nos vídeos. Ele continua se movendo em direção a ela e vice-versa.
Alpha dá o segundo, terceiro, quarto, quinto tiro. Sem sucesso. Gama a segura pelo pescoço e a ergue facilmente. Sua força é absurda. Ela dá o último tiro à queima roupa na cabeça dele. Dessa vez a bala falha ao tocar a têmpora de Gama como se houvesse uma barreira.
Gama quase sorri. A gosma que sai pelos seus orifícios faciais é incessante e já mancha seus dentes de preto. Ele estende a mão direita. Repetindo o movimento de quando assassinou Omega, quase como um ritual. Curiosamente, naquele momento, Alpha ainda conseguia se perguntar, “Qual o propósito disso tudo?” Se por “isso” ela se referia ao infortúnio específico que passava, ou à vida em si, nós nunca saberemos.
Quando estava próximo a atravessar a barriga dela, ele falhou. Como um frame perdido. Foi a única vez em que esboçou uma expressão real.
Sua mão falhou.
Exatamente da mesma maneira que a bala em sua têmpora. Uma barreira também a protegia. Alpha entendeu e sorriu. Ela socou diretamente, de baixo para cima, o queixo de Gama com extrema força. Ele se desvencilhou e caiu no chão. Aquele murro teve um enorme impacto e fez um barulho inimaginável para apenas um golpe físico. Alpha sabia que não tinha muito tempo. E enquanto isso ele desacreditado gritava.
– NÃO É POSSÍVEL! ELE OLHOU PRA MIM! ELE FALOU COMIGO! EU SOU O AGENTE DO CAOS!
Alpha deu-lhe mais um soco no rosto e o lançou contra a parede. Um chute entre as pernas para terminar o serviço e correu. Ela sabia que só o tinha deixado mais irritado. Mas foi tudo tão divertido.
O que antes parecia ter encolhido, agora corredor parecia interminável, mas era só uma ilusão. Mesmo com a vantagem era possível vê-lo se aproximando.
Ela entrou no laboratório, ainda meio desajeitada e trancou as portas. Os computadores estavam sempre ligados, então ela automaticamente iniciou a sequência de limpeza de dados e preparou o reset.
Gama explodiu as portas expandindo sua barreira de proteção. Ela se tornou um domo eletrificado de luz amarela e ele flutuava lá dentro. Alpha entrou rapidamente na cabine do tempo, pois considerou que era o lugar mais seguro ali. Ledo engano.
A máquina estava quase em potência máxima quando o campo de força e Gama começou a despedaçar as paredes da cabine.
Ela explodia em pedaços e era possível ver Gama, com a face completamente consumida em gosma negra. Alpha apertou o botão.
Uma forte explosão luminosa cegou Alpha. Ainda era possível ouvir o grito de Gama abafado por aquele forte som de uma larga turbina enquanto aquela não-realidade se desfazia junto com ele.
Alpha fechou os olhos, mesmo não fazendo a menor diferença. Não havia nada para se enxergar. O som se dissipou e a cientista começou a recobrar os sentidos. Um cheiro de amônia havia sobrado no ar e um ruído agudo vindo de trás da cabeça a impedia de se recompor completamente.
Ela estava lá.
Sozinha.
De volta à instalação deitada em sua cama. Ela se levantou.
Olhou em volta e voltou à rotina, como se nada tivesse acontecido. Interagindo normalmente com pessoas que não estavam lá.
Alpha sabia que era melhor viver assim.
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2019.08.29 02:17 ederalk 50 motivos de porque a homossexualidade não é pecado

Um dos temas mais atuais e controversos, daqueles que mais instiga de ódio a defesa, na política, na moral, e na religião, que transpõe fronteiras terrenas e temporais: a homoafetividade! É sabido que teologia cristã atual põe a homossexualidade no pedestal mais alto das mais "abomináveis práticas humanas". Respeitosamente, a instigação aqui esmiuçada busca um ceticismo ao fundamentalisto religioso atual e questiona: e se não for pecado? E se nunca foi um pecado? Mais um berrante erro histórico da Igreja? Boa leitura.
50 motivos de porque a homossexualidade não é pecado
  1. Se nascer homossexual é pecado, logo, ele já está condenado ao inferno, pois é impossível deixar de ser homossexual, pois ele o É. Logo, Deus fez acepção de pessoas. Eles nem tiveram a chance de serem salvos. Porém, Deus não faz acepção de pessoas (Atos 10:34)
  2. Se apenas a prática homossexual é pecado, mas não o desejo, logo Deus colocou o desejo nesses homens para os tentarem a pecar o tempo todo, mas afirmar isso é antibiblico, pois Deus não tenta ninguém (Tiago 1:12-20);
  3. Se o desejo não foi posto por Deus, pode ter vindo de Satanás, logo ele tem o poder sobre a libido humana, assim ele tem poder de fazer qualquer hétero virar gay, ou um gay virar hétero, outra coisa impossível. Ele já teria o feito a todos os homens;
  4. Se a homossexualidade é adquirida por comportamento, logo, é aprendida. Mas sabemos que: 1) gays nascem de casais héteros; 2) muitos sociedades desencorajam e perseguem a homossexualidade, mas isso não impede que ela continue existindo nelas; 3) todas sociedades em todas as épocas, das civilizações europeias e asiáticas as tribos indígenas e polinésias foi observado a presença da homossexualidade; 4) animais também, naturalmente, podem ser homossexuais, em mais 1500 espécies relatadas (Ec 3:19); 5) os héteros não afirmam que adquiriram a sua libido por comportamento, porque seria diferente com o homossexual?
  5. De forma direta e literal, não há nenhuma condenação as lésbicas na Bíblia; logo, o desejo lésbico seria natural, da criação humana. Se assim for, o desejo pelo sexo oposto seria inato, tanto em homens como mulheres, chegando a mesma conclusão que Deus estaria tentando apenas aos homens gays entre todas as sexualidades, algo antibiblico; a Bíblia também não explica a complexidade do bissexualismo em todas em suas nuances: um bissexual poderia se casar com uma mulher?
  6. Deus, de fato nunca muda, mas pode mudar o homem: Gênesis 6 nos relata o mundo antes do Dilúvio: havia gigantes na Terra, anjos faziam sexo com as mulheres e os homens viviam centenas e centenas de anos. Adão viveu 930 anos! Homens tinham filhos aos 187 anos nessa época (Gn 5:25)! No versículo 3, Deus, aparentemente, muda o homem para viver no máximo 120 anos, afim de evitar uma superpopulação mundial. (Algumas interpretações dizem que é 120 anos para acontecer o dilúvio). Mas o fato é que desde de Gênesis 11, a expectativa de vida humana se abrevia radicalmente. Ou seja, provavelmente, Deus mudou a anatomia humana: um corpo que vive 930 anos não é igual a um corpo que vive 100 anos; Deus precisaria alterar células, órgãos e tecidos! Por que Deus também não interferiria na libido humana, a fim de evitar um superpovoamento? Será que Jesus desencorajou a poligamia em Mateus 19:4-5, que era tão comum no Antigo Testamento (Gn 4:19) também preocupado com o crescimento da população humana?;
  7. É comum dizer que Jesus esteve em silêncio acerca da homoafetividade, o que não aconteceu: Mateus 19 é um diálogo em que Cristo trata acerca do casamento. Em Mateus 19:11, Jesus afirma que nem todos os homens tem a condição de seguir a ordenança do casamento heterossexual, dada por Deus em Gênesis; o único pré-requisito possível para tal condição seria ter atração por mulheres: se o homem a tiver, case, para não cair em tentação (1 Co 7:1-2; 7:26-27); se não a tiver ou a perder durante a vida, está livre da ordenança do casamento com uma mulher; se tiver, mas se desejar ser celibatário pelo Reino de Deus, é uma escolha pessoal (Mateus 19:12); logo, nascer homossexual é uma condição inata, não algo fruto do pecado ou um desvio comportamental;
  8. Pode-se argumentar contra afirmando que Jesus utilizou a palavra eunuco nesse trecho de forma literal – como se‘’eunucos’’ se referisse apenas aos homens castrados; porém, dois fatos derrubam tal argumento: 1) Jesus fala acerca de três tipos de “eunucos”, revelando que estamos diante de um termo bastante amplo para a época; 2) Jesus usou “eunuco” de forma figurada para se referir aos celibatários no “terceiro eunuco”; se Jesus utilizou uma figura de linguagem num trecho da sentença, pode-se ter utilizado em outra, como no trecho “eunucos de nascença”;
  9. Também há uma contradição em afirmar que alguém nasce ‘’castrado’’, ‘’eunuco’’ de forma literal. Oras, é necessário possuir suas genitálias de antemão para serem removidas e assim, se tornar um castrado; é impossível alguém nascer castrado! Como e por quê se castraria um feto no ventre da mãe? Já ser um “eunuco” posteriormente, ao remover seus testículos, sem a produção de testosterona, o homem perde a libido, o impedido de se casar, encaixando no critério do segundo eunuco;
  10. Pressupondo que os ‘’eunucos de nascença’’ são apenas os deficientes congênitos, e se a Bíblia liberasse qualquer deficiente de nascença com atração por mulher da ordenança do casamento, logo, eles teriam obrigatoriamente a serem castos a vida toda para não cair em tentação, pois, se um deficiente tem atração sexual por mulher, eles também ficariam com várias mulheres ao longo da vida fora de um casamento para sanar sua libido, pois se for com apenas uma mulher, melhor que se case com ela também! Não há lógica. Outra dificuldade seria definir o que é um ‘’deficiente de nascença’’: um anão seria? Ou um hermafrodita? Isso abriria brechas para proibir o casamento de muitas pessoas; cegueira ou infertilidade, por exemplo, impedem homens de se atrair ou de querer se casar com uma mulher?
  11. Se considerarmos apenas os assexuados como os ''eunucos de nascença'', esse texto afirmaria que a libido humana ou a sua ausência é uma condição dada apenas por Deus aos homens desde o seu nascimento. Logo, se for pecado ser gay, ele está o tentando, algo antibiblico;
  12. Se afirmar que apenas a assexualidade é uma condição dada por Deus, logo, a própria libido seria uma escolha, incluindo a libido do heterossexual, algo também impossível; como Adão teria aprendido a se atrair por Eva?
  13. Em Romanos, carta escrita por Paulo, há o trecho mais usado como “antigay” na Bíblia; é importante lembrar que o próprio apóstolo Pedro afirmou que as epístolas de Paulo às vezes tinham ‘’trechos difíceis de entender’’, em que ‘’ indoutos e inconstantes torcem” (2 Pedro 3:16); se eram trechos difíceis de se entender na época para um apóstolo, imagine 2.000 anos depois para nós! Romanos 1:26-27 pode ser um desses trechos a que Pedro se referiu;
  14. Se usarmos Romanos 1:26 para condenar as lésbicas, foi usada uma figura de linguagem para tal, já que não sabemos ao certo, que ''uso natural'' é esse que elas mudaram; isso não é explícito;
  15. Se Paulo se referiu as lésbicas nesse trecho, de forma figurativa, ou seja, fez uso de figuras de linguagem para se referir as mulheres, logo, "semelhantemente", ele também pode ter usado para se referir aos homens; logo, homens nesse trecho necessariamente não precisam se referiam a homossexuais, ficando vago sua definição, sendo necessário avaliar o contexto;
  16. O tema do contexto de Romanos 1:23-28 é a idolatria praticada pelos romanos, em que nos cultos pagãos, é sabido que homens heterossexuais praticavam sexo homogenitais com outros homens nos ritos orgásticos; a idolatria é um dos temas centrais do capítulo e isso fica evidente pelos versículos 23 a 25. O Versículo 26 inicia-se com a expressão “por isso”, ou seja, o que está explícito a partir desse ponto é o resultado das ações humanas descritas nos versos anteriores;
  17. Em Levítico 18:22, outro versículo largamente usado como antigay, diz que homem deitar com homem, como se fosse mulher é uma abominação; a palavra abominação vem do hebraico toevah ou do grego bdelygma, ambos significam "impureza" ou "ofensa ritual", logo, o tema de Levitico 18 também é idolatria, assim como Romanos 1;
  18. Abominação, no antigo testamento, é largamente usado para se referir a práticas de idolatria, como consultas a necromantes, feiticeiros, adivinhadores e prognosticadores (Deuteronômio 18.10-12); o sacrifício de animais defeituosos (Deuteronômio 17.1); adorar imagens (Deuteronômio 7.25); a queima de incensos (Jeremias 44:4-6); a prostituição cultual, sacrifício de crianças e fazer imagens de ouro e prata (Ezequiel 16); deve-se sempre enfatizar que a Bíblia não foi escrita em nosso idioma, e a etimologia das palavras podem mudar ao longo da história;
  19. Levítico fala de sacrifício de crianças a deus Moloque um versículo anterior ao 22 (Lev 18:21), logo, reforça que o tema do capítulo 18 de Levitico é a idolatria e práticas pagãs;
  20. Levítico 18:3 proíbe seguir os ‘’estatutos do Egito e dos cananeus’’, novamente comprovando que o tema central aqui é idolatria; em Ezequiel 18:9 o Senhor diz que quem andar nos ‘’meus estatutos, e guardar os meus juízos, e proceder segundo a verdade, o tal justo certamente viverá’’, distinguindo a palavra estatuto; mais adiante, no verso 12, diz ‘’levantar os seus olhos para os ídolos, e cometer abominação’’, reforçando o significado principal de abominação na Bíblia para coisas idólatras;
  21. A presença na frase da expressão ‘’como uma mulher’’ em Lev. 18:22 pode ser interpretado como homens que abandonam sua condição natural, hétero, para deitar-se com outros homens, pela imposição do culto religioso; gays não se deitam com homens como se fossem mulheres;
  22. Faz sentido nesses versículos se referirem a homens heterossexuais praticando atos homogenitais entre si, pois ao se referirem a rituais pagãos, é certo que havia muitos homens héteros que participavam desses cultos, já que eles eram públicos; assim como as mulheres que sacrificavam seus filhos aos deuses, certamente, ambas práticas eram sacrifícios extremamente vergonhosos e nada agradáveis para agradar aos seus deuses; se a maioria dos homens dessas sociedades pagãs eram gays, como repunham a população sem novos nascituros? É sabido que os egípcios chegava a milhões de súditos (1 a 8 milhões de pessoas);
  23. Se levarmos esse versículo de Levítico literalmente ao pé da letra, logo, apenas ‘’deitar’’ com outro homem é pecado. Beijar, desejar, namorar, se afeiçoar, pegar na mão, ou até o sexo em pé, sem estar deitado, estaria liberado aos gays, sem configurar pecados?;;
  24. Se levarmos no sentido figurado, logo, pode não se tratar de relações homoafetivas tradicionais nesses versos; "homem" pode ser referir a homens héteros unicamente, não aos gays, já que até os dias de hoje é comum confundir sexualidade com gênero, podendo certamente acontecer o mesmo na época; em resumo, gays poderiam não ser considerados homens na época como acontece muito hoje;
  25. Levítico 20 trata acerca das penas de diversos crimes anteriormente ditos nos capítulos anteriores; está escrito no verso 18 que a acaso um homem se deitar com outro homem como com mulher, ''certamente morrerão''. Há uma ambiguidade aqui: é uma consequência do ato ou uma ordem de execução? Se for uma consequência, sabemos que isso não acontece, senão estaria acontecendo um genocídio gay nesse momento; nesse versículo também usa-se a palavra ‘’abominação’’, que como se sabe, significa na Bíblia ‘’impureza ritual’’;
  26. Em Levítico 20, do versículo 2 ao 5 é novamente sobre a sacrifícios de crianças a Moloque, o 6 sobre adivinhadores e encantadores, 8 e 22 fala sobre ‘’estatutos’’, o 23 exorta a não andar nos costumes de nações pagãs e o 27 sobre necromancia ou espírito de adivinhação; ou seja, aqui se confirma as práticas idólatras do capítulo 18;
  27. 1 Coríntios 6:9:20, outra passagem comumente dita ser ''anti-gay'', se usa duas palavras intraduzíveis para nosso tempo: malakoi e arsenokoitai, e ao longo da história, foram traduzidas de muitas maneiras diferentes;
  28. Paulo utilizou essas duas palavras numa mesma lista de pecados, de forma seguida; que sentido teria ele de repetir o mesmo suposto pecado duas vezes seguidas, na mesma lista? As cartas Paulinas não eram escritas de forma coloquial ou informal, mas bastantes formais e escritas várias e várias cópias (Romanos 16:22), revelando se tratar de textos oficiais e bastante difundidas;
  29. Malakoi já foi traduzido como: "depravados", "pervertidos", "efeminados", "efebos", "meninos prostitutos", "masturbadores", "pusilânime", o que já torna a palavra intraduzível de forma fiel atualmente, por se tratar de traduções bastante diferentes, revelando a dificuldade de entender seu real significado;
  30. Efeminado, uma tradução mais comum atualmente para malakoi, no dicionário de línguas portuguesa de Cândido de Figueiredo, de 1913, significa ''ser mulherengo'', algo bem diferente de ser gay;
  31. Efeminado é um termo que atualmente é mais usado para indivíduos com trejeitos femininos; porém, um afeminado não necessariamente é gay; é sabido que existem héteros afeminados, assim como gays másculos; o másculo iriam ser salvo, mas héteros afeminados não? Outra dificuldade é que ser afeminado ou masculino muda constantemente de época para época: homens aristocratas, por exemplo, no século XVIII, para afirmar sua masculinidade, usavam salto alto, maquiagem e perucas;
  32. Arsenokoitai foi uma palavra inventada por Paulo, usando neologismo, e até hoje não se sabe ao certo o que ele queria dizer com arsenokoitai; essa palavra só foi usada duas vezes em toda história da literatura, dificultando ainda mais seu entendimento; a tradução mais comum atualmente é sodomita, palavra extremante alterada em seu significado ao longo da história;
  33. A palavra “sodomita”, por séculos significava perverso; porém, Tomás de Aquino, por volta do século XII, na sua obra Suma teológica, reformulou a palavra “sodomia” para abranger as ‘’imoralidades sexuais’’, que abarcavam uma enorme quantidade práticas, que ia da bestialidade ao sexo anal;
  34. Em nenhum momento, a Bíblia afirma que Sodoma e Gomorra caíram por causa da homossexualidade; ao contrário, o próprio Jesus, em Mateus 10:15, reforça que o principal pecado dos sodomitas foi a falta de hospitalidade; Deus afirmou que destruiria Sodoma somente se não achasse nenhum justo na cidade; apenas 10 justos já seriam suficientes para Deus poupar seus moradores (Genesis 18:32); se o pecado de Sodoma e Gomorra fosse a homossexualidad de seus moradores,, como a cidade poderia existir constantemente se não haviam nascimentos de relações heterossexuais?
  35. Somente algumas versões modernas da Bíblia, covardemente, começaram a traduzir como homossexual passivo e homossexual ativo as palavras”malakoi” e “arsenokotai”; porém, é fato que não existe a palavra homossexual na Bíblia, que não existe nenhuma palavra que seja usada para se referir a gay unicamente na Bíblia, exceto ‘’eunucos de nascença’’, proferida por Jesus;
  36. Jesus nos alertou intensamente acerca dos fariseus, mas também dos escribas, que escrevem e traduzem as Escrituras (Mateus 23);
  37. Jesus nunca poupou as palavras parar denunciar as transgressões do mundo: adultério, prostituição, matar, heresia, roubar, a falta de amor, a blasfêmia, mentir, não perdoar etc. Por que ele nunca condenou veementemente do ‘’pecado abominável e terrível” da homossexualidade?
  38. A Judéia, na época de Jesus, era parte do Império Romano, império em que a prática homossexual era extremamente comum e aceitável; ou seja, existia gays na época convivendo com Jesus; por que Jesus nunca “curou” algum?
  39. Como os 3 versículos ‘’anti-gays’’ da Bíblia, Romanos 1:26-27, Levítico 18:22 e I Coríntios 6:10, são, á luz da hermenêutica, refutados, ou no mínimo, duvidosos, fica claro que toda condição humana que, de nascença, impeça um homem de se atrair por uma mulher, está livre da ordenança do casamento segundo o próprio Cristo Jesus: homossexuais, transsexuais e assexuados.
  40. Paulo, ao falar sobre o casamento em 1 Coríntios 7, sobre a virgindade, as viúvas e os solteiros, ele não faz menção direta aos homossexuais; mas diz no verso 7: ‘’Porquanto gostaria que todos os homens estivessem na mesma condição em que eu vivo, contudo, cada ser humano tem seu próprio dom da parte de Deus; um de determinado modo, outro de forma diferente.’’, podendo ser uma interpretação de Paulo ao que Jesus disse em Mateus 19;
  41. Um termo importantíssimo para se referir a vida sexual humana na Bíblia é porneia, um termo grego traduzido principalmente de 3 formas diferentes na Bíblia: prostituição, fornicação e imoralidade sexual; os 3 termos são muitos diferentes entre si, logo, há confusão nas traduções; muitos argumentam que homossexualidade também entraria como ‘’imoralidade sexual’’, mas não há nada na Biblia dizendo ‘’homem se relacionar com homem é porneia’; e o termo porneia não aparece na carta aos Romanos;
  42. Jesus disse em Mateus 15:19: ‘’Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, porneia, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. Logo, porneia não significaria adultério, senão, Jesus estaria falando a mesma coisa seguida duas vezes na mesma frase! E imoralidade sexual é um termo muito amplo que também abrangeria o adultério, logo, porneia não pode significar tal adultério;
  43. Atualmente, usa-se ‘’fornicação’’ para designar qualquer prática sexual fora do casamento, logo, também abrangeria o adultério; assim, porneia também não pode significar tal termo, considerando a frase de Jesus na época;
  44. Assim, a melhor tradução para porneia seria prostituição, que é a comercialização do sexo; e mesmo usando ‘’fornicação’’ como tradução de porneia, o seu melhor significado também seria a ‘prostituição’: ‘’Fornice’’ era o arco da porta sob a qual as prostitutas romanas se exibiam. Jesus viveu na Judeia na época que fazia parte do Império Romano. E é maior a chance dos evangelhos tenha sido escritos em grego.
  45. Antigas Bíblias referem ao 6º Mandamento como "Não Fornicar", coisa que depois foi alterada pelos reformadores conservadores para "Não Adulterar", que já tem outro significado. Isso reforça a confusão desses termos ao longo da história;
  46. Paulo usa porneia em 1Co 6.18. Mas basta ler o contexto, que se perceberá que ele fala acerca da prostituição especificamente: ‘’Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz (ou prostituta)? Não, por certo. Ou não sabeis que o que se ajunta com a meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque serão, disse, dois numa só carne. (...) Fugi da porneia (...)’’; com essas conclusões, usar porneia como ”imoralidade sexual” pode apresentar como uma expressão ampla e controversa, suscetível a variadas interpretações ao longo do tempo; já utilizar “prostituição” torna o termo conciso;
  47. No Novo Testamento, há várias menções em que as leis do Antigo Testamento foram abolidas, pois Jesus já cumpriu todas elas em nosso lugar. (Hebreus 7:18-19; Atos 15:23-29; Gálatas 5:3; Filipenses 3:7-8); Jesus ao cumprir toda a lei por nós, ela foi passada (Mt 5:17-18). Logo, isso aboliria as leis de Levítico, acaso elas se referissem aos homossexuais; Atos 15 relata que a discussão acerca da validade do Antigo Testamento para os cristões acompanhou a Igreja desde o início: judeus convertidos contendiam-se com os gentios convertidos, dizendo que ‘’os circuncidados não serão salvos’’; a Igreja então fez o primeiro concílio de sua história e decidiu: ‘’Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá. (Atos 15:28,29); logo, as únicas leis dadas pelo espírito santo e os apóstolos a igreja seriam não idolatrar e realizar sacrifícios e não se prostituir;
  48. Há pesquisas historiográficas confiáveis que afirma que a Igreja primitiva realizava casamentos entre homens. Esses estudos são principalmente do importante historiador John Boswell; essa mudança radical da igreja aconteceu bem posteriormente, quando a Igreja Católica Medieval passou a considerar o sexo apenas para procriação, condenando assim também a homoafetividade; padres católicos chegaram a ter a ideia do sexo como sujo e maligno; porém, em nenhum local da Bíblia afirma categoricamente que o sexo é apenas para procriação; Paulo chega a afirmar que os casais não se recusem um ao outro, exceto por consenso mútuo no período de oração ou jejum, para não cairem em tentação (1 Co. 7:5); ou seja, quanto ao sexo, a Bíblia é enfática em condenar apenas o adultério e a prostituição;
  49. Quem afirma que sexo é somente para procriação usa justamente as passagens com a expressão “imoralidade sexual”, que como já foi dita, provém de uma palavra que significa prostituição, unicamente. A Bíblia não explícita o que é imoral no sexo consensual e amoroso; outra dificuldade em afirmar que o sexo é apenas para procriação seria a presença da forte excitação sexual no ato: se é apenas para ter filhos, por que Deus colocaria o prazer no sexo? A presença da clitóris na mulher também evidencia que o sexo não é somente para procriação, já que esse é o único órgão cuja função é unicamente dá prazer a mulher. Sua ausência não impede em nada a reprodução humana. Deus novamente estaria tentando o homem e a mulher a pecarem, ao dar prazer ao ato sexual, e claro, como dito, Deus não tenta o homem!
  50. A Igreja já perseguiu muitos grupos humanos na história usando versículos isolados e fora de contexto: curandeiras, negros, cientistas, ciganos, chegando ao ponto de perseguir e condenar a morte na fogueira até mesmo os canhotos, somente porque está escrito na Bíblia que a mão direita é divina! Nada impede que a interpretação atual acerca da homossexualidade também esteja extremamente equivocada e distorcida.
Por favor, se estiver algum motivo errado, refute-o, dizendo o número do motivo e contra-argumente, usando sempre a PALAVRA DE DEUS e fatos históricos, não a sua opinião ou a opinião do seu líder. Use textos coerentes da Bíblia e nunca fora do seu contexto. Nada de versículos isolados. Use a hermenêutica, a forma correta de ler a Bíblia. Não adianta me atacar, só prova que você não tem argumento suficiente, mas ataque o argumento! Não adianta só dizer que é pecado; prove, usando a BÍBLIA!
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2019.08.24 17:51 nakaevad Boa noite, mulher de branco

São 23h42 de uma sexta-feira, estou estudando no meu escritório improvisado juntamente da minha luminária, minha companheira das madrugadas. Estou cansado, minha visão turva e sinto que ainda faltam muitas páginas a serem lidas no livro de Eletromagnetismo. Todavia, me dou um descanso e levanto meus olhos cansados, que encontram a paisagem através da janela. Eu a abro e sinto um vento entrando no escritório, um vento frio que me refresca e abraça meu corpo sem muita energia. Fechando os olhos, eu me privo da visão para melhor apreciar quando respiro fundo e sinto aquele vento preencher meus pulmões, como se ele quisesse revigorar minhas energias e me confortar em seu abraço. Ao abrir os olhos, minha visão não está mais turva e vejo algo que nunca tinha prestado atenção. Através da janela vejo uma estrada de ouro, brilhante, atraente e perfeita. Ela me atrai como se por instinto, porém me vejo impedido de ir até lá. Estou preso no último andar de uma torre, os livros se tornam guardas me vigiando, a cadeira, antes confortável, agora parece me prender em seu abraço, minha lapiseira e borracha se tornam garfo e faca, enquanto meus cadernos cheios de anotações se tornam pratos cheios de uma comida boa, porém enjoativa. Me sinto preso, isolado e sem muita esperança de escapar. Todavia, minha luminária se torna meu apoio. Ela está lá por mim, me iluminando e evitando que a escuridão cresça de novo dentro do meu ser. Ela me lembra da estrada de ouro que consigo ver na paisagem. Para onde será que ela leva? Talvez para um lugar melhor, onde eu me sinta mais livre...eu não sei...e provavelmente nunca saberei. Eu esfrego os olhos e logo em seguida bocejo com o intuito de jogar o cansaço para fora de mim. É 00h03 e tudo sumiu. Não há mais guardas, talheres, pratos com comida, ou torres que me aprisionam. Eu sinto que o vento parou de soprar e sinto aos poucos meu corpo esquentando. Ao olhar através da janela, não vejo mais a estrada de ouro. No lugar dela há uma estrada iluminada por postes com luzes amarelas. Todavia...o tom de amarelo dessas luzes não é brilhante e muito menos atraente, mas sim um tom doente e triste. A estrada também não é perfeita, vejo buracos nela e excesso de areia, o que poderia ocasionar acidentes. A curiosidade de saber para onde ela iria também se esvaia, porque agora eu sei o destino dela. A estrada de ouro não passa da minha vontade de querer acreditar que tudo vai dar certo, o ponto final dela são os pensamentos que me recuso a aceitar. “Você pode fazer tudo o que quiser”, “o seu sucesso só depende de você”, “você vai achar alguém que te complemente”, “um futuro brilhante te aguarda” e várias e várias outras frases que afirmam coisas sem muito embasamento. A estrada de ouro na verdade é um tobogã que me joga numa piscina cheia de esperanças invalidadas e ilusórias. É 00h41 e tento analisar melhor meu momento de devaneio. Percebo que não era a torre que me prendia, ou os guardas que me obrigavam a comer os pratos sempre lotados de comida. A única pessoa quem realmente estava me prendendo naquela situação era eu mesmo. A estrada de ouro foi um vislumbre para escapar, momentaneamente, do mundo o qual eu sinto viver. Um mundo cheio de decepções, de pessoas falsas e egoístas, de rotinas cansativas e por fim...um mundo que não se importa se estou bem, ou estirado no chão sem poder me mover e fazer qualquer outra coisa para me reerguer. É 00h50, eu fecho os olhos e agradeço os amigos que tenho. Eles podem ter dezenas de defeitos e terem lados podres que nunca vou conseguir enxergar, mas quem sou eu para julgá-los? Eles me ajudam a andar por este mundo e sou grato a eles por isso. Acho que vou me deitar...é melhor eu ir dormir antes que meu ser fique mais opaco e obscuro. Pela janela, um vento entra no escritório e parece me chamar. Ele tenta me seduzir a voar e assim resolver meus problemas. Eu olho com desdém para a janela aberta e acho ridículo ao lembrar que isso já me foi muito tentador...desligo a luminária e clamo sozinho “Boa noite, mulher de branco. Eu vou dormir”. 
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2019.07.02 01:07 QuaseUmTexugo Eu genuinamente não sei como seguir em frente

Boa noite, internet. Venho através desta desabafar. Esse é o objetivo do subreddit, não é mesmo?

Há alguns poucos meses o meu relacionamento acabou - não por escolha minha. Eu namorei essa moça maravilhosa durante muitos anos - quase uma década da minha vida! - e fui muito feliz ao lado dela. Eu posso afirmar que amei profundamente ela e queria dizer que não me arrependo de nada do que eu fiz, mas todo ser humano erra. Faz parte. Foram anos perfeitos? Não. A gente teve brigas e atritos. Mas eu posso dizer que tive do lado de alguém e que o amor que a gente compartilhava era algo muito profundo e sublime. Mas no fim das contas acabou. Não acho que o término tenha sido por nada que eu fiz, apesar de ter tentado me culpar no começo: ela disse que não me amava mais, apesar de gostar muito de mim. Tá tudo bem.

O que mais me dói foram as circunstâncias do término. A gente estava sem se ver há meses pois ela estava fora do país em um intercâmbio, o qual eu burramente apoiei. Eu fui visitá-la no fim do ano e antes de ir eu hesitei - a gente não tava legal. Eu esperava passar semanas com uma pessoa que não me amava mais e ao chegar no aeroporto, dois amigos se recepcionaram. Apesar disso, 24h depois a gente estava ótimo. Vivi quase um mês viajando com ela e eu tenho certeza que o amor partia dos dois.

No entanto, meses depois a gente teve desintendimentos. Ela estava distante e eu também. Não sei se eu poderia ter feito algo a mais. Eu senti que o término ia vir e veio. Eu tentei conversar e utilizar a distância como argumento - a gente passou pelo mesmo em dezembro! - mesmo assim ela não quis conversa. Cansou. Desistiu. Seguiu em frente, me bloqueou onde pode, cortou contato e agora vive a vida dela. Direito dela, é claro. Ela seguiu em frente. A essa altura do campeonato, duvido que ela pense em mim. Eu prefiro assim, pra ser sincero: eu espero muito que ela não tenha sofrido.

Eu no entanto me sinto jogado no lixo. Nunca tive a melhor auto-estima do planeta e perder uma pessoa tão importante despedaçou algo fundamental dentro de mim. Há meses que minha vida resume-se a chorar quando ninguém está vendo e pensar no que poderia ter sido. Recentemente eu venho melhorando: saio com amigos, conheço gente nova, estou desenvolvendo uma cara-de-pau que eu não sabia que tinha... mas ainda me sinto com um buraco dentro do peito que eu tenho a impressão de que nunca vai fechar.

E tá tudo bem. A vida segue em frente. O sol ainda vai brilhar na cabeça de todo mundo amanhã independente de como eu me sinto. Eu sei que por mais que eu queira, o mundo não pode parar para eu sofrer. Eu ainda tenho que trabalhar. Ainda tenho que viver. Ser filho, irmão, amigo, funcionário, membro da sociedade. Eu sei que as pessoas próximo de mim tem os problemas delas e elas não tem tempo nem energia pra me escutar. Eu vou ter que superar isso sozinho, de alguma forma, em algum momento. Mas tá muito díficil. E é por isso que eu vim desabafar. Para chorar um pouco enquanto eu escrevo e sentir que tem alguém para compartilhar a dor que eu sinto na alma, mesmo que ninguém leia.

Ela vai voltar pro país em breve. Eu sei que ela não vai me procurar. Eu sei que ela não vai me ligar, ou me dar um oi. E mesmo que ela fosse fazer isso, do que adianta? Eu não tenho como manter amizade. Mesmo se fosse por um milagre tentar de novo, eu sei que ela só vai me machucar. Tem algo dentro de mim que tá fundamentalmente quebrado. Eu não sei se tem como trocar por um novo.

Eu posso não ser mais o namorado dela. Ela pode ter todos os defeitos que ela tem, e olha que não são poucos. Ela não é perfeita. Ela não é uma beldade extrema ou a única pessoa que pode me fazer feliz, mas ela é ela. E assim como eu gostava dela há quase uma década atrás e comecei a namorar com ela, eu ainda gosto dela. Eu nunca vou ver ela e não ver minha companheira, minha parceira, a pessoa com quem eu dividi incontáveis horas da minha vida, experiências e memórias que eu nunca vou conseguir apagar da cabeça. Eu posso parar de chorar um dia, mas eu nunca vou deixar de sentir por ela um carinho incrível. Eu nunca vou olhar pra ela e ver só uma pessoa aleatória.

Eu não sei como seguir em frente. Eu não sei como eu vou fazer para ter uma boa noite de sono de novo, para me concentrar no trabalho, curtir a vida. Eu não consigo ver outras mulheres de uma forma romântica por mais que eu tente. Eu não consigo deixar de sentir que um pedaço de mim foi embora. Eu quero, eu quero muito. Eu quero um dia acordar e não me sentir mal. Passar um dia todo sem pensar nela. Parar de ter uma semente de esperança dentro de mim e aceitar que o que eu queria pro futuro está morto, enterrado e com atestado de óbito escrito e assinado pelo legista.

Tá muito díficil, meu povo. Se você tem uma pessoa que você ama na vida, por favor cuidem dela. Às vezes a gente fica entediado, chateado e a vida deixa as coisas entrarem na mesmice. Não cometam este erro. Vivam, amem, sejam felizes como vocês puderem. Se coloquem em primeiro lugar e pelo amor da divindade que vocês escolherem amem, mas amem muito.

Tem gente que queria e não consegue mais.
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2019.04.20 04:05 roybatty_2049 Me sinto completamente desconectado da minha família. Não consigo lidar com como tudo mudou desde a chegada do meu padrasto

Olá, Brasil.
Sou lurker aqui do grupo há um tempo e, no meio de tantos desabafos com os quais esbarro aqui, decidi fazer o meu também. É algo que me deixa envergonhado e só dividi com uma ex-namorada que tive (com a atual nunca comentei) mas que me machuca bastante por razões estranhas. Bem, vou começar pelo fato em si: eu me sinto completamente separado da minha família, que eu vejo hoje como completamente irreconhecível e da qual não consigo me sentir parte de forma alguma. A culpa disso é do meu padastro, que não fez absolutamente nada de errado. Na verdade, ele é um cara bem maneiro, segundo a percepção geral. Até minha. E eu tenho total noção de que essa ausência de qualquer sensação de pertencimento é mais minha do que de qualquer outra pessoa.
Vou contar a história de forma cronológica, para vocês compreenderem.
Minha mãe e meu pai me tiveram bem jovens, ambos tinham 20 e poucos anos. Combinada, a situação financeira dos dois não era ruim. Meu pai e minha mãe passaram para concursos públicos de nível médio com salários de classe média quando tinham 19/20 anos. Como conseguiram essa estabilidade financeira jovens, decidiram casar. Meu pai biológico tinha um emprego melhor, minha mãe tinha um com uma remuneração menor como assistente administrativo.
Só que, quando eu tinha 2 anos (ela 23, ele 25), eles se separaram. Não foi uma separação amigável, na verdade foi bem caótica. Meu pai começou a fazer faculdade de Direito e o acordo na casa foi de que, uma vez terminada a faculdade dele, minha mãe faria um curso superior. Os dois fazendo trabalho + faculdade ao mesmo tempo não tinha condição, até porque tinham um filho.
O problema é que o casamento desandou. Meu pai traiu minha mãe, depois não cumpriu esse acordo de deixá-la fazer faculdade e ficava postergando, arrumando desculpas. Com o diploma de Direito, ele eventualmente conseguiu passar em um concurso bem melhor e com um excelente salário. E se divorciou da minha mãe tão logo recebeu a notícia de que tinha passado no concurso.
Houve um acordo para pensão de forma informal, mas meu pai vivia o descumprindo, atrasava. Dava um jeito de humilhar minha mãe sempre que faria o pagamento. Isso fez com que ela desistisse de cobrá-lo e eu tive uma infância bem braba: mãe trabalhando, dinheiro escasso, meu pai completamente sumido e a família da minha mãe é muito pequena, então tinha pouca gente para ajudar na criação. Minha mãe é filha única, minha vó materna tem uma saúde extremamente frágil já há algum tempo e meu avô materno a abandonou. A família do meu pai e meu pai nunca mostraram interesse na gente, era como se a gente fosse um acidente de percurso.
Minha mãe ganhava pouco, mas ao menos tinha a estabilidade de um serviço público. Por isso, conseguimos morar numa casa que fica na entrada de uma comunidade extremamente violenta na cidade onde vivemos, tinha uma boca de fumo braba a literalmente 200 metros da minha casa. Não dava para brincar na rua nem nada, nem tinha play.
Criança é criança, então na escola até que minha vida era tranquila. Mas, em casa, minha vida era muito ruim. Minha mãe tentava equilibrar o trabalho full-time comigo, então a casa vivia sempre bagunçada, a alimentação era ruim e não havia luxo. Era uma casa de um quarto só, então nem privacidade rolava direito e eu dormia na sala ou com a minha mãe no quarto. Tudo na casa era meio velho e eu sempre tinha a sensação de que morava numa casa inacabada.
Não faltava comida, mas o resto era bem escasso. Ganhava muita coisa de segunda mão, não tive videogame ou PC, não tinha muito programa na rua porque a grana era pouca e no bairro onde a gente morava as opções públicas eram muito ruins. Minha mãe tinha depressão. Na época, eu não entendia, mas hoje fica bem claro para mim. Várias vezes eu via ela chorando antes de dormir, ou sem forças para fazer nada o dia todo. E ela engordou bastante nessa época.
Essa merda toda me fez ter um carinho enorme pela minha mãe. Eu fiz questão de aprender a lavar louça, cozinhar, ir no mercado e na escola sozinho. Já com uns 10/11 anos, eu era mais independente do que muitos amigos que eu tenho hoje em dia. E isso fez a gente ficar muito próximo como mãe e filho. Não vou mentir, a nossa vida era bem triste, humilde e solitária. Mas nós tínhamos um vínculo de proximidade muito forte e eu me sentia na responsabilidade de tirar ela desse buraco, de ajudá-la.
Aí vem o plot twist inesperado, meu padrasto.
Meu padrasto conheceu minha mãe na adolescência, eles foram amigos por uns anos e depois do segundo grau acabaram perdendo contato completamente. Eles se esbarraram por acaso resolvendo problema em cartório. Ele quis se aproximar, os dois começaram a trocar mensagens pela internet (sim, na época inda era Orkut e MSN) e engataram um relacionamento.
Preciso aqui inserir um parêntese para que vocês entendam que tipo de pessoa é o meu padrasto. Estou falando de um cara bem inteligente, com quase 1,90 de altura, forte para caralho e rato de academia, só que mais calmo do que um monge tibetano e bem sucedido financeiramente e profissionalmente (não era ricaço nem nada, mas tinha uma vida bem confortável). Quando ele aparecia para pegar a minha mãe na nossa rua, parecia que um ator de TV tinha aparecido, a vizinhança inteira parava para vê-lo. Eu mesmo ficava chocado com a situação de tão estranha que era.
Até porque a mulher por quem ele estava nitidamente apaixonado era a minha mãe. Uma mulher bem acima do peso, deprimida, com um emprego ferrado e que morava na entrada de uma comunidade, mãe solteira. Não estou falando que ela não merecia ele ou coisa do tipo, mas era uma situação muito peculiar.
Eu sempre ficava esperando que ia dar uma merda muito grande. Que a gente ia descobrir que ele é um agiota (e eu sabia o que era um agiota porque um vizinho nosso se meteu com um e não foi bonito), um bicheiro, um golpista, qualquer coisa do tipo. Mas não. O cara era realmente aquilo tudo.
Quando o relacionamento ficou mais sério, foi a vez da pequena família da minha mãe e seu círculo de amigas no trabalho ficarem apaixonadas por ele. Todo mundo queria saber mais sobre ele, todo mundo queria conhecer e bater um papo, todo mundo queria pegar dicas de exercício e alimentação, todo mundo queria ouvir a opinião dele sobre alguma coisa, política, negócios. Era bizarro, eu acho que nunca vi alguém cativar tanta gente com tanta facilidade antes.
Eu gosto de comparar ele ao Gastão da Bela e a Fera, só que um bom Gastão, obviamente. Todos esses anos com a minha mãe, eu não vi praticamente nada que o desabonasse, muito pelo contrário. Ele ate ajudou muito ela. Ela recuperou a auto-estima, começou a praticar exercícios físicos, emagreceu e parecia ter rejuvenecido. Sério, minha mãe com 35 tinha cara de 50. Minha mãe com 39 tinha cara de não ter 30. Chega a ser chocante ver as fotos (e meio chato começar a conviver com amigos que acham sua mãe gostosa, mas isso é outro problema).
Ele até tentou, de maneira bem tranquila e respeitosa, se aproximar de mim. Eu tava no meio da adolescência e até deixei no começo, mas eu continuava achando quela situação muito estranha, continuava vendo aquilo como uma intrusão. Eu gostava dele, mas tudo parecia meio irreal.
Aí veio a merda: eu passei para uma faculdade em outro estado.
Nesse período de pouca conexão com a minha família, a sensação foi de que essa sensação de estranheza só aumentou.
O sonho do meu padrasto era ter filhos. E eles tiveram duas meninas. Se mudaram para um belo apartamento em um bairro de classe média alta da cidade. Minha mãe abandonou o emprego público dela e passou a administrar uma franquia que ele comprou para ela. E muito disso rolou enquanto eu estava fora. Toda vez que eu voltava para casa, parecia que tinha rolado uma revolução.
Adendo importante aqui: talvez chamem isso de frescura racial, mas vamos lá. Meu pai era negro, minha mãe parda ou morena clara, como preferirem. Eu sou negro. Meu padrasto é branco em outro nível de brancura, as duas filhas que ele teve com a minha mãe são bem brancas também. Pode parecer besteira, mas isso aprofunda ainda mais essa sensação estranha de não pertencimento. Eu me sinto o cara negro que caiu de para-quedas na casa de uma família de comercial de margarina.
E às vezes eu tenho a sensação de que o meu passado não existiu. Todo esse período de infância e boa parte da adolescência - de perrengue, de roupas herdadas de terceiros, de ir num mercado fodido sozinho enquanto minha mãe tava no trabalho, de ter a luz cortada algumas vezes, de nunca sair com os amigos da escola, de ter só minha mãe como companhia, de viver num bairro quebrado - parece que não aconteceu. É algo tão distante que parece um sonho mesmo.
No meio disso tudo, eu voltei para a nossa cidade depois de terminar a faculdade já tem um ano e me sinto completamente não-pertencente a minha casa. Eu mal reconheço a minha mãe (que agora administra muito bem essa pequena franquia, virou crossfiteira e tem uma animação de outro mundo), minhas irmãs me viram pouco até agora porque passei a maior parte do tempo em São Paulo, e meu padrasto, apesar de sempre tentar se aproximar, parece essa figura que "causou" tudo isso.
Eu não sou idiota nem mesquinho, eu sei que ele é um cara maneiríssimo, trouxe felicidade para a minha mãe, ajudou ela a se reencontrar e é bem correto. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho sempre a sensação de que ele roubou minha família de mim. Que parte da minha identidade se perdeu quando minha família se tornou algo completamente diferente com o que eu estava acostumado.
Eu me sinto extremamente frustrado de não ver minha família como família, e sim uma mãe que mal reconheço, um padrasto do qual não sou próximo e duas meninas que parecem viver uma vida completamente diferente da que eu vivi e que possivelmente vão passar pouquíssimos perrengues na vida.
O tempo todo, eu só penso em meter o pé de casa, mas sei que isso não vai resolver tudo. Mas eu queria muito ver a minha família como um ninho, como conforto, como um lugar onde você vai quando tá com problema ou para desabafar. Mas hoje eu me sinto completamente desconectado deles, o que me deixa puto, triste, vazio e frustrado.
E o pior de tudo: eu sei que eu estou errado. Mas eu sinto que roubaram a família que eu tinha. E nem preciso dizer que o almoço de hoje em família só aprofundou mais isso.
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2018.06.21 16:48 DivinaNunato 67 perguntas para conhecer melhor a si mesmo

1) O que você faria se pudesse viver para sempre?
2) Qual seria sua primeira escolha se fosse presidente?
3) 4 coisas que você levaria para uma ilha deserta?
4) Qual crime cometeria se não fosse preso?
5) Qual livro ou filme teve grande influencia em sua vida?
6) Quando criança o que queria ser quando fosse adulto?
7) Para que você daria sua vida?
8) Se você pudesse ser um personagem de ficção, qual seria?
9) Se pudesse viajar no tempo, o que faria diferente na sua vida?
10) O que faria se ganhasse na loteria?
11) O você quer deixar de legado?
12) Se pudesse mudar algo no passado em âmbito geral, o que seria?
13) Você mudaria sua história se pudesse?
14) Qual superpoder gostaria de ter?
15) Quem foi seu herói quando criança?
16) O que te motiva a despertar pelas manhãs?
17) Se pudesse mandar uma mensagem à aliens, o que perguntaria?
18) O que faria em um apocalipse zumbi?
19) Qual instrumento musical gostaria de tocar?
20) Se pudesse viver em qualquer lugar, onde seria?
21) Qual seu filme de comédia preferido?
22) Aceitaria uma passagem só de ida à Marte?
23) Se pudesse, escolheria outra profissão?
24) O que te motivou trabalhar com o que trabalha?
25) O que é mais importante: explorar o mundo ou a si mesmo?
26) Qual lei você mudaria se pudesse?
27) Qual seria a sua última comida como presidiário?
28) Exploraria o espaço ou o oceano?
29) Qual é a primeira coisa que mudaria sobre si mesmo?
30) Quem foi seu professor favorito e por quê?
31) Se pudesse reviver um músico quem seria?
32) O que você prefere: cidade, campo, montanha ou praia?
33) Qual sua lembrança da infância mais presente?
34) Qual seu maior sonho?
35) O que faz você feliz de verdade?
36) Qual foi o seu pior fracasso? O que aprendeu com isso?
37) Qual sua música preferida e por quê?
38) Gostaria de fazer a tecnologia desaparecer e por quê?
39) Qual o seu maior feito e como conseguiu isso?
40) Se fosse diretor de cinema, que tipo de filme faria?
41) Qual a história mais louca que você já ouviu?
42) O que é preciso para ser mulhehomem?
43) Uma única coisa no mundo que mudaria se pudesse?
44) Se tivesse poder telepático quem mensagem mandaria e para quem?
45) Se pudesse inventar algo, o que seria?
46) Qual item da sua casa você salvaria em um incêndio?
47) O que você faria se soubesse que o mundo acabaria em uma semana?
48) Quais lições importantes gostaria de passar aos seus filhos?
49) O que você nunca faria mesmo valendo 1 milhão de dólares?
50) Pelo o que você é grato?
51) O que mudou sua maneira de pensar para sempre?
52) O que você pode fazer que ninguém mais pode?
53) Qual foi o melhor show da sua vida?
54) Qual é o seu idioma favorito?
55) Onde você estará em 5 e 10 anos?
56) Qual foi a coisa mais gratificante que você já fez?
57) O que significa um lar para você?
58) Qual realização você mais se orgulha?
59) Qual foi o momento mais decisivo na sua vida?
60) Qual memória apagaria se pudesse?
61) Como você conseguiu sua cicatriz mais estranha?
62) Qual sua filosofia de vida?
63) Gostaria de conquistar novas terras?
64) O que você aprendeu muito tarde?
65) Como seus amigos te descrevem?
66) Como você mata o tempo?
67) Qual foi a melhor coisa que você já fez para outra pessoa?
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2018.05.05 07:59 koyaanisqatsi_guy Me apaixonei por uma colega de trabalho... e mudou minha vida.

O título já diz tudo. Vou contar brevemente essa experiência, pois é algo que eu vou precisar de muita força de vontade para superar.
Isso aconteceu um ano atrás...
Eu trabalho no mercado de comunicação, a rotatividade de pessoas entre empresas é muito grande, em um ano que consegui diversas entrevistas acabei passando por 3 empresas grandes, e na última delas eu conheci essa garota.
Foi por indicação de um amigo que eu fiz entrevista nesse lugar. E ele trabalhava com ela, não diretamente, mas no mesmo setor. Eu demorei um tempo pra notar que ela era diferente, a primeira vista foi só mais uma garota de 28 anos, linda e meio nerd. Porém, eu estava em uma fase de focar apenas no trabalho, pois sempre tive muita dificuldade com o lado social. Desde que me mudei para essa cidade decidi me envolver com qualquer garota que fosse fisicamente atraente, devido as frustrações de amar alguém profundamente, acabei me forçando a ser superficial. Isso foi me afetando aos poucos, até chegar em um ponto que eu simplesmente não via mais razão para isso, foi quando eu me afastei socialmente de tudo e comecei a trabalhar demais, o meu desempenho profissional aumentou, então decidi procurar lugar melhor, melhor salário, que no caso, foi a indicação do meu amigo.
Alguns anos atrás eu estava em uma faze em que projetava sinais e razões em tudo. Algo como me convencer a fazer algo por que música x que lembra pessoa y está tocando no momento em que eu estou no lugar z, então eu devo seguir meu "instinto" de investir naquela pessoa, mesmo se não tiver nenhuma chance.
Voltamos para o mês em que eu entrei na empresa nova, dezembro/16. Em janeiro eu estava almoçando com ela e com o grupo do setor dela, que incluía meu amigo, praticamente todos os dias. No terceiro dia meu amigo confirmou o que já se passava pela minha cabeça.
No almoço acontecia do grupo todo ter um assunto, mas eu e ela outro, não importa aonde estávamos sentados,longe, perto, a conversa era muito interessante pra ficar quieto.
Isso me deixou em completo estado de choque. Ela era simplesmente muito parecida comigo, eu ficava bugado, não sabia o que fazer.
Devido ao stress do trabalho, minha ansiedade tinha aumentado e como medida eu comecei a fazer terapia alguns anos atrás, meu terapeuta foi enfático em me dizer que eu deveria me permitir a amar e a me arriscar. Eu abracei a ideia.
Como um cara timído, nerd, com alto-estima baixa conquista uma garota? Eu não tenho a mínima ideia. Na minha humilde opinião e experiência própria isso é extremamente difícil. Mas não impossível.
Durante o processo da 'conquista' eu estava em um estado de negação a vida, pois eu achava ela atraente e interessante demais para minha pessoa. Passava horas questionando o por que do universo colocar essa pessoa em minha vida, pensando em todas coincidências que aconteceram para eu conhecer ela e de fato me interessar, era algo surreal. Mesmo gosto por música, filmes, nosso assunto preferido era realidade simulada, sério!
Eu decidi que iria ser sincero, deixar claro meu interesse e ver no que dava. Enquanto isso meu amigo e meus novos amigos da empresa comentavam que ela realmente dava sinais de interesse. Nesse ponto eu já estava imaginando coisas. Mas foi frustrante. Ela tinha acabado de sair de um namoro de 7 anos, engatado em uma relação breve de 3 anos e alguns meses antes ela tinha se envolvido com uma pessoa da empresa. Quando eu descobri isso, abri mão. Entrei em um estado de pré-depressão. Eu uso muito metro, ficava parado, esperando o vagão passar pensando em como seria mais facil me jogar ali do que esperar eu conseguir o amor dela.
Isso foi me dominando, essa vontade de querer fazer ela feliz e ver ela ao meu lado me implodia de angustia por não conseguir ver isso se concretizando. Há essa altura eu já sábia que ela não tava fazendo nem um pouco bem para mim, mas eu não estava pensando nisso, estava pensando em fazer ela feliz.
A primeira tentativa foi demonstrar interesse, coisa que fiz até demais. Chamava ela pra sair pro bar toda quinta e sexta feira, não conseguia me conter em ficar feliz com um sorriso de orelha a orelha quando ela aceitava. Era algo maior que o meu auto controle e que a minha força de vontade. Em janeiro foi o mês de colocar as cartas na mesa, eu deixei claro que me interessava por ela e queria sair apenas com ela, então, ela finalmente colocou um ponto final em tudo. Me disse que não queria se envolver com pessoas do trabalho, então contou os relacionamentos dela. Ai tudo fez sentido, finalmente, o medo de falhar que eu tinha, se tornou realidade.
É engraçado, pois foi muito aliviante. Eu finalmente tinha o não dela e com isso podia me conformar com mais um não da vida, me lembrar o por que eu focava no trabalho o por que disso. A frustração me fazia esquecer tudo e me deixava muito produtivo. Eu sempre usei tristeza, raiva e sofrimento ao meu favor.
Começou fevereiro
Nos dias seguintes, o mais absurdo acontece: ela me chama para ir na casa dela. Após o fora, eu imaginava que iria existir um silêncio e que o nosso começo de amizade iria morrer rápido, mas foi o oposto. Amizade era o objetivo dela, talvez uma amizade colorida. Mas definitivamente nada sério. Eu aceitei o convite de ir para casa dela, mas com uma consciência de que eu era apenas amigo. Conhecendo amigos que forçam beijo na balada e fazem esse tipo de coisa escrota, eu nunca iria tentar beijar ela após o fora. Ia ser muito constrangedor se ela não gostasse e isso era o fim do mundo em loop para mim.
Ela deu diversos sinais, mas ao mesmo tempo me contou como sempre teve mais amigos homens do que mulheres, eu achei que tinha lido a situação de uma maneira correta. Nesse dia eu fui o mais tapado possível, fui um amigo mesmo, não tentei nada. Depois disso, quarta feira, na sexta ela estava no bar comigo e com o pessoal do trabalho e convidou para irmos até a casa dela. Eu falei para o meu amigo que tinha interesse nela (não era o amigo do trabalho). Isso foi surreal. Um amigo de um outro ciclo de amigos tinha conhecido ela naquele dia, e ela convidou nós dois para irmos até lá. Eu não entendi nada. Fui sincero com ele, falei que estava muito interessado e que gostaria de tentar algo naquele dia. Ele foi super gente boa e foi embora uma meia hora depois.
Era isso, eu estava sozinho com ela no apartamento dela. Mas na verdade eu estava aprisionado dentro da minha cabeça não me permitindo tentar nada. Então eu não tentei. Nem cheguei perto. Falei tanto que a coitada caiu de sono. Nesse dia eu estava conformado que tinha zerado quaisquer ruídos e chances de relacionamento amoroso com ela.
Eu descobri que ela estava com receio de ficar comigo pelo nível de atenção e interesse que eu demonstrava por ela. Ela estava corretíssima, nós estávamos em sintonias diferentes ainda sim nosso radinho de pilha captava a frequência do outro sem querer. O fatídico dia foi durante um happy hour da empresa, no próprio local onde nós trabalhávamos. O fato de pensar em ver ela me dava ansiedade, então comecei a evitar. Não queria ir até o happy hour por nada, então fiquei na minha mesa trabalhando, naturalmente, quando todos já estavam se alcoolizando e socializando. Eu estaria bem ali a noite inteira, talvez angustiado mas transformando tudo em produtividade, é o que eu sei fazer afinal. Mas meu amigo tramou um plano, chamou a melhor amiga dela no trabalho e quando eu percebi estava sozinho com ela. A reação dela quando eu me aproximei? Foi virar para o outro lado.
Imediatamente voltei para minha mesa, coloquei meu fone e voltei a trabalhar como se nada houvesse acontecido. Ela me liga 3 vezes e comeca a mandar mensagens, pedindo para eu responder, perguntando se eu estava bravo. Eu falei a verdade, que não deveria mais ver ou falar com ela pois estava me atrapalhando e me fazendo mal. Era a hora perfeita para tudo acabar e eu voltar para a minha vida medíocre.
Ela então, as 2 horas da manhã me chama para ir no apartamento dela. Nunca, nem em 100 vidas eu diria não. Eu fui, sentindo que tinha atingido um objetivo superficial, quando na verdade, no meu interior, eu me preocupava com as consequências. Eu não queria encontrar ela bêbada, queria que fosse algo verdadeiro mesmo que fosse uma simples conversa.
Eis que eu fiz a maior besteira da minha vida. Eu preferi ela do que eu mesmo. Eu escolhi por fazer alguém feliz e me fazer infeliz, sem pensar ou medir as consequências. Então eu convenci ela, e a mim mesmo que eu tinha entendido a situação e que nós poderíamos ficar aquele dia e sermos amigos. Acabamos dormindo juntos, foi de fato um dos melhores dias da minha vida, não apenas pelo sexo, mas pela satisfação em fazer alguém que você ama feliz. Comecei a me alimentar daquela sensação. A relação foi cada vez mais tomando uma forma e quando eu percebi, estava ali, moldado, desenhado e exposto: Eu estava vivendo para ela.
Ela me ligava de noite, pedia para eu ir até a casa dela, eu pegava o táxi e ia na hora, não importa o dinheiro, distância, sono, nada, o que importa é fazer essa garota feliz. O problema é que durante o dia, eu sabia que ela não queria nada, então no trabalho eramos apenas colegas na perspectiva dos outros. Eu fui ficando cada vez mais interessado, fui me cedendo cada vez mais, ao chegar no ponto em que eu via que apenas ela definia quando iriamos nos ver. Eu não conseguia chamar ela pra sair e receber um sim, tinha que ser algo quando ela queria. Nessa altura do campeonato eu já estava muito perdido, a consequência da solidão batia na porta mas eu simplesmente ignorava e achava que era uma viagem minha, que tudo iria dar certo e eu iria conquistar ela.
Isso foi criando um vazio dentro de mim, pois eu sabia que ela não tinha terminado o último relacionamento dela de forma amigável, isso começou a afetar ela e consequentemente a mim, que ficava imaginando o que teria acontecido, pois ambos estavam quase morando juntos.
Então, março
O fim veio rápido como o final do feriado de carnaval. Passamos todos os dias juntos transando, conversando, mas aquela bola de neve gigante estava vindo e nós dois sabíamos, o problema é que eu tinha convencido ela que não tinha bola de neve e tava tudo bem. Um dia, ela me chamou para ir na casa dela jantar. Era meio que um big deal, pois nunca havia existido um convite antecipado como esse. Ela tinha arrumado a varanda com luzes e uma mesinha, foi simplesmente uma das coisas mais legais e agradáveis que eu já vivenciei com alguém. Infelizmente a bola de neve engoliu tudo esse dia. Claramente incomodada com a situação, com o que nós estávamos fazendo, ela ficou em um mood estranho e distante de mim. Era a primeira vez que ela fazia aquilo. Eu não entendi e tentei contornar, em um certo ponto eu soube que aquele era o último dia.
Depois disso ela se distanciou de mim, parou de falar comigo frequentemente. Eu achei que era algum tipo de mind game feminino, para eu correr atrás ou algo do tipo. Eu corri atrás e dei de cara em uma parede quilométrica. Não existia mais aquela ponte entre a gente, não existia mais nada a não ser uma tensão de quando vai ser a proxima vez que ela vai me chamar. Os pensamentos suicidas voltaram, eu já não conseguia trabalhar no mesmo local com medo de olhar no olho dela e saborear aquela sensação de que ela não me quer na vida dela, além dos meus pensamentos auto depreciativos de que eu era um bosta e que eu tinha me colocado em uma situação de merda.
A minha ansiedade piorou, tive que me ausentar um mês do trabalho por causa de crises constantes de ansiedade, comecei tratamento psiquiátrico junto com a terapia para segurar a ansiedade, não conseguia sair de casa, não conseguia fazer nada a não ser pensar nesse fracasso. Engordei 17 kg em um período de 9 meses. Eu fazia academia para emagrecer para ela me notar. Tenho 1,78 e estava com 80kg, depois disso, cheguei aos 98kg.
What a ride.
Depis de maio-abril de 2017 eu expliquei para ela que seria melhor se eu me afastasse para sempre. Bloqueei ela em todas minhas redes sociais, toda vez que via ela saia imediatamente do campo de visão dela, pois me dava crise de ansiedade. Evitava todos lugares achando que ela estaria ali. Não existia mais tranquilidade, ela aparecia nos meus sonhos, pesadelos. Eu realmente me perdi. Nunca mais vou conseguir falar com ela, perdi a chance de fazer essa garota incrível feliz. Obviamente a culpa de tudo isso é minha. Não tive maturidade para lidar e deu no que deu.
Atualmente eu lido com isso de uma maneira objetiva, que é: aprendizado. A vontade de morrer sempre vai existir, afinal, eu ainda amo essa garota. Nunca vou superar totalmente essa experiência devido a maneira que aconteceu. Eu me isolei socialmente por quase 12 meses, cheguei a excluir diversos amigos de longa data apenas por que eles namoravam. Apaguei familia de todas redes sociais, tudo me fazia lembrar de como eu era um miserável solitário que tinha falhado na única chance de conquistar a mulher da minha vida.
A única razão que eu estou escrevendo tudo isso, é por que eu preciso tirar isso de dentro de mim. Se eu realmente quero viver e tenho amor a mim mesmo, eu tenho que seguir em frente e ser resistente. Isso foi apenas um aprendizado, dos mais difíceis de toda minha vida. Eu questionava diariamente o por que de tudo isso ter acontecido. Eu nunca mais vou ser o mesmo, essa lição me mostrou muita coisa, uma delas é que eu tenho uma batalha constante com o meu eu interior. Nosso auto controle define quem somos, se você não em auto controle, possivelmente você vai se colocar em situações que podem mudar você e sua vida para sempre, eu espero que de maneira positiva.
Eu ainda tenho muito tempo pela frente para transformar o saldo dessa história em positivo. Mas o que eu queria mesmo era estar com ela.
Saudades de você, n.
TLDR;
Me iludi com uma colega de trabalho que era muito parecida comigo, fingi que estava preparado para uma relação superficial mas me apaixonei e acabei me perdendo dentro de mim mesmo. Entrei em depressão e me isolei socialmente por quase um ano, suicídio era mais aliviante do que pensar em um futuro positivo. A existência era dolorosa e pesada. Hoje eu sei que isso foi um aprendizado, daqueles fudidos que não é para a gente esquecer. Vou levar isso pro resto da vida, espero que com o tempo transforme o resultado em algo positivo.
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2017.11.29 20:20 tombombadil_uk Today I fucked up: a estranha sensação de reencontrar um amor do passado 12 anos depois / Parte 3

Galera, finalmente postando a última parte da saga. Depois de pensar para caralho, resolvi falar com ela pelo Facebook e marcamos de nos encontrar num café pertinho da praça onde nos esbarramos. Para quem não conhece a história desde o começo:
Parte 1 - TL/DR: sou casado, reencontrei uma garota por quem eu era apaixonado há 12 anos e só nesse reencontro eu percebi como eu fui um imbecil com ela. Em resumo, nós éramos grandes amigos, eu fiquei com medo de me declarar, meti o pé do curso de inglês que fazíamos sem dar nenhuma explicação e desapareci completamente da vida dela.
Parte 2 - TL/DR: comecei a me perguntar se aquela garota que eu reencontrei realmente era ela, já que ela parecia tão mais velha. Depois de dezenas de tentativas, achei ela no Facebook e sim, realmente era ela. Descobri que um amigo meu já tinha saído com uma prima dela há muito tempo e soube que ela teve uma vida bem escrota, foi abandonada por um marido meio babaca e agora basicamente vivia só pelo filho na casa dos pais.
Parte 3 - Taí. Nos reencontramos. Foi uma experiência que eu não sei classificar. Foi feliz, foi triste. Foi amargo, foi doce. Foi impressionante. A gente chorou um pouco junto. Escrevi um pouco ontem à noite e terminei hoje de manhã.
Só queria agradecer a todos os conselhos e dicas que recebi aqui. Reencontrar alguém do passado é uma coisa que mexe muito com a gente, faz com que nosso coração se sinta naquela época novamente. Essas quase três semanas foram muito estranhas. Foi quase uma viagem no tempo por coisas que eu achava já ter esquecido completamente. Infelizmente não posso dividir muito disso com amigos próximos, então fica aqui o desabafo.
Esse último ficou mais longo do que eu esperava. Honestamente, a gente conversou tanto que acho que resumi até demais. Como da primeira vez, fiz em formato de conto. Novamente, obrigado a todo mundo que deu um help nessa história, que finalmente se fechou.
Era um café bonito. Novo da região, era um daqueles negócios em que você vê o coração de um sonho do dono. As mesas rústicas de madeira, as lâmpadas suspensas que desciam do teto em fios de prata, como teias de aranha tecidas por vagalumes. O quadro negro cuidadosamente preenchido com os preços e até desenhos estilizados de alguns pratos. No fundo, um jazz instrumental marcava presença de forma tênue. Também era um daqueles negócios que você sabe que não vai durar muito. Que você bate o olho e pensa: “com essa crise, é melhor eu dar um pulo lá antes que feche”.
Eu presto atenção a cada detalhe ao meu redor. À roupa preta das atendentes, ao supermercado do outro lado da rua que vejo pela vitrine. Aos clientes que entram e saem de uma loja das Casas Pedro. Eu não quero esquecer de absolutamente nada. Era um ritual meu que fiz pela primeira vez aos 14 anos. Sempre tive boa memória, mas naquela época eu me esforcei para colocá-la inteiramente em ação. Era um verão e eu estava prestes a reencontrar uma prima que, anos atrás, fora minha primeira paixão. Ela nos visitava de anos em anos e, três anos após trocarmos beijos juvenis debaixo do cobertor, ela havia acabado de chegar à casa dos meus avós, onde se hospedaria.
Naquela noite, eu não consegui dormir. Por volta das 4h da manhã, peguei meu cachorro e caminhei 15 minutos em meio à madrugada até a casa da minha avó. Não, não fui fazer nenhuma surpresa matinal ou pular a janela em segredo. Eu apenas fiquei do outro lado da rua e observei tudo ao meu redor. “Eu vou lembrar desse reencontro para o resto da minha vida”, pensei, do alto dos meus 14 anos. “Eu quero lembrar de cada detalhe”.
E até hoje eu lembro. Da rua cujo chão estava sendo asfaltado, mas onde metade da pista ainda exibia os bons e velhos paralelepípedos. Das plantas da minha avó balançando ao vento, o som singelo dos sinos que ela mantinha na varanda e davam àquilo tudo um clima quase de sonho. Do meu cachorro, fiel companheiro que viria a morrer dois anos depois, sentado ao meu lado com metade da língua para fora. Do frescor da madrugada que precedia o calor inclemente das manhãs do verão carioca.
Mas não é dessa memória - e nem dessa paixão - que eu falo no momento. Eu falo dela. Dela, que eu reencontrei depois de tanto tempo. Que eu julgava já ter esquecido. Que, apenas mais de dez anos depois, eu percebi que tinha sido um babaca ao desaparecer sem qualquer despedida. Mesmo que ela jamais tivesse segundas intenções comigo, mesmo que fosse apenas uma boa amiga, eu havia errado. E aquela era o dia de colocar aquilo, e talvez mais, a limpo.
Foram três semanas de tortura comigo mesmo. Desde que achara seu perfil no Facebook e ouvira de um amigo em comum notícias de uma vida triste, seu rosto não me saía da cabeça. Ao menos uma vez por dia, eu pagava uma visita ao seu perfil e mirava aqueles olhos. As fotos, quase todas ao lado da mãe e do filho pequeno, tinham um sorriso fugaz encimado por olhos dúbios, tristes. Eles lembravam-me de mim mesmo. “Você tem um olhar de filhote de cachorro triste, por isso consegue tudo que quer”. “Você parece feliz, mas sempre que para de falar por um tempo, parece ter uns olhos tão tristes”. “Essa cara de pobre-coitado-menino-sofredor é foda de resistir, dá vontade de levar para casa e dar um banho”. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes ouvira aquilo das minhas ex-namoradas e ficantes da faculdade. Os dela não eram muito diferentes. Quando ela finalmente apareceu, com sete minutos de atraso, eu pude perceber.
Meu coração parou por uma fração de segundo e depois disparou, como se os sineiros de todas as catedrais que haviam dentro de mim tivessem enlouquecido. Era engraçado como algumas pessoas passavam vidas inteiras sem mudar o jeito de se vestir. Ela ainda parecia com aqueles sábados em que nós nos encontrávamos no curso de inglês: os tênis All-Star, a calça jeans clara, uma camiseta simples - de alcinha, branca e com corações negros estampados - e o cabelo com rigorosamente o mesmo corte. “Talvez por isso que foi tão fácil reconhecê-la, mesmo depois de todo esse tempo”, pensei. Ou talvez eu reconhecesse aquele rosto e aqueles olhos - antes tão vivos e alegres - em qualquer lugar. Eu jamais saberia.
Como qualquer par de amigos que não se vê há milênios, falamos de amenidades no começo. Casei, separei. Sou funcionária pública, ela dizia. O relato do meu amigo, eu descobria agora, não estava perfeitamente certo. Ela não havia se demitido do trabalho, apenas se licenciado por algum tempo. “Fui diagnosticada com depressão”, ela admite, sem muitas delongas ou o constrangimento que tanta gente tem sobre o tema. “Meu casamento estava indo muito mal e eu desabei. Mas agora tá tudo bem”. Não estava, não era necessário ser um especialista para notar aquela tristeza escondida no canto do olhar.
Falei da minha vida para ela também. Contei que a minha ex-namorada que ela conheceu não deu certo e que, naquela época de fim da adolescência e início da vida adulta, eu tinha muita vergonha de falar sobre o que eu passava. Ela praticava gaslighting comigo, tinha crises de ciúme incontroláveis, me fazia sentir um crápula por coisas que eu sequer havia feito. “Você parecia tão feliz com ela”. “Eu finjo bem”, admiti. “E eu tinha vergonha de mostrar para os outros o que passava. Homem dizendo que a mulher é abusiva? Eu não queria que ninguém soubesse”.
Após quase meia hora de amenidades, eu exponho o elefante na sala de estar. Na verdade, quem começa é ela. Quando a adicionei no Facebook, falei que tinha esbarrado com ela na rua e que ficara com vergonha de cumprimentá-la na hora. Mas que queria muito revê-la depois de tanto tempo, tomar um café, falar sobre a vida. “Por que você sumiu?”, ela pergunta, no meio de um daqueles silêncios que duram mais do que deveriam. Eu tremi por dentro, mas não havia como continuar escondendo.
No começo, falei o básico. Que era de família humilde, como ela bem lembrava, e que o parente que pagava meu curso havia descoberto um câncer. Poucos meses depois, eu perdi meu emprego. Tudo isso num intervalo curto, de três ou quatro meses e perto da virada do ano. “Me ligaram do curso e ofereceram um desconto. Eu era pobre, mas sempre fui orgulhoso. Naquela época, era mais ainda. Burrice minha. Se bobear, eles iam acabar me oferecendo uma bolsa”. “Eles iam”, ela responde. “O Francisco - dono do curso - era maluco por você. Você era um ótimo aluno”. Ela dá um gole no mate que pediu. Meu café esfria ao meu lado. “Mas por quê você não falou nada comigo?”, ela continua.
Eu sabia que estava num daqueles momentos em que poderia mudar radicalmente o dia. Porque eu poderia ter mentido. “Eu não falei porque fiquei com vergonha de ter perdido o emprego”. “Eu não falei porque eu estava muito triste: parente próximo com câncer, desempregado, meu relacionamento com uma pessoa abusiva”. Eram mentiras com um pouco de verdade, mas não revelavam o grande problema. Naquele fim de tarde, eu escolhi não mentir. Nem me esconder. E eu já tinha ensaiado essas palavras dezenas de vezes nas últimas semanas.
“Olha, eu não sei se dava para reparar na época ou não. Não sei era muito óbvio, sinceramente. Mas eu era completamente apaixonado por você naquele tempo. Eu passava a semana inteira pensando no dia em que a gente ia se encontrar, trocar uma ideia no curso, caminhar junto até a sua casa. E eu tinha uma vergonha absurda disso. Eu tinha namorada, você tinha namorado e estava para se casar. Então eu achava errado expor aquilo, ser claro. E eu achava que você não gostava de mim. Eu tinha auto-estima muito baixa e esse relacionamento com essa ex-namorada abusiva só piorou as coisas. Eu me sentia um lixo, então achava que você não ia ligar se eu sumisse. Que ninguém ia ligar se eu sumisse. E foi o que eu fiz. Mas, se você quer uma versão curta da resposta, é essa: eu era completamente apaixonado por você naquela época e quis sumir, sair correndo”.
Enquanto eu falava aquilo tudo, a boca dela se abriu em alguns momentos. Às vezes parecia surpresa, às vezes parecia que ela tentaria falar alguma coisa que se perdia no caminho. Eu fazia esforço para olhá-la nos olhos, mas era difícil. Mesmo depois de todos esses anos. Tentei dar a entender com o tom de cada palavra que aquilo era uma coisa do passado, que não me incomodava mais, que agora eu queria apenas revê-la e saber como andava a vida.
O desabafo foi seguido de um silêncio que tornava-se mais pesado a cada segundo. Havia alguma coisa fervendo dentro dela, dava para ver. Foi aí que os olhos dela brilharam mais do deveriam, lacrimejando. Quando vejo aquilo, sinto que o mesmo vai acontecer comigo, mas me seguro. Ela vira o rosto e olha para além da vitrine, onde um ponto de ônibus está lotado com os clientes do supermercado e estudantes recém-saídos de suas escolas, o trânsito lento e infernal. A acústica é tão boa no bar que o caos de fim de tarde do outro lado do vidro parece uma televisão ligada no mudo. Quando ela me olha de volta, vejo que ela não faz qualquer esforço para esconder os olhos marejados.
“E você nunca me contou nada? Nem pensou em me contar?”.
Eu não sei quantos de vocês já ficaram sem notícias de um parente ou de alguém que você ama por muitos anos. Aconteceu comigo uma vez, com uma tia que desapareceu por quase 10 anos no exterior e reapareceu após ser mantida em cárcere privado por um namorado obsessivo. A sensação é estranha. É como descobrir que um livro que você tinha dado como encerrado tinha uma continuação secreta. As memórias de hoje se misturavam com as de 12 anos atrás, da última vez que li esse livro. Ela começou a contar tudo.
Ela, como eu já disse antes, era o meu ideal de felicidade. Casara cedo, tivera filho cedo, empregara-se no serviço público cedo. Era tudo com o que eu sonhava. Eu sempre quis constituir uma família, ter uma vida simples, ter um filho cedo para poder aproveitá-lo ao máximo. Mas a falta de dinheiro e a busca por uma parceira ideal sempre ficaram no caminho, assim como a carreira. O problema é que ela tinha uma vida muito diferente do que eu imaginava, muito mais parecida com a minha à época.
Acho que já deixei claro o quanto eu era apaixonado por ela no passado. Ela não era bonita nem feia, tinha o tipo de rosto que se perde na multidão sem ser notado. Filha de pai negro e mãe branca, era morena e tinha o cabelo liso levemente ondulado, quase até a cintura. Quando éramos adolescentes, ninguém a elegeria a mais bela da turma, mas dificilmente negariam que tinha seu charme. Eu a achava linda.
Mas ela, como eu, era o tipo de pessoa que tinha a auto-estima no fundo do poço. Como eu, também cresceu em um lar bem humilde. Também colecionou desilusões amorosas. E, como todo mundo já sabe, isso te transforma em um alvo perfeito para relacionamentos abusivos. O namorado dela, assim como a minha namorada à época, era muito bonito e manipulador. E ela achava que ele era a única pessoa que gostava dela, o único que lhe daria atenção. E isso fez com que, por anos, ela suportasse tudo que aconteceu entre eles. Traições, brigas, mentiras, chantagens, ameaças de abandono, ciúmes doentios. A história deles dois era tão parecida com a minha história com minha primeira namorada que eu fiquei assustado. Só que, diferente de nós, eles casaram. Eles colocaram um filho no mundo.
Ele só piorou com o nascimento da criança. Ele não era mau com o filho, ela dizia. Era um pai carinhoso, inclusive. Mas o pouco amor e bondade que ele tinha por ela transferiu-se todo para a criança. Vivia para o trabalho, para o filho e para os amigos.
“A gente chegou a ficar sem se falar por meses”.
“Morando na mesma casa e sem se falar?”.
“Sim. Nem bom dia. Nada. Eu me sentia um fantasma”.
Na contramão dele, ela dobrava-se para dentro de si própria. Abandonou a faculdade para cuidar do filho enquanto o marido formou-se com seu apoio fiel. Vivia para o filho e tinha seus problemas conjugais menosprezados pela família. “É coisa de garoto, ele vai melhorar”. “Homem quando acaba de ter filho é sempre assim”. “Vai passar”. Mas não passou, só piorou. As traições recorrentes evoluíram para uma equação desequilibrada de álcool e uma amante fixa no trabalho que ele sequer fazia questão de esconder. Ele anunciou que ia deixá-la, convenceu-a de que era um bom negócio vender o apartamento que eles haviam comprado. Racharam o dinheiro e ele foi viver a vida. Ela voltou a morar com a mãe, agora viúva.
O filho, nitidamente a coisa mais importante daquela mulher, tornou-se a única razão para viver. A pensão que a mãe recebia era baixa, o salário dela também não era bom. A pensão que o marido dava ajudava a manter uma vida extremamente funcional e sem luxos. As roupas eram das lojas mais baratas. Viagens não existiam. O único gasto relativamente alto era com uma escola particular de qualidade para o filho. O resto era sempre no básico.
Contei para ela sobre o meu sonho de casar cedo, de ter uma vida tranquila e estável. Falei que eu admirava muito a vida que ela escolheu no começo, que era a vida que eu queria ter vivido. A grama realmente é mais verde no jardim do vizinho, ao que parece.
“Mas a sua vida parecia tão tranquila, tão perfeita”.
“A minha?”.
“A sua namorada naquela época era uma menina tão bonita, eu lembro dela. Loira, bonita de corpo. Até lembro que ela fazia medicina e ainda era dançarina. Eu achava ela linda, perfeita. E você… você era sempre tão fofinho. Carinhoso e atencioso com todo mundo. Inteligente pra caralho, nem estudava e tinha as notas mais altas em tudo. Todo mundo gostava de você, todo mundo queria ser seu amigo e você nem se esforçava para isso”.
“Eu não lembro disso…”.
“Porque você não se achava bom. Você tinha 16, 17 anos e sentava para conversar de igual para igual sobre cinema e livro com uns professores de 40 e poucos anos. Você parecia fluente conversando com os professores em inglês e espanhol enquanto a gente tentava chegar perto disso. Passou no vestibular de primeira. Você não percebia, mas você era o queridinho de todo mundo. Você não era o garoto malhado bonitão, você era o garoto charmosinho e inteligente que todo mundo gostava. Eu gostava de você também. Gostava mesmo, de verdade. Eu tinha uma paixãozinha por você. Mas eu achava que eu não tinha a menor chance. Eu achava que eu merecia o meu namorado. Que eu era feia, ruim. Que ele estava certo em me falar aquelas coisas”.
“Eu era completamente apaixonado por você”, eu respondo. “Eu pensava em você todo dia”.
Engraçado como as pessoas se veem de maneira tão diferente. Eu me definia de três formas quando a conheci: eu sou gordo, eu sou feio, eu moro num dos bairros mais pobres e violentos da cidade. No dia seguinte, de manhã, eu olharia minhas fotos de 12, 14 anos atrás e me surpreenderia com quem eu via ali. Eu era bonito, só um pouco acima do peso. Com 16 anos, eu já era o barbado da turma antes de barba ser coisa hipster. Na foto do colégio, uma das últimas do terceiro ano, eu parecia tão dono de mim, tão no controle. Eu tinha aquela cara de inteligente e rebelde. Por dentro, eu era completamente diferente. Inseguro, assustado, sem auto-estima alguma e com uma namorada abusiva.
São sete e meia e a noite já começa a cair no horário de verão. Educadamente, uma das atendentes nos indica que a galeria onde o café funciona vai ser fechada em breve. Eu pago a conta e nós ficamos meio perdidos, sem saber o que fazer. Ela ainda tem os olhos inchados, eu também. Os funcionários da loja nos olham de forma surpreendentemente carinhosa, não sei o quanto eles escutaram do desabafo.
Saímos em silêncio do café, ela atendeu a uma ligação da mãe. Minha esposa estava fora do estado e só voltaria dali a alguns dias, então eu estava bem relaxado em relação às horas.
“Não sei se você precisa voltar para a casa por causa do Hugo, mas tem um bar aqui perto que é bem vazio a essa hora. A gente pode sentar pra conversar”, eu digo.
“A gente tem mais coisa para conversar?”. Ela pergunta sorrindo, não vejo nenhum traço de mágoa no seu rosto.
“Claro que tem. Doze anos não se resolvem em duas horas”.
Fomos para um bar pequeno ali perto, um que eu costumava frequentar nos tempos de faculdade. Nos tempos em que eu pensava nela e não me achava capaz de tê-la. Ele pouco havia mudado de 12 anos para cá: a mesma atmosfera que fazia dele aconchegante e levemente depressivo ao mesmo tempo. Era um bar das antigas, com azulejos portugueses azuis e poucos frequentadores. O atendimento era excelente e o preço razoável para a região, mas aquela estética de 40 anos atrás parecia espantar os frequentadores mais jovens. Os poucos que iam lá, no entanto, eram fiéis. Como eu fui no passado.
Nos sentamos no fundo do bar vazio em plena terça-feira e desnudamos nossas vidas um para o outro. “Eu quero saber quem você é”, eu comecei. “A gente falava sobre um monte de coisa, mas eu não sei nada sobre você. Sobre sua família. Sobre sua infância, quem você é. E você não sabe nada sobre mim”. Ela riu. “Você é maluco”. “Não, só quero te conhecer melhor. Compensar por ter sido um babaca há doze anos”.
A conversa foi agridoce. O que mais me assustava era como tínhamos origens semelhantes, desde a família até a criação. Os dois criados no subúrbio do Rio de Janeiro, os dois de famílias humildes que, por conta da pobreza e da necessidade de contar uns com os outros, permaneciam unidas. Primos de terceiro ou quarto grau criados próximos, filhos que casavam e formavam suas famílias nas casas dos pais. Assim como a minha família, a dela investiu tudo que tinha para que ela estudasse em um colégio particular até que eventualmente ela passou para uma escola pública de elite.
Nossas duas famílias tinham essa estranha tradição carioca que mistura catolicismo, umbanda e espiritismo, um sincretismo religioso que eu, como ateu, tenho dificuldade em entender - mesmo tendo crescido nesse meio. Assim como eu, achava-se feia, indesejada na adolescência. Isso fez com que rapidamente trocasse o mundo cor de rosa pelo rock e pelos livros. No meu caso, eu acrescentaria videogames e RPG, mas o resto não mudava muito.
“Na minha escola, tinha muita patricinha, muito playboy. Eu não aguentava eles. E eles sabiam que eu era pobre, então não se misturavam muito comigo”. Contei a minha versão para ela. “Eu gostava de ler, RPG e jogar videogame. Mas eu era muito pobre, fodido mesmo. E isso tudo era coisa de gente com grana na época, né? Então eu acabei ficando amigo dos nerds na época por conta dos gostos comuns. Eu tive sorte, demoraram a perceber que eu era pobre. Eu tenho toda a pinta de gente com grana, essa cara de europeu que engana. Quando perceberam que eu era duro, foi só no segundo grau. Ali eu já era um pouco mais cascudo, tinha bons amigos”. Ela não.
Era tudo tão igual que, em dado momento, eu parei de falar que havia sido igualzinho comigo. Eu esperava ela terminar a parte dela. Falava a minha. E intercalávamos nossas histórias, os dois surpresos com as semelhanças. Provavelmente a grande diferença era a vida dela após ter o filho e abandonar a faculdade. Ela trabalhava em uma repartição pública onde tinha 20 anos a menos do que a segunda funcionária mais nova, se afastou dos amigos. Era estranho conversar com ela. Não usava redes sociais praticamente, apenas para trocar mensagens com parentes distantes e mostrar fotos do filho para eles. Não via séries, não tinha Netflix - só novelas. Não conhecia bandas novas, não era muito de ir ao cinema. Era uma sensação estranha, mas parecia que boa parte da vida dela tinha parado em 2006 ou 2005. Os hábitos dela e poucos hobbies pareciam os de uma pessoa de 50 e poucos anos.
Me doeu imaginar o que poderia ter sido, o que poderíamos ter feito juntos, como poderíamos ter sido bons um para o outro. Pensei na minha esposa, que tem um perfil familiar radicalmente diferente do meu. Ela vem de uma família de classe alta, só com engenheiros e funcionários públicos de elite. O mundo dela era muito diferente do meu, tão diferente que às vezes me assustava. Famílias que não se falavam e que, mesmo endinheiradas, brigavam por herança e cortavam laços de vida por conta de bens que eles não precisavam. Todos católicos ou evangélicos, sem exceção. No máximo um ou outro ateu escondido no armário, como eu.
Essa diferença nos causava estranhezas, pontos de atrito que me surpreendiam. Quando eu elogiava a decoração de uma festa, ela falava do preço e da empresa que a produziu. Ela sentia uma obrigação social em aparecer em eventos familiares ou do círculo social deles, de ser e parecer uma boa esposa. Eu só queria estar onde eu estava afim e quando eu estivesse afim, nunca vi a família como uma obrigação social. Eles discutiam herança entre irmãos com os pais bem vivos, nós nos preocupávamos em fazer companhia à minha mãe quando meu pai morreu. Já era meio subentendido que abriríamos mão de qualquer coisa e deixaríamos tudo para minha mãe, tendo direito ou não.
Havia uma preocupação com patrimônio, normais sociais e aparências que, por muitas vezes, me assustavam. Muitas vezes ela parecia desgastada ou enojada com isso também, mas fazia porque alguém na família tinha que fazer, porque era tradição, porque sempre foi assim. Eu assistia àquilo atônito, impressionado como uma família tão numerosa quanto a minha - com literalmente dezenas de primos e tios até de terceiro grau que moravam em um mesmo bairro - era tão mais simples e unida do que uma dúzia de endinheirados que pareciam brigar por coisas fúteis.
Ela, que estava ali do meu lado, não. Tudo que ela me contava soava como uma cópia fiel da minha família, apenas em escala ligeiramente menor. Pensei em como as coisas seriam simples ao lado dela, despreocupadas, tranqulas. Que eu não passaria a vida sendo julgado pela família da minha companheira como o ex-pobre com pinta de hipster que conseguiu ganhar algum dinheiro, mas não tem muita classe nem é muito cristão, como nos últimos anos.
As palavras que saíram da boca dela depois de uns dois ou três copos de cerveja poderiam muito bem ter sido lidas do meu pensamento. “Você acha que a gente teria sido um bom casal? Que a gente ia se dar bem?”.
“Não tem como saber”, eu respondi. “Mas a gente pode imaginar”. E a gente começou a brincadeira mais dolorosa da noite, imaginando como seria se tivéssemos ficado juntos 12 anos atrás.
“Eu jogava videogame para caralho, você ia se irritar. E eu ia te pentelhar para jogar comigo”, eu comecei.
“Eu gostava de videogame, só não jogava muito. Eu ia te arrastar para show da Avril Lavigne e da Pitty, você não ia gostar”.
Eu sorri. “Eu não tenho nada contra as duas”.
“Britney e Justin Timberlake também”.
“Porra, aí você já tá forçando a barra, amor tem limite”.
Falamos sobre meus primeiros estágios, sobre como eu era maluco e fazia dois estágios e faculdade ao mesmo tempo. Saía de casa às cinco da manhã e voltava às onze da noite. Tudo para conseguir ter uma grana legal, já que na minha área os estágios eram ridiculamente baixos. Ela falava sobre a rotina de estudos para concurso, sobre como foi difícil conciliar a faculdade - que ela eventualmente abandonou por causa do filho - com o recém-conquistado emprego público. Eu falava do meu início de carreira, que foi bem melhor do que eu jamais imaginara, como subi rapidamente. Como eu achava estranho ganhar a grana que eu ganhava - que não era nada extravagante, garanto - mas meus hábitos simples faziam com que eu mal gastasse metade do salário. Ela falava da depressão que tomou conta dela ao perceber que estava num emprego extremamente burocrático e ineficaz, deixando-a incapaz de buscar outras alternativas. Falamos sobre a morte dos nossos pais, que parecem ter conspirado para falecer no mesmo ano.
Em algum momento, a cabeça dela repousou no meu ombro. Eu não soube o que fazer. Pensava apenas na minha esposa, em jamais ter traído ela nem nenhuma outra mulher. Foi aí que eu percebi que ela chorava e, novamente, eu chorei também.
“É engraçado a gente ter saudade de algo que a gente não teve”, eu disse, lembrando de um livro que eu li há muito tempo.
“Acho que a gente seria um casal do caralho”, ela disse, com um inesperado sorriso entre as lágrimas.
“Ou talvez a gente se detestasse e desse tudo errado, a gente nunca vai saber”.
“A gente nunca vai saber”, eu repeti, mentalmente. Como um vírus, a ideia se espalhou dentro de mim rapidamente. “Eu posso fazer uma diferença na vida dessa mulher, na vida do filho dela, na própria família dela. Eu posso ter uma vida mais tranquila ao lado dela, sem essas picuinhas de família rica. Minha esposa pode encontrar um homem muito melhor para ela. Um cara rico, cristão e que tenha a classe e pose que a família dela tanto quer. Isso pode acabar bem para todo mundo”.
Mas não podia. Lá no fundo, eu sabia que não podia. Eu tinha quase uma década de história com minha esposa. Eu tinha um casamento plenamente feliz atrapalhado por alguns poucos problemas familiares e inseguranças minhas. Tínhamos uma química ótima, gostos parecidos para livros e filmes, nos dávamos bem na cama. Valia a pena jogar aquele relacionamento tão bom e funcional - algo que me parece cada vez mais raro hoje em dia - por uma aventura fugaz? Um remorso do passado? Em um relacionamento com uma estranha que eu estava voltando a conhecer havia algumas horas?
“Você nem a conhece”, dizia a cabeça. “Ela é igual a você”, dizia o coração.
No fim das contas, eu segui a cabeça. Conversamos até quase dez da noite. Pegamos um Uber e fiz questão de deixá-la em casa, um prédio pequeno em um bairro abandonado do subúrbio. Quando o carro parou, ela se demorou um pouco do meu lado e, por impulso, eu segurei a mão dela. Ela me encarou assustada e ansiosa. Eu pensei em beijá-la, em ligar o foda-se e jogar tudo para o alto ali mesmo. Mas eu só desci do carro com ela na rua deserta e caminhamos juntos para dentro do prédio, sem saber exatamente o que a gente estava fazendo. Pedi para o motorista me esperar e disse que depois acertava uma compensação com ele.
“Eu vi o seu Facebook. Você é casado com uma mulher linda. E inteligente. Você não vai me trocar por ela. Nem eu quero acabar com o seu casamento”.
“Você acha ela linda e inteligente?”.
“Você sabe que ela é”.
E então eu desabafei. Falei que passei as últimas semanas reavaliando meu casamento e meu futuro, encarando a foto dela no Facebook de tempos em tempos. Que meu coração quase parou quando encontrei-a pela primeira vez. Que eu gostava de tudo nela. Da dedicação como mãe, da simplicidade, dessa aura de pessoa correta que ela exalava sem fazer esforço, desse espírito suburbano e familiar que ela tinha. Dos olhos dela, tão animados no passado e tão tristes agora. De como eu estava me segurando para não beijá-la naquele dia todo.
“Você é linda. Eu sei que você se acha feia, eu sei que você acha que ninguém vai se interessar por você. Mas você é uma mulher foda, e nem preciso subir para saber que você é uma mãe foda, uma filha foda. Não deixa a vida passar. Eu tenho certeza que tem mais gente que, igual a mim, já percebeu isso em você e não sabe como falar. Não faz de novo a mesma coisa que a gente fez lá atrás. Eu só queria que você soubesse disso porque eu acho que você merece ser muito mais feliz do que você é agora. E você não tem ideia de como você me deixou maluco esses dias todos. Eu sou bem casado com uma mulher linda sim, mas só de encontrar você eu tive vontade de jogar tudo para o alto”.
Foi um monólogo mais longo do que eu esperava. De novo, ela chorou. Dessa vez, eu contive as lágrimas. O abraço que partiu dela foi um dos melhores e mais tristes que já ganhei na minha vida. Havia ali uma história de amor não vivida, saudades de uma história que jamais colocamos no papel, de um mundo que nunca existiu. Ela me apertou forte e eu sentia minhas mãos tremerem.
Encostamos as laterais do rosto um do outro, aquele prenúncio de um beijo adiado. E que tive que usar todo auto-controle do mundo para manter adiado. Me afastei, olhei nos olhos dela, sorri e fui embora. Quando o Uber saiu, ela ainda estava parada na portaria e minhas mãos ainda tremiam.
Eu não sei se essa história acaba aqui ou não. Mas eu tenho quase certeza que sim. Algum dia eu vou contar tudo isso para a minha esposa, mas vou esperar esse sentimento morrer primeiro. Eu conheço ela o suficiente para saber que, em um bom momento, ela não ficaria triste com essa história. Eu até consigo imaginar a reação dela, repetindo a frase que ela me diz desde que a gente casou. “Eu te conheço. Você não vai me trair com alguma gostosona oferecida por aí. Se alguma coisa acontecer, você vai se apaixonar por alguém. Eu te conheço, você é romântico. Mas a gente se resolve”.
Quando cheguei na minha casa vazia, sentei e escrevi quase tudo isso de uma tacada só. Sem revisão, sem pensar muito. Eu acho que eu poderia escrever dezenas de páginas sobre os detalhes da conversa, mas isso aqui já está longo demais. Antes de dormir, eu vejo que tenho uma mensagem no Whatsapp.
“Foi muito bom encontrar você”.
Toda aquela tentação de falar algo mais grita dentro de mim, se debate.
“Foi bom te ver também :) “.
Por via das dúvidas, coloquei o celular em modo avião e suspirei. “Eu tô feliz ou triste?”, me perguntei. Parece uma pergunta simples e relativamente objetiva, mas eu não soube responder. Eu custei a dormir, com medo de sonhar com ela. Quando eu acordo no dia seguinte e me preparo para ir ao trabalho, a impressão que eu tenho é de que tudo foi um sonho. Vê-la, reencontrá-la, chorar, abraçá-la.
E, como quando a gente acorda de um sonho triste, eu volto a viver minha vida normal para esquecer. Hoje tem reunião com cliente. À noite, preciso pegar minha esposa no aeroporto.
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2017.01.24 06:34 pedrothegrey Os suicidas

22h de uma quinta-feira, era inverno, a rua era de barro e a chuva caía, formando poças nos buracos que haviam naquele chão. Saí do carro, pus meu chapéu, fechei o casaco. A polícia já havia chegado nesse momento ao lugar, fora me concedido algum tempo lá, eu era o único contato do suicida com o mundo, era um antigo amigo dele.
A corda estava bastante esticada, e como consequência estava quase cortante, era áspera e amarela, com "farpas" que saíam dela. A janela estava aberta e o vento balançava o corpo suavemente, a corda rangia junto do telhado. Haviam toras estruturais para segurar o telhado que foram usadas para amarrar a corda na parte de cima, e havia um nó em seu pescoço. A sua cabeça pendia para a esquerda, e seus olhos ainda estavam abertos de espanto. Não consegui olhar para seu rosto, só para seus olhos, e isto porque lá havia uma reflexão de mim.
Sentei na cama que ele havia arrumado há algumas horas e tentei examinar a cena e entender os motivos pela qual sua mente perturbada não havia se mostrado antes para mim. Ainda me sentia culpado de não ter entendido a natureza de seus problemas, caso eu tivesse suspeitado, haveria tempo de impedí-lo do ocorrido. Ele era um sujeito diferente, inconstante para si mesmo, mutável moral, ética e cientificamente. O único aspecto imútavel de sua vida era a sua mutabilidade, um paradoxo simples. Havia acompanhado os eventos de sua vida desde 4 anos atrás. Há 5 anos aliás. No primeiro destes, ele havia conversado sobre a mística da vida, havia se questionado sobre a bondade de Deus e até mesmo sobre a esperança na mudança. Mas eram conversas soltas, seguidas sempre de um aperitivo e boas piadas. As mudanças grandes sempre se formam como pequenas e invisíveis dúvidas, até que uma noite dorme um homem e no dia seguinte, acorda outro. Os livros que eram adicionados à sua estante mudaram de gênero, a fantasia e mitologias que sempre estiveram presentes deram lugar à autores severos e metodológicos. Havia estudado a teoria de seleção natural das espécies, a filosofia do martelo, a sociologia da foice e até havia lido com mais honestidade do que antes a bíblia.
Certa vez, na ida para o trabalho, em uma conversa casual, meu amigo me informa que não era mais apto à crença em nenhuma entidade mística de qualquer natureza, e esta fora a expressão utilizada: apto. Isto porque ele queria acreditar nas forças superiores olhando para os mortais e decidindo seus mesquinhos destinos, havia uma doce dose de apego à essas filosofias que vieram em sua infância, a melodia platônica cristã e até à rebeldia mística juvenil. A decisão não veio de maneira fácil, tampouco fora sua tese formulada em algumas horas, o processo de transformação vinha acontecendo sutilmente em seu ser e eu não havia percebido. Todavia, sua descrença na metafísica era acompanhada por uma profunda esperança nas mudanças da sociedade, na quebra do status quo da qual a sociedade moderna se flagelava, ele se apoiava na desordem civil, na quebra das autoridades, queda das aristocracias veladas que regiam o mundo. Eu hoje noto que ele havia trocado uma vã filosofia por outra, mas é mais fácil julgar os atos quando estamos distantes e perfeitamente intocados.
Ele também havia conhecido uma mulher, por quem se apaixonou e enamorou pelos três próximos anos. Suas experiências com ela se dividiam em discussões e promessas de amor. Ele me contava sempre as experiências últimas, e tinha uma (quase doentia) habilidade de esquecer as dolorosas, mas eu era próximo das amigas de sua mulher e elas sempre me relatavam os últimos casos dos dois. A família dela sempre fora relutante em aceitá-lo devido à suas fortes conviccções, quase religiosas, diria eu. A igreja tinha uma forte influência nas suas vidas, e ver alguém que era capaz de não viver segurando nas mesmas bengalas místicas era bastante singular, e o singular é um risco, e como tal, é prudente cortar os riscos e seguir a tradição. Haviam cortado relações e ele parecia o mesmo. Sorria como antes e nada parecia ter mudado. Eu senti que essa negação, ou qualquer que fosse o sentimento que o impelia à não lamentar era danoso, mas que podia eu falar? Haveria de ser eu, logo eu, seu único amigo, à fazê-lo lamentar? Me preparava para o que poderia vir à seguir, pois eu sabia que alguma coisa ia acontecer. E de fato, assim foi. Uma semana depois ele corta seu contato comigo, me mantenho afastado por orgulho, mas sempre preocupado com o seu paradeiro.
Meus pensamentos são súbitamente cortados por uma forte brisa que vem da janela, o corpo suspenso pela corda oscila com alta amplitude e corro para fechar a janela, antes que sua dignididade seja violada pela queda de seu corpo. Saio, pego um copo de água. Olho a chuva pela janela, o ruído que me era tão caro, bebo e retorno ao seu quarto. Agora, com a janela fechada, o quarto já não mais é iluminado normalmente, a luz é torpe e me sinto enclausurado. As sombras se movem suavemente, e parecem engolir o quarto num pregresso imperceptível. Retorno, com certa obstinação ao ritmo anterior de meus pensamentos.
Ele fora na minha casa há uns meses, e nós conversamos. Ele contou sobre as experiências singulares vivenciadas no hiato de nossa relação, as mulheres por quem ele brevemente havia se apaixonado, as ébrias noites em casas de conhecidos, as exposições que vira e os livros que lera. Certamente ele havia se tornado outro ser, falava de maneira diferente, adquirira hábitos e manias distintas de sua persona à 2 ou 3 anos atrás, mas sua essência era a mesma, e ele queria somente algo à se apegar e crer com toda força, mas jamais fora capaz, ou era apto, como diria ele. Agora ele havia perdido, de fato, todas as suas crenças. Não havia sobrado espaço para acreditar, as grandes conjecturas sociológicas utópicas haviam sido abandonadas, assim como a suposta certeza de certas filosofias de vida, estava agora, à merce de seu hedonismo, não havia mais motivo para a sua existência, nem ele tinha a pretensão de criar algum. Lia seus livros, escrevia suas teses, ouvia suas músicas, mas tinha certeza que não iria escrever um livro, nem uma tese que valeria a pena ser lida, muito menos iria compôr uma canção que se orgulhasse. Vivia nas costas da produção dos gigantes, que já foram uma ambição vaidosa, e agora eram só uma crença, que havia, como todas as outras, sido abandonadas.
Continuamos a nossa amizade e nos encontrávamos periodicamente, eu havia notado há alguns encontros que o motivo de sua volta ainda me era um mistério, e em uma de nossas reuniões o perguntei sobre o motivo de seu retorno. Seu riso se desfez e vi que a sua alma escureceu, eu havia encontrado na sua alma um vazio, havia visto em suas convicções uma falha estrutural. Por um motivo, que ainda me era incógnito, ele não havia como mentir para mim, nem havia como correr da resposta, o desespero da inevitabilidade havia atingido o seu coração, e o meu fora atingido por remorso de o ter indagado. Mas assim como ele, não havia volta, uma vez que a questão fora exposta, não havia mais retorno. Foi assim com Deus, desde nossa primeira dúvida, não houve mais retorno, e assim também foi com o amor, nós sabíamos que tudo girava em torno dela, e naquele momento senti que víamos e sentíamos a mesma coisa, embora não entendesse a natureza daquela sensação.
Neste exato momento a janela treme, o vento uiva fortemente, e as sombras dançam como a chama de uma vela, subindo e tomando o quarto. Me assusto, corro para a porta, a porta está trancada. Olho para trás, e o quarto é um vazio, com somente um corpo pendurado por uma corda. Ele cai dela e um barulho seco sai do negro chão. Sou obrigado à olhar para ele, agora que as sombras me jogam até lá. Caio no chão, e assim permaneço, pois seu olhar toca o meu, e não mais vejo meu reflexo em seus olhos, percebo o óbvio, que todo esse tempo me esquivei, seu olhar era o meu. Ele sou eu, ou melhor, ele era eu. Agora sou eu, que pendurado numa corda, vejo à entrar no quarto uma espécie de reflexo meu, que tem semelhante aparência, tenta entender o que me levou à estar pendurado, e ele entende e o mesmo à ele acontece. O ciclo continua, a metamorfose atinge cada um de nós, que percebe de relance que agora é um novo ser, diferente do que está enforcado, mas não obstante, produto deste.
A roda gira, até que o último de nós olha para a corpo pendurado, ri e nos tira da corda. Ele entendeu. Nos dá um abraço amigável, e não há mais porque continuar o ciclo. Nunca importou a nossa existência, não nos tornamos gigantes, nem nos entregamos à vaidade, fomos apenas nós, que nos entendemos como produtos de nossas metamorfoses. Nunca houve nenhum motivo para aquela roda girar, e o ciclo continuar. Nunca existiu uma razão definida, nem uma forma correta de prosseguí-la, apenas demos seguimento à ela, até que no final todos nós todos fomos engolidos pela sombra, assim como todos os que hão de vir depois de nós. O esquecimento e o vazio são as nossas únicas certezas, e ainda que o tempo venha a corroer tudo, e que as sombras venham à atingir à todos nós, ainda vivemos e continuamos o ciclo, pois a vida é possibilidade, e possibilidade é esperança.
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2016.06.16 22:28 TotalenKrieg Discurso de um grande combatente pela Pátria

"Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso Estes homens são o povo, e são os que nos defendem". Acabo de ler um trecho de "O Povo", de Eça de Queiroz. Bom dia a todos. Os meus agradecimentos por me dispensarem uns minutos da vossa atenção. A Constituição da República Portuguesa (CR), apesar de ser a mais extensa que tivemos, desde 1822, não encontrou espaço nos seus 296 artigos e sete revisões, para referir uma única vez a palavra "Nação"- a Nação dos Portugueses. Já relativamente à palavra "Pátria", a Constituição é mais pródiga: invoca-a, nada mais, nada menos, do que uma vez, mais concretamente no seu artigo 276, e cito "A defesa da Pátria é direito e dever fundamental de todos os portugueses"! É sabido que a defesa da Pátria não se faz apenas de armas na mão; essa defesa pode e deve, estender-se a todas as áreas da actividade humana. Mas convém não esquecer que a defesa armada é o último argumento, que se faz em extremo e pode implicar o sacrifício de bens, sangue e vida. E, ao ter-se abandonado o Serviço Militar Obrigatório, parece que a defesa da Pátria – esse dever e direito fundamental, segundo a Constituição, ficou direito de todos e dever só de alguns… A Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas, por sua vez, continua omissa sobre a "Nação", mas já fala duas vezes em Pátria; no seu artigo 9º repete a fórmula da Constituição; e noArt.º 22 afirma peremptoriamente que, "será assegurada de forma permanente a preparação do País, designadamente das Forças Armadas para a defesa da Pátria" (atenção, eu só estou a dizer o que está lá escrito, não confundir com o que se tem feito…). Ora haver Nação sem Pátria é curto; mas haver Pátria sem Nação, é impossível!… Porém, não havendo aparentemente, Nação, o Estado, que é justamente a Nação politicamente organizada, representará, então, quem ou o quê? Ora se o Estado não representar a Nação, não pode sentir a Pátria como sua, tão pouco a entender. Portugal é, todavia, uma Nação coesa, seguramente desde o tempo do esclarecido Rei, o Senhor D. Dinis; com as mais antigas fronteiras estáveis do mundo, mau grado o esbulho pendente de Olivença; formou um Estado Nacional Português, desde o tempo do preclaro Rei, Senhor D. João II e ganhou consciência que era uma Pátria, senão antes, garantidamente, depois de Camões ter escrito os Lusíadas! E Camões – que também foi um combatente - não se esqueceu de, neles, referir a Nação – fê-lo, até, por sete vezes – e não foi avaro em relação à Pátria já que a evoca em 35 ocasiões! E a obra de Luís Vaz – cuja morte neste dia também evocamos - foi-lhe tão superior e transcendente, que ele próprio se enganou ao dizer, pressentindo o fim, que "morria com a Pátria", antevendo a ocupação castelhana. O certo é que, a Nação que já era Pátria, sobreviveu aos 60 anos da Coroa Dual Filipina e passou a viver de vida própria, qual fénix renascida! O que atrás se disse representa, pois, a dissonância existente entre o Estado e a Nação, que é a razão por que nós nos reunimos aqui, desde há cerca de 25 anos, a comemorar o Dia de Portugal, honrando os combatentes, enquanto as figuras que ocupam transitoriamente as cadeiras do Poder – Poder que está hoje, maioritariamente, fora do país – estão sempre noutro lado. E quanto aos combatentes por norma, aos costumes dizem nada. Essa é também a razão pela qual as Forças Armadas só voltaram a integrar as comemorações oficiais do feriado nacional, há 10 anos, depois delas terem estado arredadas cerca de três décadas. E caros compatriotas aqui presentes, não somos nós que estamos mal; "eles" é que se afastaram do trilho certo. Do trilho do Dever, da Honra, do Patriotismo, do amor a Portugal. Esta cerimónia, singela mas muito digna, realizou-se sempre sem se pedir um ceitil que fosse, ao Estado e junto a um monumento, em memória dos combatentes, em que nada se pediu, também, ao Estado – aliás, em várias alturas, teve que ser construído com a oposição desse mesmo Estado. Parece que a frase, entre muitas, célebre, do grande português e militar, que foi o Tenente- Coronel Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, de que "Portugal é obra de soldados" passou a estar na moda. Mas estando ou não, na moda, essa frase foi sempre uma realidade, pois sem soldados – isto é, sem combatentes – não haveria território, a tal "nesga de terra debruada de mar", no dizer de Torga; não haveria população; não haveria matriz cultural; não haveria segurança, não haveria Justiça, não haveria Bem-Estar, não haveria liberdade. E quem permitiu e fez isto? Pois foram os soldados, os combatentes, o tal povo, do Eça. Onde se devem individualizar as mães e as mulheres, pois foram elas que sempre aguentaram a retaguarda! Por isso todos nós devemos estar orgulhosos dos nossos combatentes; de quem disse "pronto", quando chegou a hora; quem lutou quando foi preciso lutar; quem não virou a cara aos sacrifícios; quem não desertou do combate ou, pior ainda, quem traiu a terra que lhe serviu de berço, a terra dos seus pais. Porque, desgraçadamente, desses sempre os houve e ainda há. Também deles falam "os Lusíadas" e não há estátuas, nomes de ruas, séries de televisão, condecorações, prémios, branqueamento da História, etc., que possa apagar essa realidade da memória colectiva da Nação. Pelo menos enquanto restar um português com algum saber, vergonha na cara, coluna direita e bem - querer na alma! Caros compatriotas, o combate não terminou com aqueles que hoje homenageamos e desenganem-se aqueles que julgam que não teremos de guerrear, novamente, ou que o terrorismo é apenas uma expressão de lunáticos contemporâneos, já que a sua origem remonta ao século XI, ao "velho da montanha" e à seita dos hashashin e, modernamente, em termos de terrorismo de Estado, à Revolução Francesa de 1789. Temos que nos preparar para os combates do futuro. Os nossos antepassados não andaram a trabalhar, a lutar, a edificar e a expandir o nosso país, desde 1128, para agora estarmos a alienar ao desbarato, a nossa soberania, a nossa nacionalidade, a nossa cultura (onde a língua tem um lugar de destaque), as nossas gentes, o nosso património e a nossa terra. Para ficarmos escravos de dívidas perpétuas e enredados em leis alheias, iberismos serôdios ou federalismos espúrios; sermos, eventualmente, submersos por vagas de estranhos, cujas matrizes culturais não estejamos aptos a integrar, sem perdermos a nossa; e a caminhar para, a breve trecho, não haver um Km2 de território em mãos portuguesas. E, outrossim, por nos estarmos a suicidar colectivamente, por via de excesso de emigração, imigração, leis de naturalização erradas, quebra demográfica gravíssima e corrupção galopante. Finalmente para sermos reféns de organizações sem rosto oficial, de carácter internacionalista e mais ao menos secretas ou discretas, que ninguém elegeu e que transformam, só por si, a Democracia e a Justiça, numa ficção. E em vez das cinco Quinas passarmos a ter como símbolo o "Deus Mamon". Temos de olhar à nossa volta, acordar e reagir! É que, como disse o tão mal citado Fernando Pessoa, "só existem Nações, não existe Humanidade". Caros compatriotas, esta cerimónia destina-se à exaltação da memória dos combatentes, nossos antepassados ou contemporâneos, mas destina-se também, aos que hoje vivem e a quem compete receber e passar o testemunho. Pois deles é o futuro e, por isso, a quem compete reflectir sobre o exemplo dos que caíram ou se sacrificaram no campo, que tem de ser da Honra, enquanto as imperfeições da natureza humana não permitem a erradicação da guerra e outras imoralidades, na eterna luta entre o Bem e o Mal. Devemos, deste modo, curvar-nos, reverentes e obrigados, junto aos nomes daqueles que estão gravados nos muros deste memorial, que combateram nas últimas das centenas de campanhas ultramarinas que realizámos nos últimos seis séculos (não foram seis décadas…), fazendo jus ao Padre António Vieira que um dia disse que "Deus deu aos portugueses um berço estreito para nascer e o mundo inteiro para morrer". Evoco em nome de todos, aquele cujo nome figurou primeiro neste local: o do Subchefe da polícia Aniceto do Rosário, morto em combate, que na iminência de um ataque dos indianos disse ao Governador, "Parta V. Exª descansado que eu não deixarei ficar mal a bandeira portuguesa". E não posso deixar de dizer, com todas as fibras do meu ser, que eles lutaram bem, competente e vitoriosamente, numa guerra justa, em termos humanos e que, infelizmente terminou de forma trágica e não merecida. Nesta luta fizemos frente à maior campanha montada a nível global e mundial, contra a Nação dos Portugueses, desde a Guerra da Restauração. Nela chegámos a manter 230 mil homens em pé de guerra, em quatro continentes e três oceanos, a combater durante 14 anos, em três teatros de operações enormes, distantes entre si e a então Metrópole – que era a base logística principal – por milhares de quilómetros, sem fazer uso de alianças militares e sem generais ou almirantes importados, o que já não sucedia desde Alcácer-Quibir. Usufruindo de uma logística notável – basta comparar com o que se passou com a nossa participação na I Guerra Mundial – que já não conseguíamos montar tão bem, desde que enviámos a terceira Armada, à Índia, comandada pelo João da Nova, em 1501! Abro um parêntesis para destacar a Marinha Mercante, neste esforço logístico, sem a qual não poderíamos ter reagido rapidamente nem sustentado tão longo período de operações. Hoje, dos 70.000 navios mercantes existentes no mundo, apenas uma dezena são de armadores portugueses e ostentam o pavilhão nacional. Nem meio batalhão conseguem transportar… Nesta campanha só não conseguimos resistir à miserável invasão de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, em 1961, pela enorme desproporção de forças em presença e pela usual hipocrisia das relações internacionais. Mesmo assim ainda conseguimos pô-la em sentido durante mais de 10 anos – não foi coisa de somenos. Nova Deli usou o "direito da força" mas nunca teve a força do Direito, nem da Razão! Toda esta acção, a todos os títulos magnífica, não encontra paralelo em nenhuma campanha contemporânea, mas foi apenas corolário daquilo que o escritor americano, James Michener, disse de nós e cito: "Nesses anos quando um soldado português desembarcava de um dos barcos da sua nação para servir num forte de Moçambique, ou em Malaca, ou nos estreitos de Java, já previa, durante o seu tempo de serviço, três cercos, durante os quais comeria erva e beberia urina. Estes defensores portugueses contribuíram para uma das mais corajosas resistências da História do Mundo". A estes se devem juntar todos aqueles e seus descendentes, que desde a tarde de S. Mamede, acompanharam o nosso pai, Afonso Henriques, e têm mantido o seu legado até aos dias de hoje. Lembrar o seu exemplo e preservar a sua memória, é tarefa ingente de todos os bons portugueses, pois tal deixou de ser feito na escola, na generalidade dos "média" e quase desapareceu do discurso político a não ser em frases de circunstância, ditas sem convicção. Em 1582, esse grande patriota que foi Ciprião Figueiredo de Vasconcellos, Governador das Ilhas dos Açores, escreveu ao monarca Habsburgo, que reinava em Madrid e atirou-lhe, "Antes morrer livres que em paz sujeitos" e logo acrescentou, "nem eu darei aos moradores destas ilhas outro conselho, porque um morrer bem é viver perpetuamente". Afirmamos hoje, o mesmo, com Esperança e acrisolada Fé, em que consigamos manter a estamina necessária para preservar a nossa terra, Portugal, livre e independente. Lembro que um combatente só dá baixa para a cova! Caros compatriotas, vou terminar com a melhor homenagem que podemos fazer a quem combateu e, porventura, morreu na defesa da terra dos nossos antepassados, e por tudo o que tal representa, incluindo o de que o seu sacrifício não possa ser considerado em vão. Vamos todos em conjunto e em uníssono, darmos um grande e empolgante viva a Portugal. Viva Portugal. Viva Portugal! Tenente-Coronel Brandão Ferreira
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2016.06.16 22:12 TotalenKrieg Discurso de um combatente pela Pátria - 10 de Junho 2016

"Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso Estes homens são o povo, e são os que nos defendem".
Acabo de ler um trecho de "O Povo", de Eça de Queiroz.
Bom dia a todos.
Os meus agradecimentos por me dispensarem uns minutos da vossa atenção.
A Constituição da República Portuguesa (CR), apesar de ser a mais extensa que tivemos, desde 1822, não encontrou espaço nos seus 296 artigos e sete revisões, para referir uma única vez a palavra "Nação"- a Nação dos Portugueses. Já relativamente à palavra "Pátria", a Constituição é mais pródiga: invoca-a, nada mais, nada menos, do que uma vez, mais concretamente no seu artigo 276, e cito "A defesa da Pátria é direito e dever fundamental de todos os portugueses"!
É sabido que a defesa da Pátria não se faz apenas de armas na mão; essa defesa pode e deve, estender-se a todas as áreas da actividade humana. Mas convém não esquecer que a defesa armada é o último argumento, que se faz em extremo e pode implicar o sacrifício de bens, sangue e vida. E, ao ter-se abandonado o Serviço Militar Obrigatório, parece que a defesa da Pátria – esse dever e direito fundamental, segundo a Constituição, ficou direito de todos e dever só de alguns…
A Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas, por sua vez, continua omissa sobre a "Nação", mas já fala duas vezes em Pátria; no seu artigo 9º repete a fórmula da Constituição; e noArt.º 22 afirma peremptoriamente que, "será assegurada de forma permanente a preparação do País, designadamente das Forças Armadas para a defesa da Pátria" (atenção, eu só estou a dizer o que está lá escrito, não confundir com o que se tem feito…).
Ora haver Nação sem Pátria é curto; mas haver Pátria sem Nação, é impossível!… Porém, não havendo aparentemente, Nação, o Estado, que é justamente a Nação politicamente organizada, representará, então, quem ou o quê? Ora se o Estado não representar a Nação, não pode sentir a Pátria como sua, tão pouco a entender. Portugal é, todavia, uma Nação coesa, seguramente desde o tempo do esclarecido Rei, o Senhor D. Dinis; com as mais antigas fronteiras estáveis do mundo, mau grado o esbulho pendente de Olivença; formou um Estado Nacional Português, desde o tempo do preclaro Rei, Senhor D. João II e ganhou consciência que era uma Pátria, senão antes, garantidamente, depois de Camões ter escrito os Lusíadas! E Camões – que também foi um combatente - não se esqueceu de, neles, referir a Nação – fê-lo, até, por sete vezes – e não foi avaro em relação à Pátria já que a evoca em 35 ocasiões! E a obra de Luís Vaz – cuja morte neste dia também evocamos - foi-lhe tão superior e transcendente, que ele próprio se enganou ao dizer, pressentindo o fim, que "morria com a Pátria", antevendo a ocupação castelhana. O certo é que, a Nação que já era Pátria, sobreviveu aos 60 anos da Coroa Dual Filipina e passou a viver de vida própria, qual fénix renascida! O que atrás se disse representa, pois, a dissonância existente entre o Estado e a Nação, que é a razão por que nós nos reunimos aqui, desde há cerca de 25 anos, a comemorar o Dia de Portugal, honrando os combatentes, enquanto as figuras que ocupam transitoriamente as cadeiras do Poder – Poder que está hoje, maioritariamente, fora do país – estão sempre noutro lado. E quanto aos combatentes por norma, aos costumes dizem nada. Essa é também a razão pela qual as Forças Armadas só voltaram a integrar as comemorações oficiais do feriado nacional, há 10 anos, depois delas terem estado arredadas cerca de três décadas.
E caros compatriotas aqui presentes, não somos nós que estamos mal; "eles" é que se afastaram do trilho certo. Do trilho do Dever, da Honra, do Patriotismo, do amor a Portugal.
Esta cerimónia, singela mas muito digna, realizou-se sempre sem se pedir um ceitil que fosse, ao Estado e junto a um monumento, em memória dos combatentes, em que nada se pediu, também, ao Estado – aliás, em várias alturas, teve que ser construído com a oposição desse mesmo Estado. Parece que a frase, entre muitas, célebre, do grande português e militar, que foi o Tenente- Coronel Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, de que "Portugal é obra de soldados" passou a estar na moda. Mas estando ou não, na moda, essa frase foi sempre uma realidade, pois sem soldados – isto é, sem combatentes – não haveria território, a tal "nesga de terra debruada de mar", no dizer de Torga; não haveria população; não haveria matriz cultural; não haveria segurança, não haveria Justiça, não haveria Bem-Estar, não haveria liberdade.
E quem permitiu e fez isto? Pois foram os soldados, os combatentes, o tal povo, do Eça. Onde se devem individualizar as mães e as mulheres, pois foram elas que sempre aguentaram a retaguarda! Por isso todos nós devemos estar orgulhosos dos nossos combatentes; de quem disse "pronto", quando chegou a hora; quem lutou quando foi preciso lutar; quem não virou a cara aos sacrifícios; quem não desertou do combate ou, pior ainda, quem traiu a terra que lhe serviu de berço, a terra dos seus pais.
Porque, desgraçadamente, desses sempre os houve e ainda há. Também deles falam "os Lusíadas" e não há estátuas, nomes de ruas, séries de televisão, condecorações, prémios, branqueamento da História, etc., que possa apagar essa realidade da memória colectiva da Nação. Pelo menos enquanto restar um português com algum saber, vergonha na cara, coluna direita e bem - querer na alma! Caros compatriotas, o combate não terminou com aqueles que hoje homenageamos e desenganem-se aqueles que julgam que não teremos de guerrear, novamente, ou que o terrorismo é apenas uma expressão de lunáticos contemporâneos, já que a sua origem remonta ao século XI, ao "velho da montanha" e à seita dos hashashin e, modernamente, em termos de terrorismo de Estado, à Revolução Francesa de 1789. Temos que nos preparar para os combates do futuro.
Os nossos antepassados não andaram a trabalhar, a lutar, a edificar e a expandir o nosso país, desde 1128, para agora estarmos a alienar ao desbarato, a nossa soberania, a nossa nacionalidade, a nossa cultura (onde a língua tem um lugar de destaque), as nossas gentes, o nosso património e a nossa terra.
Para ficarmos escravos de dívidas perpétuas e enredados em leis alheias, iberismos serôdios ou federalismos espúrios; sermos, eventualmente, submersos por vagas de estranhos, cujas matrizes culturais não estejamos aptos a integrar, sem perdermos a nossa; e a caminhar para, a breve trecho, não haver um Km2 de território em mãos portuguesas. E, outrossim, por nos estarmos a suicidar colectivamente, por via de excesso de emigração, imigração, leis de naturalização erradas, quebra demográfica gravíssima e corrupção galopante.
Finalmente para sermos reféns de organizações sem rosto oficial, de carácter internacionalista e mais ao menos secretas ou discretas, que ninguém elegeu e que transformam, só por si, a Democracia e a Justiça, numa ficção. E em vez das cinco Quinas passarmos a ter como símbolo o "Deus Mamon". Temos de olhar à nossa volta, acordar e reagir! É que, como disse o tão mal citado Fernando Pessoa, "só existem Nações, não existe Humanidade". Caros compatriotas, esta cerimónia destina-se à exaltação da memória dos combatentes, nossos antepassados ou contemporâneos, mas destina-se também, aos que hoje vivem e a quem compete receber e passar o testemunho.
Pois deles é o futuro e, por isso, a quem compete reflectir sobre o exemplo dos que caíram ou se sacrificaram no campo, que tem de ser da Honra, enquanto as imperfeições da natureza humana não permitem a erradicação da guerra e outras imoralidades, na eterna luta entre o Bem e o Mal. Devemos, deste modo, curvar-nos, reverentes e obrigados, junto aos nomes daqueles que estão gravados nos muros deste memorial, que combateram nas últimas das centenas de campanhas ultramarinas que realizámos nos últimos seis séculos (não foram seis décadas…), fazendo jus ao Padre António Vieira que um dia disse que "Deus deu aos portugueses um berço estreito para nascer e o mundo inteiro para morrer". Evoco em nome de todos, aquele cujo nome figurou primeiro neste local: o do Subchefe da polícia Aniceto do Rosário, morto em combate, que na iminência de um ataque dos indianos disse ao Governador, "Parta V. Exª descansado que eu não deixarei ficar mal a bandeira portuguesa". E não posso deixar de dizer, com todas as fibras do meu ser, que eles lutaram bem, competente e vitoriosamente, numa guerra justa, em termos humanos e que, infelizmente terminou de forma trágica e não merecida. Nesta luta fizemos frente à maior campanha montada a nível global e mundial, contra a Nação dos Portugueses, desde a Guerra da Restauração. Nela chegámos a manter 230 mil homens em pé de guerra, em quatro continentes e três oceanos, a combater durante 14 anos, em três teatros de operações enormes, distantes entre si e a então Metrópole – que era a base logística principal – por milhares de quilómetros, sem fazer uso de alianças militares e sem generais ou almirantes importados, o que já não sucedia desde Alcácer-Quibir.
Usufruindo de uma logística notável – basta comparar com o que se passou com a nossa participação na I Guerra Mundial – que já não conseguíamos montar tão bem, desde que enviámos a terceira Armada, à Índia, comandada pelo João da Nova, em 1501! Abro um parêntesis para destacar a Marinha Mercante, neste esforço logístico, sem a qual não poderíamos ter reagido rapidamente nem sustentado tão longo período de operações. Hoje, dos 70.000 navios mercantes existentes no mundo, apenas uma dezena são de armadores portugueses e ostentam o pavilhão nacional. Nem meio batalhão conseguem transportar… Nesta campanha só não conseguimos resistir à miserável invasão de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, em 1961, pela enorme desproporção de forças em presença e pela usual hipocrisia das relações internacionais. Mesmo assim ainda conseguimos pô-la em sentido durante mais de 10 anos – não foi coisa de somenos. Nova Deli usou o "direito da força" mas nunca teve a força do Direito, nem da Razão!
Toda esta acção, a todos os títulos magnífica, não encontra paralelo em nenhuma campanha contemporânea, mas foi apenas corolário daquilo que o escritor americano, James Michener, disse de nós e cito: "Nesses anos quando um soldado português desembarcava de um dos barcos da sua nação para servir num forte de Moçambique, ou em Malaca, ou nos estreitos de Java, já previa, durante o seu tempo de serviço, três cercos, durante os quais comeria erva e beberia urina. Estes defensores portugueses contribuíram para uma das mais corajosas resistências da História do Mundo".
A estes se devem juntar todos aqueles e seus descendentes, que desde a tarde de S. Mamede, acompanharam o nosso pai, Afonso Henriques, e têm mantido o seu legado até aos dias de hoje. Lembrar o seu exemplo e preservar a sua memória, é tarefa ingente de todos os bons portugueses, pois tal deixou de ser feito na escola, na generalidade dos "média" e quase desapareceu do discurso político a não ser em frases de circunstância, ditas sem convicção. Em 1582, esse grande patriota que foi Ciprião Figueiredo de Vasconcellos, Governador das Ilhas dos Açores, escreveu ao monarca Habsburgo, que reinava em Madrid e atirou-lhe, "Antes morrer livres que em paz sujeitos" e logo acrescentou, "nem eu darei aos moradores destas ilhas outro conselho, porque um morrer bem é viver perpetuamente". Afirmamos hoje, o mesmo, com Esperança e acrisolada Fé, em que consigamos manter a estamina necessária para preservar a nossa terra, Portugal, livre e independente. Lembro que um combatente só dá baixa para a cova! Caros compatriotas, vou terminar com a melhor homenagem que podemos fazer a quem combateu e, porventura, morreu na defesa da terra dos nossos antepassados, e por tudo o que tal representa, incluindo o de que o seu sacrifício não possa ser considerado em vão.
Vamos todos em conjunto e em uníssono, darmos um grande e empolgante viva a Portugal.
Viva Portugal.
Viva Portugal!
Tenente-Coronel Brandão Ferreira
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2016.06.16 20:02 TotalenKrieg Discurso de um grande combatente pela Pátria - 10 de Junho 2016

"Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso Estes homens são o povo, e são os que nos defendem".
Acabo de ler um trecho de "O Povo", de Eça de Queiroz.
Bom dia a todos.
Os meus agradecimentos por me dispensarem uns minutos da vossa atenção.
A Constituição da República Portuguesa (CR), apesar de ser a mais extensa que tivemos, desde 1822, não encontrou espaço nos seus 296 artigos e sete revisões, para referir uma única vez a palavra "Nação"- a Nação dos Portugueses.
Já relativamente à palavra "Pátria", a Constituição é mais pródiga: invoca-a, nada mais, nada menos, do que uma vez, mais concretamente no seu artigo 276, e cito "A defesa da Pátria é direito e dever fundamental de todos os portugueses"!
É sabido que a defesa da Pátria não se faz apenas de armas na mão; essa defesa pode e deve, estender-se a todas as áreas da actividade humana.
Mas convém não esquecer que a defesa armada é o último argumento, que se faz em extremo e pode implicar o sacrifício de bens, sangue e vida. E, ao ter-se abandonado o Serviço Militar Obrigatório, parece que a defesa da Pátria – esse dever e direito fundamental, segundo a Constituição, ficou direito de todos e dever só de alguns…
A Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas, por sua vez, continua omissa sobre a "Nação", mas já fala duas vezes em Pátria; no seu artigo 9º repete a fórmula da Constituição; e noArt.º 22 afirma peremptoriamente que, "será assegurada de forma permanente a preparação do País, designadamente das Forças Armadas para a defesa da Pátria" (atenção, eu só estou a dizer o que está lá escrito, não confundir com o que se tem feito…).
Ora haver Nação sem Pátria é curto; mas haver Pátria sem Nação, é impossível!…
Porém, não havendo aparentemente, Nação, o Estado, que é justamente a Nação politicamente organizada, representará, então, quem ou o quê?
Ora se o Estado não representar a Nação, não pode sentir a Pátria como sua, tão pouco a entender. Portugal é, todavia, uma Nação coesa, seguramente desde o tempo do esclarecido Rei, o Senhor D. Dinis; com as mais antigas fronteiras estáveis do mundo, mau grado o esbulho pendente de Olivença; formou um Estado Nacional Português, desde o tempo do preclaro Rei, Senhor D. João II e ganhou consciência que era uma Pátria, senão antes, garantidamente, depois de Camões ter escrito os Lusíadas!
E Camões – que também foi um combatente - não se esqueceu de, neles, referir a Nação – fê-lo, até, por sete vezes – e não foi avaro em relação à Pátria já que a evoca em 35 ocasiões!
E a obra de Luís Vaz – cuja morte neste dia também evocamos - foi-lhe tão superior e transcendente, que ele próprio se enganou ao dizer, pressentindo o fim, que "morria com a Pátria", antevendo a ocupação castelhana.
O certo é que, a Nação que já era Pátria, sobreviveu aos 60 anos da Coroa Dual Filipina e passou a viver de vida própria, qual fénix renascida!
O que atrás se disse representa, pois, a dissonância existente entre o Estado e a Nação, que é a razão por que nós nos reunimos aqui, desde há cerca de 25 anos, a comemorar o Dia de Portugal, honrando os combatentes, enquanto as figuras que ocupam transitoriamente as cadeiras do Poder – Poder que está hoje, maioritariamente, fora do país – estão sempre noutro lado. E quanto aos combatentes por norma, aos costumes dizem nada.
Essa é também a razão pela qual as Forças Armadas só voltaram a integrar as comemorações oficiais do feriado nacional, há 10 anos, depois delas terem estado arredadas cerca de três décadas.
E caros compatriotas aqui presentes, não somos nós que estamos mal; "eles" é que se afastaram do trilho certo. Do trilho do Dever, da Honra, do Patriotismo, do amor a Portugal.
Esta cerimónia, singela mas muito digna, realizou-se sempre sem se pedir um ceitil que fosse, ao Estado e junto a um monumento, em memória dos combatentes, em que nada se pediu, também, ao Estado – aliás, em várias alturas, teve que ser construído com a oposição desse mesmo Estado.
Parece que a frase, entre muitas, célebre, do grande português e militar, que foi o Tenente- Coronel Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, de que "Portugal é obra de soldados" passou a estar na moda.
Mas estando ou não, na moda, essa frase foi sempre uma realidade, pois sem soldados – isto é, sem combatentes – não haveria território, a tal "nesga de terra debruada de mar", no dizer de Torga; não haveria população; não haveria matriz cultural; não haveria segurança, não haveria Justiça, não haveria Bem-Estar, não haveria liberdade.
E quem permitiu e fez isto? Pois foram os soldados, os combatentes, o tal povo, do Eça. Onde se devem individualizar as mães e as mulheres, pois foram elas que sempre aguentaram a retaguarda!
Por isso todos nós devemos estar orgulhosos dos nossos combatentes; de quem disse "pronto", quando chegou a hora; quem lutou quando foi preciso lutar; quem não virou a cara aos sacrifícios; quem não desertou do combate ou, pior ainda, quem traiu a terra que lhe serviu de berço, a terra dos seus pais.
Porque, desgraçadamente, desses sempre os houve e ainda há.
Também deles falam "os Lusíadas" e não há estátuas, nomes de ruas, séries de televisão, condecorações, prémios, branqueamento da História, etc., que possa apagar essa realidade da memória colectiva da Nação.
Pelo menos enquanto restar um português com algum saber, vergonha na cara, coluna direita e bem - querer na alma!
Caros compatriotas, o combate não terminou com aqueles que hoje homenageamos e desenganem-se aqueles que julgam que não teremos de guerrear, novamente, ou que o terrorismo é apenas uma expressão de lunáticos contemporâneos, já que a sua origem remonta ao século XI, ao "velho da montanha" e à seita dos hashashin e, modernamente, em termos de terrorismo de Estado, à Revolução Francesa de 1789.
Temos que nos preparar para os combates do futuro.
Os nossos antepassados não andaram a trabalhar, a lutar, a edificar e a expandir o nosso país, desde 1128, para agora estarmos a alienar ao desbarato, a nossa soberania, a nossa nacionalidade, a nossa cultura (onde a língua tem um lugar de destaque), as nossas gentes, o nosso património e a nossa terra.
Para ficarmos escravos de dívidas perpétuas e enredados em leis alheias, iberismos serôdios ou federalismos espúrios; sermos, eventualmente, submersos por vagas de estranhos, cujas matrizes culturais não estejamos aptos a integrar, sem perdermos a nossa; e a caminhar para, a breve trecho, não haver um Km2 de território em mãos portuguesas.
E, outrossim, por nos estarmos a suicidar colectivamente, por via de excesso de emigração, imigração, leis de naturalização erradas, quebra demográfica gravíssima e corrupção galopante.
Finalmente para sermos reféns de organizações sem rosto oficial, de carácter internacionalista e mais ao menos secretas ou discretas, que ninguém elegeu e que transformam, só por si, a Democracia e a Justiça, numa ficção.
E em vez das cinco Quinas passarmos a ter como símbolo o "Deus Mamon".
Temos de olhar à nossa volta, acordar e reagir! É que, como disse o tão mal citado Fernando Pessoa, "só existem Nações, não existe Humanidade".
Caros compatriotas, esta cerimónia destina-se à exaltação da memória dos combatentes, nossos antepassados ou contemporâneos, mas destina-se também, aos que hoje vivem e a quem compete receber e passar o testemunho.
Pois deles é o futuro e, por isso, a quem compete reflectir sobre o exemplo dos que caíram ou se sacrificaram no campo, que tem de ser da Honra, enquanto as imperfeições da natureza humana não permitem a erradicação da guerra e outras imoralidades, na eterna luta entre o Bem e o Mal.
Devemos, deste modo, curvar-nos, reverentes e obrigados, junto aos nomes daqueles que estão gravados nos muros deste memorial, que combateram nas últimas das centenas de campanhas ultramarinas que realizámos nos últimos seis séculos (não foram seis décadas…), fazendo jus ao Padre António Vieira que um dia disse que "Deus deu aos portugueses um berço estreito para nascer e o mundo inteiro para morrer".
Evoco em nome de todos, aquele cujo nome figurou primeiro neste local: o do Subchefe da polícia Aniceto do Rosário, morto em combate, que na iminência de um ataque dos indianos disse ao Governador, "Parta V. Exª descansado que eu não deixarei ficar mal a bandeira portuguesa".
E não posso deixar de dizer, com todas as fibras do meu ser, que eles lutaram bem, competente e vitoriosamente, numa guerra justa, em termos humanos e que, infelizmente terminou de forma trágica e não merecida.
Nesta luta fizemos frente à maior campanha montada a nível global e mundial, contra a Nação dos Portugueses, desde a Guerra da Restauração.
Nela chegámos a manter 230 mil homens em pé de guerra, em quatro continentes e três oceanos, a combater durante 14 anos, em três teatros de operações enormes, distantes entre si e a então Metrópole – que era a base logística principal – por milhares de quilómetros, sem fazer uso de alianças militares e sem generais ou almirantes importados, o que já não sucedia desde Alcácer-Quibir.
Usufruindo de uma logística notável – basta comparar com o que se passou com a nossa participação na I Guerra Mundial – que já não conseguíamos montar tão bem, desde que enviámos a terceira Armada, à Índia, comandada pelo João da Nova, em 1501! Abro um parêntesis para destacar a Marinha Mercante, neste esforço logístico, sem a qual não poderíamos ter reagido rapidamente nem sustentado tão longo período de operações.
Hoje, dos 70.000 navios mercantes existentes no mundo, apenas uma dezena são de armadores portugueses e ostentam o pavilhão nacional. Nem meio batalhão conseguem transportar…
Nesta campanha só não conseguimos resistir à miserável invasão de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, em 1961, pela enorme desproporção de forças em presença e pela usual hipocrisia das relações internacionais. Mesmo assim ainda conseguimos pô-la em sentido durante mais de 10 anos – não foi coisa de somenos.
Nova Deli usou o "direito da força" mas nunca teve a força do Direito, nem da Razão!
Toda esta acção, a todos os títulos magnífica, não encontra paralelo em nenhuma campanha contemporânea, mas foi apenas corolário daquilo que o escritor americano, James Michener, disse de nós e cito: "Nesses anos quando um soldado português desembarcava de um dos barcos da sua nação para servir num forte de Moçambique, ou em Malaca, ou nos estreitos de Java, já previa, durante o seu tempo de serviço, três cercos, durante os quais comeria erva e beberia urina. Estes defensores portugueses contribuíram para uma das mais corajosas resistências da História do Mundo".
A estes se devem juntar todos aqueles e seus descendentes, que desde a tarde de S. Mamede, acompanharam o nosso pai, Afonso Henriques, e têm mantido o seu legado até aos dias de hoje.
Lembrar o seu exemplo e preservar a sua memória, é tarefa ingente de todos os bons portugueses, pois tal deixou de ser feito na escola, na generalidade dos "média" e quase desapareceu do discurso político a não ser em frases de circunstância, ditas sem convicção.
Em 1582, esse grande patriota que foi Ciprião Figueiredo de Vasconcellos, Governador das Ilhas dos Açores, escreveu ao monarca Habsburgo, que reinava em Madrid e atirou-lhe, "Antes morrer livres que em paz sujeitos" e logo acrescentou, "nem eu darei aos moradores destas ilhas outro conselho, porque um morrer bem é viver perpetuamente".
Afirmamos hoje, o mesmo, com Esperança e acrisolada Fé, em que consigamos manter a estamina necessária para preservar a nossa terra, Portugal, livre e independente.
Lembro que um combatente só dá baixa para a cova!
Caros compatriotas, vou terminar com a melhor homenagem que podemos fazer a quem combateu e, porventura, morreu na defesa da terra dos nossos antepassados, e por tudo o que tal representa, incluindo o de que o seu sacrifício não possa ser considerado em vão.
Vamos todos em conjunto e em uníssono, darmos um grande e empolgante viva a Portugal.
Viva Portugal.
Viva Portugal!
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